questões democráticas

O presente de uma ilusão

Estamos em negação sobre o negacionismo?

Rodrigo Nunes
Manifestantes do Occupy, em 2011: se apostar todas as fichas numa revolta democrática espontânea era, uma década atrás, um erro arriscado, hoje o erro e os riscos são ainda maiores
Manifestantes do Occupy, em 2011: se apostar todas as fichas numa revolta democrática espontânea era, uma década atrás, um erro arriscado, hoje o erro e os riscos são ainda maiores CREDITO: FACUNDO ARRIZABALAGA_AFP

Tradução de Heloisa Jahn

Se você está lendo este texto, provavelmente é a segunda vez que passa por uma crise daquelas que acontecem uma vez a cada cem anos – e ainda deve ter a primeira delas fresca na memória.

Para mim, a imagem definitiva do colapso financeiro de 2008 não foi a dos operadores da Bolsa em pânico, nem a dos funcionários de bancos de investimento deixando seus escritórios com seus pertences em caixas de papelão. Antes, foi a de Alan Greenspan, ex-presidente do Banco Central norte-americano e um dos principais arquitetos da desregulação que possibilitou a catástrofe do subprime,[1] confessando perante o Congresso dos Estados Unidos que havia sido obrigado a rever um de seus pressupostos fundamentais: o de que os agentes econômicos jamais deixariam a busca pelo lucro falar mais alto que seus instintos de sobrevivência. Atingido em sua própria lógica pela irracionalidade do mercado, despojado de suas pretensões normativas pelo desenlace descaradamente não meritocrático da crise e sem uma nova boa oferta para oferecer à vasta maioria das pessoas, o neoliberalismo parecia sangrar legitimidade por todos os lados. Como muita gente na época, achei que o neoliberalismo dificilmente conseguiria sobreviver ao choque. Uma década e vários novos choques depois, porém, ele continua aí: cambaleando, olhos vidrados, repetindo mecanicamente palavras de ordem – mas de pé, como um zumbi.[2]

No início da pandemia, houve quem fosse cautelosamente otimista: a ocorrência de uma segunda crise global de grandes proporções em pouco mais de uma década significava que a possibilidade de mudanças de verdade entrava novamente no horizonte. Havia razões plausíveis para pensar assim. Segundo essa linha de raciocínio, a pandemia evidenciaria os riscos das longas cadeias logísticas do capitalismo global, a importância dos serviços públicos e a interdependência entre as pessoas e os Estados, sublinhando, ao mesmo tempo, o valor da cooperação. O vírus produziria um choque de realidade, sacudindo as pessoas e trazendo clareza a um debate público cada vez mais contaminado por teorias conspiratórias e fantasias anticientíficas. Por fim, a retração econômica causada pela difusão global do vírus daria mais visibilidade ao aumento da desigualdade e às questões não resolvidas desde a Grande Recessão de 2008, criando condições semelhantes às que levaram à Primavera Árabe e a movimentos populares como o 15M, nascido na Espanha, e o Occupy, surgido nos Estados Unidos.

É verdade que, nos primeiros meses da pandemia, alguns dogmas econômicos foram temporariamente suspensos e governos no mundo todo adotaram medidas que teriam sido consideradas anátemas apenas um mês antes: expansão fiscal, investimento pesado em saúde pública, suspensão do pagamento de aluguéis e dos despejos, bem como ações para garantir salários e empregos. Mesmo o presidente Jair Bolsonaro, que foi eleito defendendo um programa econômico ultraliberal, cedeu às pressões e sancionou o auxílio emergencial aos mais vulneráveis elaborado pelo Congresso. Desde o início, porém, essas medidas até então proscritas vieram acompanhadas da advertência de que, assim que as coisas voltassem ao normal, seria preciso “cortar na carne” e reforçar a austeridade fiscal. Mais ainda: foram amplamente compensadas por uma política que segue a cartilha de 2008 ao zelar, acima de tudo, pelo bem-estar das grandes corporações e instituições financeiras, injetando moeda no mercado para alimentar a especulação. De forma geral, os governos continuam minimizando a escala e a duração da atual crise a fim de evitar um debate efetivo sobre o que precisaria mudar para que as pessoas e seus meios de vida fossem realmente protegidos.

É claro que ainda podem surgir movimentos vigorosos exigindo que desta vez haja uma solução diferente. É preciso observar, porém, que as expectativas de que o vírus mudasse a mentalidade econômica predominante e pulverizasse as fake news infelizmente se revelaram infundadas. Na verdade, aquilo que muitos acreditavam que seriam evidências irrefutáveis parece ter servido apenas para fortalecer algumas convicções irracionais da extrema direita. O fosso entre realidade e fantasia parece ter se ampliado a tal ponto que presidentes de países como Brasil e Estados Unidos, apesar de liderarem fiascos mundiais no combate à pandemia, mantiveram boa parte de sua popularidade mesmo ao mobilizar sua base social contra as medidas protetivas, as instituições científicas e os próprios trabalhadores da saúde. Para os seguidores de Donald Trump, os méritos do ex-presidente eram tão evidentes que uma fraude envolvendo todo o establishment norte-americano – inclusive parte do Partido Republicano – era a única explicação possível para sua derrota nas eleições. Quanto ao Brasil, convém não esquecer que, embora a derrota na guerra particular que travou contra a vacina tenha tido um custo político para Bolsonaro, por um momento no ano passado ele não apenas recuperou o apoio que perdera nos primeiros meses de pandemia como se tornou mais popular do que havia sido desde o início do mandato. Nada garante que isso não voltará a acontecer neste ano – e o fato mais importante a se explicar é justamente essa elasticidade que, entre altos e baixos, lhe permite sempre recuperar seu piso de 30% de apoio, mesmo após abalos que destruiriam a carreira de outros políticos.

 

Se há uma coisa que deveríamos ter aprendido com a última década é que fatores objetivos robustos não resultam automaticamente em movimentos sociais vigorosos, e menos ainda na descoberta espontânea da “linha correta” pelas massas. Não é difícil imaginar que haverá explosões sociais nos próximos anos, mas não há nenhum motivo para crer que elas assumirão formas facilmente reconhecíveis pela esquerda – ou que não acabarão sendo instrumentalizadas pela extrema direita.

É nesse ponto que a conversa costuma se voltar para as fake news, às quais se atribui hoje a culpa pela manipulação da opinião pública que antes se imputava à televisão e à indústria cultural. E é bem verdade que parte da surpreendente resiliência demonstrada por Trump durante seu governo – e que Bolsonaro ainda demonstra, apesar de tudo – decorre da capacidade que ambos têm de disseminar suas próprias versões dos fatos por meio de uma infraestrutura de informação muito mais eficiente do que a dos seus opositores. Mas o caminho que eu gostaria de tomar aqui é outro. Ele consiste em examinar o mistério dessas duas resiliências – a do discurso de extrema direita e aquela demonstrada pelo neoliberalismo desde 2008 – a fim de apontar não apenas o modo como as duas coisas se comunicam e se retroalimentam, mas também aquilo que está por baixo das fake news e constitui o terreno no qual elas prosperam. Para ir direto ao ponto: se a extrema direita, ao recorrer à desinformação ou qualquer subterfúgio parecido, conseguiu mobilizar as paixões antissistema de milhões de pessoas que se sentem desassistidas e abandonadas é porque esses sentimentos realmente existem. Isto é, a mensagem da extrema direita só é convincente porque grande número de pessoas acredita que há, de fato, algo profundamente errado com o sistema político e econômico atual. Combater essa mensagem não se resume, portanto, a combater as mentiras em que ela vem embalada; mas exige, mais que isso, dar respostas convincentes às questões que estão na raiz desses sentimentos. Isso não poderá ser feito, no entanto, enquanto continuarmos negando a existência dessas questões.

Vejamos o primeiro mistério. Quem acreditou que a crise de 2008 resultaria inevitavelmente em mudanças radicais subestimou dois fatores. Primeiro: não previu o quanto nossos sistemas políticos se habituaram a operar com baixa legitimidade. Na falta de concorrência ou qualquer ameaça realmente séria ao seu poder, as elites parecem nutrir uma confiança infinita na sua capacidade de manter as coisas como estão, independentemente de contarem ou não com a confiança da maioria da população. Para isso, contribuem reformas institucionais, sobretudo relacionadas à gestão fiscal e monetária, que visam subtrair cada vez mais áreas a qualquer tipo de controle democrático – como o desenho da zona do euro, por exemplo, cuja falta de responsividade ficou clara no episódio da crise grega em 2015; ou, no Brasil, o teto de gastos e a autonomia do Banco Central, recém-aprovada pela Câmara dos Deputados.

O segundo fator é a força disciplinar de dispositivos como a instabilidade no emprego, a redução da rede de proteção social, a “pejotização” e o endividamento privado. Esses mecanismos certamente têm se tornado mais e mais draconianos nesses tempos de austeridade e uberização. Mas o neoliberalismo sempre teve uma dimensão de penalização ou castigo, que se expressa na sua conexão íntima com situações de crise, sintetizada pela jornalista e ativista canadense Naomi Klein na expressão “doutrina do choque”. A crise é, na verdade, o dispositivo disciplinar neoliberal por excelência: a cada vez que uma explode, o neoliberalismo não apenas a usa para acentuar a coerção econômica à qual as pessoas estão submetidas como o faz reativando o mito fundador de sua ascensão nos anos 1970 e 1980 – o de ser a cura racional e tecnocrática para os excessos de um período precedente e, portanto, a única alternativa possível. Pouco importa que os excessos e as crises sejam, na verdade, produzidos pelo próprio neoliberalismo: não vivemos mais a crise da gestão, mas a era da gestão por meio de crises.

Se hoje o neoliberalismo parece assumir feições cada vez mais “punitivas”, como observou o sociólogo britânico Will Davies, isso se dá porque os apelos para que apertemos os cintos são acompanhados por uma perspectiva cada vez mais pálida de que as coisas um dia voltarão a melhorar. Se em outros tempos o sacrifício era apresentado como uma maneira de melhorar de vida, ele agora é um fim em si mesmo. Esse aspecto chegou a um paroxismo com a pandemia, quando o discurso oficial, em lugares como o Brasil e os Estados Unidos, passou a dizer literalmente que as pessoas teriam de escolher entre a economia e a vida.

Que isso tenha sido politicamente possível – que não tenha destruído a carreira de líderes como Bolsonaro e Trump – é indicativo do quanto já nos habituamos às baixas expectativas. Quando Michel Foucault chamou o liberalismo de “quadro geral da biopolítica”, ele queria dizer que a gestão pelo Estado das condições de vida da população se baseia num cálculo de custo-benefício cujo sucesso ou fracasso é aferido, em última instância, pelo mercado. Mas Foucault não observou na época que há uma assimetria entre esses dois elementos: enquanto “maior benefício” é vago e não tem um critério ou limite determinado, “menor custo” tem – zero. Ao sistematicamente medir o “maior benefício” pela régua única do “custo zero”, o neo-liberalismo nos acostumou ao longo de quatro décadas à ideia de que a melhor intervenção pública é, por definição, aquela que não custa nada; ou seja, intervenção nenhuma. Ao eximir-se até onde puderam do dever de intervir para proteger a vida, Trump, Bolsonaro, o primeiro-ministro britânico Boris Johnson e outros estavam testando até que ponto essa lógica já se naturalizou. O resultado é sombrio.[3] Nada deixa mais clara essa transformação do que a mudança de sentido por que passou a expressão “imunidade de rebanho”: entendida historicamente como a imunização coletiva atingida ao final de um esforço (público) de vacinação, ela é hoje usada de forma corriqueira para invocar o resultado obtido ao se deixar uma doença fazer seu estrago livremente no seio de uma população.

 

Uma das razões por que os índices de aprovação de Bolsonaro chegaram a subir durante a pandemia – mesmo ele tendo perdido uma parcela de seus apoiadores entre a faixa mais rica da população – foi, sem dúvida, o próprio programa de auxílio emergencial ao qual ele inicialmente se opôs.[4] Mas outra razão foi que, para muitos eleitores pobres que passaram a aprovar seu governo, a opção colocada por Bolsonaro entre escolher a vida ou a economia correspondia objetivamente à verdade. Visto que a desigualdade torna a quarentena um luxo insustentável para os mais pobres, expor a questão como uma escolha entre potencialmente morrer de Covid-19 e potencialmente morrer de fome demonstrava que Bolsonaro compreendia sua realidade melhor do que os hipócritas que lhes diziam para ficar em casa quando sua única opção era sair para trabalhar.

A triste realidade é que, em casos como esse, a história contada pela extrema direita faz efetivamente mais sentido para um grande número de pessoas do que qualquer coisa que a esquerda esteja dizendo. Isso acontece porque a história que a extrema direita conta corresponde de maneira mais clara ao dia a dia da maioria das pessoas; ela ressoa na experiência vivida. Para muita gente, ouvir que a vida é uma sequência de escolhas difíceis em meio a uma luta mortal por recursos escassos não parece nem um pouco exagerado. Mais: essa narrativa faz eco ao efeito disciplinador que suas experiências de vida efetivamente têm – o sentimento profundamente enraizado de que aquilo que se tem é o limite do possível e que não há como mudar os fatos fundamentais do modo como vivemos.

Esta é a grande ironia e o principal paradoxo da política da extrema direita: o que ela propõe é uma forma extremamente conformista de revolta. Embora se apresente como oposição às elites – compreendidas em termos políticos e culturais, não em termos econômicos, o que explica como um bilionário pôde se lançar como paladino do homem comum nos Estados Unidos –, a extrema direita projeta um futuro muito parecido com o presente. No que diz respeito à estrutura social, sua concepção de mundo é perfeitamente resignada ao status quo. O que a extrema direita oferece é, em resumo, uma política antissistema para pessoas que não acreditam que o sistema possa de fato mudar: tudo permanecerá basicamente igual, mas rendendo ganhos supostamente maiores para aqueles que hoje se sentem deixados de lado.

Acredito que isso revela uma dimensão da nossa situação atual que ainda precisa ser devidamente analisada. Podemos chamá-la de “negacionismo”, mas o que pretendo designar com isso é um fenômeno mais amplo do que aquilo que se costuma entender por esse nome. É claro que o negacionismo do Holocausto segue muito presente na extrema direita, bem como o negacionismo das mudanças climáticas, cujos métodos certamente inspiraram as técnicas de desinformação de figuras como Bolsonaro e Trump. Estudiosos de longa data do negacionismo, como minha colega Déborah Danowski, da PUC-Rio, há tempos observam essas conexões. Mas o que tenho em mente aqui não são apenas as mentiras e falácias daqueles que descrevemos como “negacionistas”, mas sobretudo a relação que existe entre essas inverdades e o público que elas cultivam. Mais precisamente, me interessa pensar qual é a demanda a que elas vêm atender.

Não há dúvida de que o simples volume de desinformação existente hoje é um fator importante. São ecossistemas inteiros de fontes que se reforçam mutuamente destinados a interferir com nossa capacidade de formar crenças saudáveis, e os algoritmos de nossas plataformas digitais mais populares constantemente nos arrastam em direção a esses mundos paralelos. (Uma coisa que demoramos a perceber em relação à internet é que a crença, sendo um fenômeno necessariamente social, possui também uma natureza estatística. Depois que o volume de desinformação disponível ultrapassa um certo limiar numérico, é muito difícil para o sistema se recuperar.) Mas se essa disponibilidade explica por que muita gente se sente desorientada, ela não explica como algumas narrativas saem das periferias do sistema e acabam ganhando ampla adesão. Conforme apontam diversos estudos, o processamento da informação é ele mesmo limitado por uma série de vieses cognitivos; as pessoas tendem a acreditar naquilo que lhes parece mais familiar, que é compatível com outras crenças, que confirma sua identidade. Esses vieses respondem, por sua vez, a necessidades inconscientes. A pergunta que deveríamos nos fazer, portanto, é: quais necessidades são atendidas pelas narrativas da extrema direita?

A primeira coisa a observar é que “negação” se refere, na verdade, a duas realidades distintas. Quando chamamos um membro do lobby do petróleo ou do tabaco de “negacionista”, em geral queremos dizer que essa pessoa sabe que aquilo que está negando é verdade; em outras palavras, ela está conscientemente mentindo. Quando dizemos que alguém está “em negação”, por outro lado, damos a entender que essa pessoa está se protegendo de maneira inconsciente de uma experiência ou de um pensamento traumáticos – exatamente aquilo a que Freud deu o nome de Verleugnung e que se costuma traduzir para o português como “renegação”. Essa distinção sugere de imediato uma relação possível entre os dois tipos de negação: a negação inconsciente cria uma demanda que será atendida pela negação consciente fornecida pelos “mercadores da dúvida” profissionais. Não seria então o caso de cogitarmos a possibilidade de que a renegação do estado de coisas em que vivemos seja um componente importante do espírito do nosso tempo – e que as mentiras da extrema direita são extremamente eficazes em aplacar?

O presente que a extrema direita pinta está longe de ser cor-de-rosa. Pelo contrário: sua narrativa fala de um conflito civilizacional que se aproxima rapidamente da hora decisiva, mobilizando o heroísmo fantasioso de um suposto “espírito das Cruzadas” para o confronto com inimigos tais como imigrantes, negros, gays e mulheres donas de suas próprias vidas. O que essa narrativa tem de notável, no entanto, é o modo como ela transforma as ameaças reais que vemos crescer no horizonte em versões distorcidas de si mesmas, como reflexos numa casa de espelhos. Assim, o problema da democracia não é que as elites políticas no mundo todo estejam inteiramente comprometidas com os interesses das corporações e dos mercados financeiros, mas que há uma conspiração secreta de bilionários pedófilos planejando instituir um governo mundial.[5] O problema da economia não é a acumulação de capital ter se dissociado a tal ponto da produção de bens e serviços que os muito ricos se tornaram relativamente indiferentes às vicissitudes da economia real, mas, sim, os privilégios indevidos recebidos por imigrantes e minorias. O problema das pandemias globais não está relacionado à urbanização descontrolada ou à produção industrial de comida de baixa qualidade, mas a um complô chinês para parar a economia. Por fim, o problema do meio ambiente não é a mudança climática, mas a instrumentalização da ciência por uma agenda política decidida a mudar nosso estilo de vida e impedir o crescimento.

O filósofo franco-argelino Louis Althusser definiu a ideologia como “a relação imaginária dos indivíduos com suas condições reais de existência”. Se a realidade de nossas condições de existência vai se tornando cada vez mais traumática, não seria de se esperar que as pessoas entrassem numa fuga cada vez mais intensa em direção ao imaginário? A verdade por trás do quadro impregnado de violência pintado pela extrema direita é que estamos vivendo numa era de horizontes cada vez mais estreitos, na qual a experiência cotidiana se tinge da sensação difusa de que, se tudo permanecer como está, o que o futuro reserva são condições cada vez piores de reprodução social para um número cada vez maior de pessoas: menos emprego, menos renda, menos acesso a bens e serviços fundamentais; mais ameaças e menos proteção. Mudanças climáticas, estagnação econômica, precarização crescente, falta de controle democrático sobre as instituições, pandemias globais, sobrecarga de informação, riscos cada vez mais onipresentes e imprevisíveis – eis o ruído de fundo constante de nossas vidas hoje, os movimentos furtivos que percebemos nos limites de nosso campo de visão. A extrema direita apela a esse terror pervasivo reconhecendo que, sim, estamos diante de um abismo, ao mesmo tempo que fabula um abismo imaginário menos traumático do que aquele de fato existente – porque tanto suas causas quanto suas supostas soluções são, ainda que dolorosas, comparativamente simples.

Visto que as mentiras da extrema direita respondem a essa ansiedade difusa, é de se entender por que muitos as considerariam mais verossímeis do que qualquer tentativa de convencê-los que as coisas no geral estão melhorando ou que estamos apenas atravessando um mau momento. Mas essas mentiras vão além. Elas geram identificação com líderes que estão o tempo todo expondo o que dizem ser mentiras contadas pela esquerda e a hipocrisia do pensamento politicamente correto, oferecendo recompensas psicológicas óbvias: sensações de pertencimento, de reconhecimento, de superioridade moral e intelectual, de estar do lado certo da história. Ou, nas palavras da abolicionista penal norte-americana Ruth Wilson Gilmore, “a ideia e a performance do ‘ser vitorioso’ [winning], da dominação explícita, num contexto em que a renda familiar está em queda, há medo do desemprego e da ameaça de ficar sem teto, além da probabilidade crescente de uma morte prematura e dolorosa por causa das muitas toxicidades do capitalismo”.[6] Por outro lado, ao identificar a apropriação indevida de recursos por diversos “outros” (países, etnias, religiões, culturas) como fonte do problema, e a luta para impedir esses “outros” de acessarem tais recursos como a solução, a extrema direita conta uma história que se adapta muito bem a um mundo no qual a desigualdade cresce, os recursos diminuem e os que estão na base da sociedade são obrigados a disputar entre si migalhas cada vez mais minguadas. Para os que já se sentem vivendo à beira do estado de natureza, ouvir falar da iminência de uma guerra civil, por mais delirante que possa parecer, talvez faça sentido: essa ideia não apenas descreve o mundo tal como essas pessoas o vivem, como lhes confere certa vantagem competitiva ao legitimar que se antecipem ao ataque do “inimigo” – em geral, um concorrente direto na batalha pela sobrevivência. Como observou o filósofo alemão Theodor Adorno, no fundo o que conta não é se o seguidor da extrema direita realmente acredita que o outro é o demônio, mas que ele aja conforme a crença de que esse outro deve ser vencido a qualquer preço.

Por isso, há um sentido em que é possível afirmar que as fantasias da extrema direita oferecem, ainda que de forma irracional, uma resposta razoável à insanidade que estamos atualmente construindo. Elas propõem uma “política da reprodução social antagonística”, como sintetizou o pensador italiano Alberto Toscano, num mundo em que a reprodução social tende a se tornar cada vez mais antagonística: uma luta de todos contra todos. Reduzir o poder que essas fantasias têm de falar às pessoas a mero efeito das fake news é uma tentativa de negar esse fato fundamental. E, visto que a tentativa de fugir à verdade sobre nossa condição atual é um dado afetivo decisivo de nosso tempo, não é de surpreender que mesmo aqueles que desejam resistir à insanidade crescente e a um tipo de política que visa acelerá-la acabem enredados em suas próprias renegações. Nós também somos negacionistas – em relação ao que mais não estaremos em negação?

 

Iniciei este artigo falando da resiliência do neoliberalismo e de como a experiência da última década pôs em xeque a possibilidade de uma crença ingênua na espontaneidade. Ninguém nega, é claro, que mudanças tão extremas nas condições de existência como as que certamente veremos nos próximos anos criam o potencial para grandes mobilizações coletivas. O problema é quando acreditamos que, dentre as várias formas que essas transformações podem assumir, serão necessariamente aquelas que desejamos as que se realizarão. A crença de que o resultado que esperamos se verificará – independentemente do esforço ou de nossa capacidade para produzi-lo – oferece o conforto psicológico óbvio de tornar nossa própria fraqueza política e organizacional irrelevante. Mas se apostar todas as fichas numa revolta democrática espontânea era, uma década atrás, um erro arriscado, o erro e os riscos são ainda maiores hoje, num ambiente em que a extrema direita é uma força real cuja mensagem chega às pessoas diariamente através do WhatsApp, da família, dos amigos, da igreja, do rádio. Romper com essa redundância informacional que a direita é capaz de produzir exige não apenas a criação de redes de comunicação mais extensas e eficazes, mas fazer-se presente de maneira regular e confiável na vida das pessoas. Isso, por sua vez, demanda organização.

Se podemos dizer que a espontaneidade é a ilusão dos radicais, os liberais e moderados – liberals, no sentido norte-americano da palavra – frequentemente padecem de um outro tipo de ilusão. É uma ilusão que consiste em estabelecer falsas simetrias entre os extremos políticos e em idealizar o consenso centrista que prevaleceu desde a consolidação da hegemonia neoliberal até 2008. Em última análise, essa atitude equivale a supor que as pessoas perderam temporariamente o juízo, mas que tudo pode voltar a ser como era antes, assim que líderes “sensatos” – Joe Biden é o nome da vez – estiverem novamente no comando. O que essa postura ignora, ou finge ignorar, é que a distribuição da riqueza e a representação política se tornaram tão desequilibradas nas últimas décadas que qualquer tentativa séria de reequilibrá-las não tem como não parecer radical comparada ao que temos agora; e que, numa questão como a do meio ambiente, o tempo para uma abordagem gradualista já se esgotou há muito: a esta altura do campeonato, vencer aos poucos é o mesmo que perder. Na medida em que continua a subestimar a magnitude dos desafios que temos diante de nós, e com isso contribui para a manutenção das condições que alimentam o crescimento da extrema direita, essa ilusão talvez seja a forma mais perigosa de negação que existe hoje.

 


Publicado originalmente no site publicbooks.org, o artigo integra a série Crisies Cities, a ser editada em livro pela Columbia University Press.

[1] As hipotecas subprime – empréstimos hipotecários de alto risco concedidos a indivíduos com avaliações de crédito baixas que eram negociados como parte de títulos financeiros cujo sucesso entre os especuladores alimentou a bolha no mercado imobiliário dos Estados Unidos na primeira década do século – foram o núcleo atômico de onde a crise de 2008 irradiou para o resto da economia mundial. Quando o mercado imobiliário norte-americano desacelerou bruscamente, tornando impossível o refinanciamento dos empréstimos e causando uma onda de inadimplência, o valor dos títulos financeiros garantidos por hipotecas evaporou, abrindo um abismo sob os pés de um mercado inundado por eles. A afirmação de Greenspan é relevante porque, até a crise, o mercado de subprime estivera em expansão constante apesar dos riscos cada vez mais evidentes que comportava.

[2] A figura do zumbi tornou-se tão onipresente na cultura e no debate político pós-2008 que gerou sua própria pequena indústria paralela de comentários que buscavam explicar essa onipresença. Conforme sugeriu mais de um desses comentaristas, talvez o sucesso dos zumbis decorresse não de expressar medos inconscientes, mas de retratar algo da existência cotidiana da maioria das pessoas.

[3] Sombrio não apenas porque demonstra que muitos já internalizaram a ideia de que o governo pode deixar a população morrer se o custo de intervir for muito alto, mas também porque habitua e dessensibiliza para experiências futuras. Como vimos, países como o Brasil já conseguem conviver facilmente com 1 mil mortes ao dia. Conforme especulou o sociólogo alemão Ulrich Beck décadas atrás, talvez gerações futuras estejam acostumadas ao risco de vida a ponto de seguir normalmente durante uma pandemia.

[4] É preciso cuidado, contudo, para não transformar esta na única causa, nem supor que todo o crescimento se deu entre os beneficiários diretos. É preciso cuidado, ainda, para não patologizar ou condenar moralmente esse fenômeno – que parte da esquerda, de forma tristemente sintomática, interpretou como sinal de um déficit de cidadania que faz com que os mais pobres “votem em quem lhes dá dinheiro”. Isto é errado em dois níveis: porque confunde aprovação com intenção de voto; e porque trata como aberrante um comportamento que não só é perfeitamente racional (uma reação positiva a uma medida de impacto positivo) como responde a uma política que deveria ser apoiada independentemente de qual fosse o governo.

[5] Este é, resumidamente, o mito fundador da teoria da conspiração QAnon, cujos membros que fizeram parte da invasão do Capitólio no início de janeiro acreditavam estar participando do Grande Despertar profetizado por seu misterioso líder – um ou mais anônimos que costumam postar sob o pseudônimo “Q” em fóruns de internet. O “Grande Despertar”, ou “Tempestade”, seria o momento em que Trump desmascararia essa grande conspiração internacional, prenderia seus líderes e seria reconduzido pelos militares à Presidência. Enquanto Trump vinha incorporando acenos ao QAnon em seu discurso nos últimos tempos, alguns republicanos se associaram ao movimento ainda mais explicitamente, com pelo menos dois casos de sucesso no nível federal: as deputadas Marjorie Taylor Greene, da Geórgia, e Lauren Boebert, do Colorado. Ambas têm tentado se distanciar do QAnon desde as eleições.

[6] Embora o texto de Gilmore tenha sido escrito quase 25 anos antes da eleição de Trump e verse sobre a espetacularização da repressão policial nos Estados Unidos, esta passagem antecipa um elemento central da retórica do futuro presidente norte-americano: o “vencer” [winning] ou “ser um vencedor” [being a winner] como valor mais alto e compensação por anos de “derrota”. Uma das promessas mais memoráveis do ex-apresentador de reality show na campanha de 2016 foi a de que seus eleitores iriam vencer tanto com ele que se cansariam de vencer.

Rodrigo Nunes

Professor de filosofia moderna e contemporânea na PUC-Rio, é autor de Organisation of the Organisationless: Collective Action After Networks (Mute)

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