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O presidente e o general

Missão do FMI testemunha acerto de contas

João Moreira Salles | Edição 31, Abril 2009

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O general Batista Tagme Na Waie, chefe do Estado-Maior das Forças Armadas da Guiné-Bissau, subia as escadas até seu gabinete quando a bomba explodiu. Morreu ali, na noite de domingo, 1º de março. Analfabeto, era um dos dois homens mais poderosos do país. O outro era o presidente João Bernardo Nino Vieira, sob cujo governo, em anos anteriores, Waie havia sido torturado – alguns acreditam que pelas mãos do próprio Vieira. O general dizia que seu destino e o do presidente estavam ligados. Se ele morresse, Nino Vieira morreria também. Dito e feito: doze horas mais tarde, perto das quatro da manhã, um grupo de soldados invadiu a residência presidencial e assassinou Vieira a golpes de machete.

A três quadras de distância, economistas do FMI se refugiavam no quarto de uma brasileira, à espera do que a manhã traria. A agenda oficial determinava que a missão se encerraria com uma visita ao presidente da República algumas horas depois, mas ninguém levou muita fé — afinal, estavam na Guiné-Bissau, um país que caminha célere para bater o recorde de motins e golpes de Estado no continente africano.

Fazia cerca de duas semanas que a missão do Fundo chegara em Bissau, capital da antiga colônia portuguesa, na costa atlântica da África. Chefiada por uma americana, Catherine McAuliffe, economista sênior do FMI, era integrada por uma alemã, um canadense, um paraguaio, um senegalês, um português, intérprete, e dois brasileiros: Álvaro Manoel, economista, e Anna Vianna, também intérprete. Ao pisarem no hotel, foram informados pelo chefe de segurança da ONU que o país era considerado phase 2, sinônimo de “Tomem cuidado!”. Andar na rua, só em grupo.

Alguns conheciam o país, mas, ainda que não conhecessem, já teriam provado a precariedade da Guiné-Bissau muito antes de aterrissar na capital. Quem pretende viajar do Brasil para lá deve procurar o sr. Tcherno Ndjai para obtenção do visto. Cidadão guineense residente em Campinas, não se sabe se o sr. Ndjai simplesmente expede vistos ou se exerce alguma função diplomática. Em Washington, vistos podem ser obtidos com um guineense que dá expediente num supermercado, onde trabalha como empacotador.

O FMI tem ido ao país para checar as contas do Programa de Assistência Pós-Conflito, firmado no início de 2008, ao cabo de anos de golpes, contragolpes e guerra civil. A Guiné-Bissau recebeu 5,5 milhões de dólares, destinados a reforçar a capacidade administrativa e institucional de uma nação em frangalhos. Em contrapartida, a cada três meses o governo deve submeter suas contas públicas à inspeção do Fundo.

As reuniões são realizadas no Ministério das Finanças, um prédio gasto mas com a virtude de estar de pé — muito mais do que o Palácio Presidencial, que, tendo perdido parte do teto na guerra civil de 1998/1999, exibe viçosos tufos de mato janelas afora, bem alimentados pelo sol e pela chuva que banham alguns cômodos. Segundo o New York Times, “o país é pobre demais para consertá-lo”, e o jeito é despachar onde ainda há cobertura. Na sala de reuniões do Ministério — acanhada, com cortinas de náilon e esquadrias de alumínio — a missão costuma encontrar representantes de todos os departamentos da pasta econômica: alfândega, fisco, área de análise, Banco Africano de Desenvolvimento etc.

 

Tudo transcorria na santa paz naquele domingo funesto, dia da última reunião com os guineenses. Foi quando, de súbito, o ministro das Finanças, José Mario Vaz, sempre afável, pediu o encerramento dos trabalhos, ainda que faltasse acertar os últimos detalhes do memorando a ser entregue ao presidente. Vaz deixou a sala em seguida e, minutos depois, pediu ao intérprete português João Paulo Galvão que o acompanhasse. Galvão o seguiu. E logo trouxe o aviso: “Precisamos voltar para o hotel. O ministro nos encontrará lá.”

As ruas estavam escuras, sem luz. Três jipes Toyota os esperavam. A caminho do hotel, Galvão confidenciou à colega Anna Vianna: “Explodiram o quartel do Estado-Maior.” Uma hora depois, para surpresa do grupo, chegava o ministro Mario Vaz ao hotel. Vinha de mala e cuia, com o filho a reboque. Explicou: “A segurança mandou que eu ficasse aqui. Já dei instruções para buscarem a comida que o restaurante preparou.” Referia-se aos acepipes do jantar em homenagem ao Fundo que aconteceria naquela noite. A comida veio, mas os funcionários do FMI jantaram sem a companhia do anfitrião, que desaparecera num dos quartos do hotel para não ser mais visto.

A noite avançava quando Jorge Alturas, chefe de segurança da ONU, trouxe a notícia de que o general Waie fora assassinado. Vacinada pela experiência, Anna Vianna sugeriu que todos ficassem de malas prontas, tal como na visita anterior do Fundo, em novembro, quando metralharam a casa do presidente numa tentativa de golpe.

Com seus trinta e poucos anos, neófita em distúrbios civis, a economista alemã Kerstin Gerling correu para o quarto em busca de notícias no site do FMI ou da tevê alemã Deutsche Welle, mas logo descobriu que a Guiné-Bissau nunca esteve propriamente na pauta da imprensa internacional. A busca deu em nada. O jeito era ir para a cama.

Às quatro e meia da madrugada, Anna Vianna foi acordada por batidas na porta. Era a chefe da missão, Catherine McAuliffe, pedindo abrigo no quarto. Anna abriu espaço na cama. Minutos depois foi a vez da alemã. Kerstin Gerling se acocorou num canto do quarto e abaixou a cabeça. Ninguém lhe avisara que o emprego envolvia tiros e explosões. Só quando julgou seguro deixou o canto para repartir a cama com as colegas. Ali ficaram as três, ouvindo os estalos de fuzil anunciarem a morte de um presidente.

Levantaram-se às sete e pouco. Com as fronteiras fechadas e o Exército ocupando o aeroporto, nenhum avião tinha permissão para decolar. A esperança era que o Fundo autorizasse o grupo a fretar um avião. Enquanto a burocracia de Washington se mexia, souberam que um avião militar do vizinho Senegal pousaria em Bissau para apanhar três soldados gravemente feridos. Eram homens da guarda presidencial que haviam sobrevivido ao ataque à casa de Nino Vieira. Não podiam ser levados ao hospital, território inimigo, tomado pelo exército de Waie.

Iniciou-se uma negociação frenética para que as oito pessoas a serviço do Fundo embarcassem no avião senegalês. Às três da tarde, quatro jipes brancos da ONU estacionaram em frente ao hotel. O comboio atravessou a cidade pela artéria principal, normalmente lotada de gente e atravancada pelos carros vistosos de traficantes sul-americanos, que em 2005 inauguraram no país uma escala para despejar cocaína na Europa. Nesse dia, nem os traficantes haviam saído de casa.

No aeroporto, um turbo-hélice esperava na pista vazia. Um grupo de pessoas se espremia diante do soldado senegalês que montava guarda na porta do avião, gente demais para lugares de menos. Embarcaria quem conseguisse entregar o passaporte ao soldado. Recorreu-se a um dos brasileiros, que soube furar a fila com presteza. Na cabine estavam os três soldados feridos: o primeiro, à beira da morte, semi-inconsciente na maca, com tubos saindo do corpo e o rosto inteiramente queimado; o segundo, desmaiado em outra maca; o terceiro, sentado e com a cabeça enfaixada.

Três semanas depois, o funcionário de um organismo internacional em Bissau mandou um e-mail a um amigo do Fundo: “Por aqui tudo normal (normalidade guineense). De momento não se esperam grandes convulsões, mas um ‘atentadozinho’ semelhante aos sucedidos naquele fatídico fim de semana poderá surgir a qq momento (ainda há umas contas antigas por saldar!!!).”