vultos da República

O pit bull do papai

Os tormentos e as brigas de Carlos Bolsonaro, o filho mais próximo do presidente

Malu Gaspar
CRÉDITO: BAPTISTÃO_2019

Na noite de 25 de agosto de 2016, Jair Bolsonaro estava reunido com os filhos Flavio e Eduardo, mais assessores e aliados, num camarim do Oi Casa Grande, teatro onde seria realizado o primeiro debate dos candidatos a prefeito do Rio de Janeiro, pela Rede Bandeirantes. A tensão era geral e o calor acentuava a irritação – o ar-condicionado estava quebrado. Era a primeira vez que um membro da família Bolsonaro disputava um cargo executivo e participava de um debate na tevê. Flavio, o candidato a prefeito, e seu pai vinham se desentendendo havia algum tempo. Jair Bolsonaro não via com bons olhos a candidatura do primogênito, então no quarto mandato de deputado estadual. Temia que um eventual fracasso pudesse prejudicar sua própria campanha à Presidência, dali a dois anos. Fenômeno emergente da política brasileira, Bolsonaro vinha sendo recebido em aeroportos e eventos da direita aos gritos de “mito”. Flavio, porém, insistiu na candidatura. Argumentou que havia espaço para alguém com seu perfil e que sua campanha impulsionaria a do pai, mesmo em caso de derrota. Foi apoiado entusiasticamente pelo Pastor Everaldo, presidente nacional do Partido Social Cristão (PSC), que abrigava todos os políticos da família.

Naquela noite, Bolsonaro andava de um lado para o outro, soltando farpas contra Flavio, que se mantinha quieto. “Vê lá o que você vai fazer! Não era nem para você estar aqui! Não vai fazer merda aí!” Havia outro motivo para a irritação: o fato de alguns empresários terem oferecido doações à campanha. Um dos bordões mais repetidos por ele era que os Bolsonaro não precisavam de dinheiro para se eleger. Tanto Flavio como Pastor Everaldo, porém, defendiam as doações, ressaltando que estavam dentro da lei – naquela época, embora doações de empresas não fossem mais permitidas, os empresários ainda podiam dar dinheiro, como pessoa física, diretamente às campanhas*. Bolsonaro não engoliu a explicação. Achava que o pastor queria se aproveitar do filho para encher as burras do partido, e até gravou, dias depois, um vídeo pedindo que não dessem dinheiro às campanhas do clã.

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Malu Gaspar

Repórter da piauí, é autora do livro Tudo ou Nada: Eike Batista e a Verdadeira História do Grupo X, da Editora Record

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