humor

O popular exaltado

Aristóteles e Sêneca analisam o sujeito que cospe, berra, xinga, faz discurso em cima do caixote e se julga permanentemente ultrajado. Suas frases prediletas são “Não tem cabimento” e “Disso a imprensa não fala”

Vanessa Barbara
ILUSTRAÇÃO: REINALDO_2011

Ao contrário de nós, que afastamos discretamente um fio de cabelo do macarrão, e que não nos sentimos ofendidos quando um voo Rio-Curitiba tem que fazer escala em Ribeirão Preto devido a uma tramoia da companhia aérea; ao contrário de nós, que aguardamos com boa vontade a moça do guichê terminar de falar com a prima no celular, enfim, ao contrário de nós, existe o popular exaltado.

É ele que, com a mão no volante do carro, num congestionamento, xinga todos os membros do gabinete do prefeito, um a um (inclusive a tia do café). É ele que faz referência ao “bolso do contribuinte”, que reclama do rodízio de carros e denuncia “disso a imprensa não fala!”, apontando para a fila dupla na porta de uma escola.

É o popular exaltado quem invoca o Código de Defesa do Consumidor a respeito de qualquer coisa, que cita a Declaração Universal dos Direitos Humanos ao trocar uma centrífuga que não coa bem o bagaço. É aquele advogado careca que arenga para multidões na fila do banco, e aproveita para se queixar das taxas de juros, da tarifa dos serviços, da necessidade de duas senhas e da matança de bebês panda na Mongólia.

O popular exaltado destaca-se pelo tom injuriado das reclamações, que têm pertinência, mas, em geral, descambam para a emissão violenta de perdigotos e impropérios a quem estiver pela frente e imediações, seja o funcionário recém-contratado, a estagiária sensível, o zelador gago, o rapaz do almoxarifado, o porteiro distraído.



Numa loja de celulares, ele pede para chamar o gerente. Ao gerente, pede para chamar o supervisor. Quando o funcionário mais graduado garante que não há mais ninguém acima dele, o popular exaltado fica transtornado, quase feliz, e, aos urros, indaga: “É com a presidenta Dilma que estou falando?”

Ao se perder na argumentação, apelando para vitupérios insolentes ou aproveitando para desfiar todas as suas mágoas, o popular exaltado é tratado como um reles Doido de Fila de Banco, ou então como o Querelante Convicto, ou mesmo como a Hiena Reclamona (“Ó vida, ó céus, ó azar!”) – tipos populares também eles, mas de outra estirpe.

Popular exaltado legítimo foi aquele que, em abril do ano passado, apoquentado com as enchentes que mataram mais de 200 pessoas no Rio de Janeiro, ficou preso no trânsito e foi entrevistado por um repórter de televisão (o vídeo está no YouTube). Ele começa pelo “governador Sérgio Cabral, com aquela cara de tartaruga Touché, falando que o Rio é uma cidade maravilhosa”.

Vai em cima do prefeito: “Isto aqui é um engodo, uma cidade governada por milícias, traficantes e vagabundos. Meu carro, com o IPVA em dia, está enchendo d’água, e cadê aquele f*&%p do Eduardo Paes?”

Volta-se contra o entrevistador: “E vocês, da imprensa, ficam lá tirando fotinha dele, ‘Ai, Eduardo Paes, Choque de Ordem, tirou da rua o camelô, multou o carrinho que estava na calçada’. Agora, cadê a Guarda Municipal?”

E delira: “A gente paga imposto para sustentar Daniel Dantas e Eike Batista. F*&%-se o Eike Batista, que está f*&#@&o uma piranha que cobra mil reais a hora. F*&%-se a Nicole Bahls, que está d%@&o pro filho do Eike Batista. F*&%-se se a Britney Spears está grávida de um cavalo. Eu quero saber quem vai pagar o prejuízo do meu carro, tá?”

E vem a apoteose: “Essa coisa fascista de dizer que a gente mora numa cidade maravilhosa, isso aí é uma falácia criada por aquela bicha enrustida do Tom Jobim, prócer da ditadura que cantava assim: ‘Ipanema é tão legal, o meu pai é general.’ Então é isso aí: F*&%-se a bossa nova, f*&%-se o Sérgio Cabral tartaruga Touché e f*&%-se o Eduardo Paes.”

E conclui o depoimento com um agradecimento ao repórter: “Olha, você me curou de um câncer agora.”

Dá vontade de aplaudir.

O popular exaltado é uma versão loquaz e combatente do “Popular”, personagem de Luis Fernando Verissimo que está sempre assistindo aos acontecimentos com um embrulho debaixo do braço, a camisa esporte clara para fora da calça (marca Volta ao Mundo?), o ar de eterno espectador.

Mas o popular ortodoxo não se mete nos assuntos, não se manifesta, não se queixa, não expõe sua opinião, não acha nada de coisa nenhuma. Já o popular exaltado cospe, berra, xinga, faz discurso em cima de um caixote e se julga permanentemente ultrajado. Suas frases prediletas são “É um absurdo”, “Não tem cabimento” e “Isso a televisão não mostra”.

Quando em viagem, o popular exaltado se solta. No livro Uma Semana no Aeroporto, Alain de Botton descreveu um sujeito que dava murros no balcão e soltou um grito de desespero tão lancinante que se ouviu “lá longe, na loja da WH Smith, no final da ala oeste do terminal”. Para o escritor, o uivo seria sinal de uma disposição esperançosa: “Temos raiva porque somos seres otimistas demais, pouquíssimo preparados para as endêmicas frustrações da existência. Um homem que berra toda vez que perde as chaves ou é barrado no avião demonstra uma tocante mas ingênua e imprudente fé em um mundo onde não se perdem chaves, nem malas, nem voos.”

Em Ética a Nicômaco, Aristóteles defende o popular exaltado: “O que se irrita justificadamente nas situações em que se deve irritar, ou com as pessoas com as quais se deve irritar, e ainda da maneira como deve ser, quando deve ser e durante o tempo em que deve ser, é geralmente louvado.”

Aristóteles, no entanto, admite haver “excessos a respeito de todos os elementos circunstanciais envolvidos num acesso de ira (seja por se dirigir contra as pessoas indevidas, seja por motivos falsos, seja por exagero, ou por surgir rapidamente, ou por durar tempo demais)”. Ainda assim, insiste: Iram calcar ait esse virtutis (A ira é o aguilhão da virtude).

Podem ser classificados, assim, na categoria de populares exaltados e persistentes, a costureira Rosa Parks, que se recusou a dar lugar no ônibus para um branco, Martin Luther King, Antígona, o rebelde desconhecido da Praça da Paz Celestial e os franceses (pois vivem reclamando de tudo, mas com lógica cartesiana).

Embora o popular exaltado possa ser visto com admiração em certos casos, não é o que pensa o filósofo romano Sêneca. No tratado Da Ira, ele indaga: seria certo considerar saudável “aquele que, como que arrastado por uma tempestade, não caminha por si mesmo, mas é levado e feito escravo de um delírio furioso, não confiando a ninguém a sua vingança, mas executando-a ele próprio, com a alma e as mãos enfurecidas?”.

Na dúvida, convém enviar uma carta à redação protestando contra a ausência de uma conclusão satisfatória neste artigo, e denunciando a agonia do jornalismo, o sofrimento de bebês panda e a derrocada generalizada de tudo e de todos.

Vanessa Barbara

Escritora e jornalista, é colaboradora do New York Times

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