chegada

O primeiro congelamento em massa do aquecimento global

Os peixes ornamentais da Flórida padecem com o frio repentino e a concorrência dos mascotes computadorizados

Marcos Sá Corrêa

Ponha-se nas escamas do Epalzeorhynchos frenatus. Ou do Pterophyllum scalare. E até do Xiphophorus helleri. A essa altura, a espécie não faz muita diferença porque, segundo a Florida Tropical Fish Farms Association, a FTFFA, associação dos criadores de peixes ornamentais americanos, daqui para a frente todos eles, indiscriminadamente, estarão em falta no mercado, pelo menos para os aquaristas dos Estados Unidos. A onda de frio que este ano inaugurou o inverno na Flórida botou-os no meio de um debate sobre como se pode morrer de frio por causa do aquecimento global.

E isso na Flórida, um estado povoado pelo sonho americano de, aposentando-se, pendurar os suéteres. Frio, lá, sempre foi uma chateação para aposentados, famílias de férias na Disney World ou donos de laranjais. Mas, para esses peixes, vindos originalmente de águas equatoriais da África, da Ásia e mesmo da Amazônia, é questão de vida ou morte. Normalmente, eles entram em crise existencial se a água em seus tanques desce a 17 graus centígrados. E, abaixo dos 13 graus, agonizam lentamente.

Na primeira semana de janeiro, quando os morangos da Flórida amanheceram cristalizados em gelo e os termômetros beiraram os 4 graus abaixo de zero, os peixes tropicais caíram duros como pedras no fundo de seus aquários. “Os nanicos estão morrendo aos milhões”, resumiu no New York Times o repórter Damien Cave. Ele chefia a sucursal de Miami e se apresenta aos leitores de seu blog através de um retrato em que ostenta, como insígnias do posto, o bronzeado de quem vive na praia e a camisa azul berrante, estampada com hibiscos vermelhos, de quem está pronto para partir em missão para o Havaí.

Cave foi a Hillsborough, a capital americana do peixe exótico, avaliar os estragos. “Foi devastador, não só para mim, mas para todos nós”, disse-lhe o ex-motorista de caminhão Ray Quillen, agora proprietário da Urban Tropical. No momento da entrevista, o futuro da empresa dependia de um tal de Holacanthus ciliares, um peixe da Amazônia quase tão carregado nas tintas quanto a camisa de Cave.

Os Holocanthus de Quillen estavam deixando às pressas os 84 tanques retangulares de cimento, alinhados a céu aberto em 350 metros de terreno como “sepulturas”, segundo o jornalista. A cobri-los, naquele momento, só os voos de gaivotas e outros pescadores alados. Foram transladados às pressas para estufas. Quillen escolheu-os para sobreviver em ambiente climatizado e, sobrevivendo, salvar a Urban Tropical.

Pode dar certo. Mas é mais um sinal de que alguma coisa no mundo está errada. Não foi à base de aquecimento artificial que a FTFFA se transformou numa associação de 231 produtores de animais e plantas para aquários, movimentando cerca de 45 milhões de dólares por ano. Não faz muito tempo, embalagens cheias de peixes vivos eram as cargas que mais embarcavam no aeroporto de Tampa. E o forte de Hillsborough era o clima propício a bichos habituados ao calor.

Noventa por cento das fazendas da FTFFA ficam em Hillsborough. É uma cidade interiorana pouco afeita a novidades. Tem 1,1 milhão de habitantes, cuja idade média ronda a casa dos 40 anos. Cuidar de velhos que fogem do frio ocupa ali sete instituições geriátricas e 26 centros de lazer e alimentação especial para idosos. Somadas, elas servem quase 2 milhões de refeições por ano. Praticamente o dobro de sua população total.

Atrás dos aposentados, vieram os peixes. Trata-se de um negócio que começou a nascer na Flórida na década de 1930, quando ainda não faltava lugar para eles em Miami a preços relativamente módicos. Expulsos pela valorização imobiliária, os criadores foram parar em Hillsborough, lugar de poucos imigrantes, fora os peixes equatoriais, que se entrincheiraram longe do mar e fora do circuito das baleias amestradas, dos golfinhos acrobáticos e dos plácidos tubarões decorativos que povoam os aquários de Orlando.

Hillsborough virou a terra do peixe pequeno. Sem eles, a cidade não seria o que é. Mas, com eles, já vinha deixando de ser o que foi. Primeiro, por conta da crise econômica, que custou aos piscicultores locais cerca de um terço das vendas – orçadas em 45 milhões de dólares por ano –, antes de o frio varrer a Flórida. Pelo visto, na hora do aperto, peixe colorido é consumo supérfluo. Mas os fazendeiros também debitam suas perdas à concorrência de produtos eletrônicos. Eles são mais interativos do que os peixes. E dá para alimentá-los com um fio na tomada, ao passo que certos peixes decorativos não passam sem uma porção regular de camarões minúsculos, também criados em Hillsborough. Com esses trunfos, os mascotes virtuais vão tomando aos poucos as vagas tradicionalmente reservadas nos lares americanos ao animal de estimação.

Os peixes exóticos não contam com a solidariedade dos ambientalistas. A agência estadual de observação da vida selvagem estava mais ocupada, em janeiro, com a captura de tartarugas marinhas, que tratou de levar a tempo para mares mais quentes. Logo, ignorou os peixes mortos, estivessem eles estrebuchando nas praias ou nos aquários. E os jornalistas, mal a temperatura em Hillsborough atingiu os 21 graus regulamentares para o inverno na Flórida, esqueceram o assunto. Da noite para o dia, assim como tinham sumido nos tanques durante a crise, eles desapareceram da cobertura em jornais como o New York Times e o Miami Herald, e até das redes comunitárias de televisão, como o WPTV News Channel 5, de Palm Beach, que fica bem ali ao lado de Hillsborough e trata primordialmente de interesses da vizinhança.

Foi como se eles tivessem morrido duas vezes no mesmo mês de janeiro. Como se queixou o fazendeiro Ray Quillen, enquanto os repórteres lhe deram essa chance, as pessoas devem achar que peixe ornamental “simplesmente aparece na loja”. E junto com eles lá se foi a chance de aprender, ao vivo e em cores, que aquecimento global é o nome que, à falta de um marqueteiro, os cientistas deram a um fenômeno de longo prazo que se materializa localmente, no dia a dia, por anomalias extremas em todos os sentidos. É calor, frio, chuva e seca, tudo junto. E tudo demais. Sobretudo chuva.

Marcos Sá Corrêa

Marcos Sá Corrêa é jornalista. Foi editor de piauí entre 2006 e 2011.

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