esquina

O pintor de almas

Seu retrato em tinta, chocolate ou vinho

Paulo Werneck
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2007

“Puseram o Camasmie numa redoma, e isso não é bom”, diz Roberto Camasmie. Não é exatamente uma redoma, mas uma bem localizada vitrine na esquina da rua Bela Cintra com a alameda Lorena, nos Jardins, em São Paulo. E quem olha tem certeza de que ele foi parar ali de moto próprio. “Aqui a luz é melhor”, diz o homem que fica exposto ao público como uma geladeira das Casas Bahia. Ao pintar nessas condições, tem a vantagem adicional de ouvir o comentário dos transeuntes, que freqüentemente dão uma paradinha na calçada para testemunhar o fulgor criativo do artista. Muitos devem pensar que, para ter um legítimo Camasmie em casa, só ganhando na loteria. “Não é bem assim”, esclarece o pintor-vitrine. Com 5 mil reais, leva-se, por exemplo, o Einstein da tela A Teoria, da série Mitos em Pano.

A galeria de Roberto Camasmie, além de ampla e iluminada, é limpa e arrumada. Não lembra em nada a bagunça não perfeitamente asséptica que se esperaria de um ateliê. Tintas, pincéis (uma vasta coleção, é claro), fixador e cola ficam meticulosamente dispostos numa mesa. A roupa acompanha a sobriedade e o asseio geral. Camasmie não se fantasia de pintor. Dispensa roupas velhas respingadas de tinta e terebintina. (O único sinal de tinta em Camasmie está nos seus cabelos.) Quando recebeu o repórter, ele trabalhava num portrait a crayon, no qual uma mulher de cabelos esvoaçantes esboçava um sorriso. Venta muito nas telas de Camasmie, principalmente nas que retratam mulheres.

Roberto Camasmie vendeu seu primeiro portrait aos 11 anos de idade, a uma coleguinha de escola. Quarenta e um anos depois, sua esquina nos Jardins é ponto de referência tanto para os que admiram sua técnica de pendor ultra-realista, como para os que reconhecem nela um retrato fiel do kitsch paulistano. Uma segunda vitrine – a de Camasmie é só dele – exibia em agosto um baita Elvis, também do catálogo dos Mitos em Pano, uma das séries mais recentes do artista. Nela, a imagem do retratado é repetida quatro vezes, à moda de Andy Warhol, com a diferença de que cada imagem corresponde a uma escola diferente. Nas palavras de Camasmie: “Aqui, temos um cubismo; aqui, Roy Lichtenstein; aqui é Picasso; e aqui, Flavio de Carvalho”.

No mesmo mês em que homenageou os trinta anos da morte de Elvis, Camasmie publicou um anúncio na coluna de Cesar Giobbi no Estado de S. Paulo, sugerindo um bom presente para o Dia dos Pais: um portrait do dito-cujo e, melhor ainda, da safra “pais de vinho”. Para fazer suas tintas vinosas, Camasmie obteve o vinho com a ajuda da empresa de bebidas do ex-ministro da Educação Paulo Renato Souza, um dos pais retratados na série, ao lado de Gugu Liberato, o rabino Sobel, o arquiteto Jorge Elias, o playboy Álvaro Garnero, o político José Aristodemo Pinotti e o pagodeiro Netinho (cujo retrato precisou de um acréscimo de chocolate para chegar ao tom da pele negra). Para os que gostam, ele oferece também as mães de chocolate, mas “não tem nada a ver com os retratos que o Vik Muniz faz”, esclarece de pronto. Muniz, em seus famosos retratos, adota calda de chocolate; a técnica de Camasmie requer chocolate derretido. “Para fazer a figura, uso da Kopenhagen.” Na composição do fundo, ele aplica chocolate granulado colorido, florzinhas de açúcar e outros materiais de confeiteiro.

 

Se daqui a milênios só restar de São Paulo, por exemplo, o retrato de João Doria Jr. pintado por Camasmie com o vinho de Paulo Renato, o arqueólogo que o encontrar terá um valioso atestado de algumas preferências da nossa boa sociedade. Melhor que Doria Jr., só mesmo a tela que retrata a trajetória de Alberto Saraiva, o dono da cadeia de comida árabe Habib’s. São imagens de diversos tamanhos, pintadas com técnicas várias num mesmo suporte, sintetizando a irresistível ascensão do empresário das esfihas. É um rico documento etnográfico para os estudiosos do futuro.

Segundo informa em seu site, em 1966 Camasmie “inicia profissionalmente sua carreira, fazendo retratos em preto e branco de senhoras da sociedade de São Paulo e Rio de Janeiro”. Fez sucesso na coluna social de Tavares de Miranda, na Folha de S.Paulo – chegou aos píncaros nos anos 70 -, mas nunca recebeu atenção da crítica especializada. “De vez em quando esse pessoal assim que nem você, um jornalista diferente, se interessa pelo meu trabalho. Eu percebo isso.” Ele acha excelente ver seu nome estampado nas páginas, ainda que no contexto dos que têm restrições à sua pintura, digamos assim, menos ousada.

Muitas vezes, celebridades oferecem um Camasmie a outras celebridades. Foi o caso do retrato do papa Bento XVI, companheiro de Einstein e Elvis no panteão dos Mitos em Pano, que a primeira-dama Marisa Letícia ofereceu ao sumo pontífice quando da visita dele ao Brasil.

É na entressafra das encomendas que o artista cria as novas séries, nas quais avança em suas experiências estéticas. A cobaia é sempre a sua mãe, dona Jacira. (É como se Pitanguy escolhesse o rosto materno para testar as novidades com o bisturi.) Ela é sempre a primeira porque, em parte, se não der certo, tudo bem, mas em parte também porque ele sem dúvida conhece a alma da mãe. E justamente, como diz Camasmie, o que ele capta nos seus retratos é a alma da pessoa. Na tela que fez do papa, Joseph Ratzinger chega a ganhar um sorriso meigo entre bochechas rosadinhas. Convenhamos, não é pouco.

Paulo Werneck

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