questões midiáticas

O que move a CNN Brasil

Com dois sócios que sempre estiveram ao lado do poder, a nova emissora tenta mostrar que pode ser independente

Fabio Victor
O switcher, a sala de onde se controla tudo o que vai ao ar: o dono da CNN, Rubens Menin, também é austero em casa. Ele e a família têm um grupo de WhatsApp para discutir cortes nos gastos domésticos. O grupo chama-se Tesoura
O switcher, a sala de onde se controla tudo o que vai ao ar: o dono da CNN, Rubens Menin, também é austero em casa. Ele e a família têm um grupo de WhatsApp para discutir cortes nos gastos domésticos. O grupo chama-se Tesoura CREDITO: RICARDO FROTA_2020

Com luzes vermelhas projetadas sobre toda a circunferência da sua cúpula de concreto, a Oca parecia uma nave futurista de seriado antigo. Projetado pelo arquiteto Oscar Niemeyer como uma homenagem modernista à habitação indígena que lhe empresta o nome, o prédio, localizado dentro do Parque do Ibirapuera em São Paulo, estava em festa na noite de 9 de março passado. Na entrada, um enorme letreiro, também vermelho, berrava o nome do anfitrião: CNN. Lá dentro, havia mais de 1 300 pessoas, às quais ao final da noite garçons ofereceram espumante francês La Roche Brut (40 reais a garrafa), canapés, porções de massa e cuscuz marroquino, enquanto um saxofonista que recorria ao auxílio do playback tocava músicas de elevador. Estavam ali políticos, empresários, banqueiros, publicitários, jornalistas, cinco governadores de estado e a elite dos três poderes da República.

A noite de celebração tentava abrandar um dia de pânico nos mercados ao redor do mundo. No Brasil, a Bolsa despencara 12,17%, a maior queda desde 1998. A guerra em torno do preço do petróleo travada entre Arábia Saudita e Rússia era um dos motivos para o pandemônio global, mas por trás dessa crise pontual se escondia uma outra, infinitamente maior, que crescia desde o começo do ano: a do novo coronavírus. Àquela altura, o Brasil contabilizava apenas trinta casos de Covid-19 e nenhuma morte. Dois dias depois da festa, em 11 de março, a onu classificou a contaminação como pandemia. Quatro dias depois da festa, o governo de São Paulo determinou a suspensão de eventos públicos com mais de quinhentas pessoas. Oito dias depois da festa, morreu o primeiro brasileiro com a doença. Os mais de 1 300 convidados da CNN Brasil que lotavam a Oca não sabiam, mas aquela era a última reunião social que frequentariam por muito tempo.

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Fabio Victor

Repórter da piauí. Na Folha de S.Paulo, onde trabalhou por vinte anos, foi repórter especial e correspondente em Londres

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