esquina

O quixote da paulista

A jornada de um herói meio fora de lugar

Denize Guedes
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2009

Francisco de Miranda testemunhou o início da celebração em que os ciclistas William Cruz e Priscila Teixeira juntaram os caquinhos. Eram 10 horas da manhã de um sábado de outubro. A convite do casal, uns 50 amigos se aglomeravam na Praça do Ciclista, quase no fim da Avenida Paulista, entre Consolação e Bela Cintra. Dali pedalariam até o cartório no Jabaquara, do outro lado da cidade, Priscila de véu e grinalda, naturalmente, William de terno e gravata. Do ponto de vista físico e histórico, Miranda era decerto o mais destacado entre os presentes, mas nem por isso lhe deram muita bola.

Para os todos efeitos, ele é sempre o primeiro a chegar. Quem não o vê há tempos acha que está muito bem. Asseadíssimo, até. O brilho do cabelo comprido, do manto altivo, da farda e das botas impecáveis voltou no ano passado, com a bela recauchutada que ganhou da Votorantim. Fosse ele filho de solo paulista, paulistano ou mesmo brasileiro, poderia ficar para sempre onde está, na santa paz de sua constituição pétrea. Mas não. A incerteza de seu destino está gravada na pedra desgastada a seus pés: Monumento a Francisco Miranda | Obra de L. González (1926) | Oferecida em 1978 pelo Governo e Povo da Venezuela. Venezuelano? Que fosse ao menos um Bolívar.

A aglomeração foi maior na tarde em que Francisco de Miranda chegou ali, em outubro de 1978. Cinquenta eram apenas os cadetes da Academia Militar da Venezuela que viajaram para o descerramento da estátua do herói, um presente do então presidente Carlos Andrés Pérez. Cotovelos unidos, mais de vinte autoridades venezuelanas e outra dezena de representantes da pátria brasileira disputavam um espacinho vital com a banda da Polícia Militar. Flores foram depositadas aos pés do generalíssimo.

Seus domínios não passavam de um canteiro sem graça. “Na época ninguém pensava que a localização era nobre. Parecia até um lugar secundário, em cima de um túnel”, lembra o ex-ministro da Fazenda Rubens Ricupero, representante do Itamaraty presente à inauguração da obra. “A diplomacia venezuelana era conhecida por só doar estátuas do Bolívar”, ele lembra. “Havia uma em todo país a que se ia.” Miranda era uma novidade, como se a Venezuela tivesse decidido mudar o disco.



O caso é que, para o homem da rua, Francisco de Miranda era – e continua a ser – um desconhecido. Vizinho de trabalho do herói, o manobrista Célio Alves de Souza não faz ideia do que seja: “Sempre me perguntam quem é esse cara. Digo que não sei, nunca me apresentaram. Até já fui olhar, mas esqueci.”

Atualmente não há muito o que olhar. Algum gatuno sem coisa melhor para roubar sumiu com as três placas originais de identificação. A da face frontal dizia: Caracas 1750 – Cádiz 1816 | Precursor da independência e da unidade latino-americana | Combateu pela liberdade dos Estados Unidos da América e participou da Revolução Francesa | Da Venezuela ao Brasil. A da face lateral tinha um tom mais exaltado: Brasileiros, somos proprietários hereditários do solo e não devemos permitir que o terror de sermos tratados como rebeldes influa, nem por um momento, em nossos espíritos… Que a nossa divisa seja liberdade ou morte | Francisco Miranda, 1806. Exortação simpática, não fosse o fato de Miranda nunca ter dito tal coisa.

“Nunca encontrei uma referência de Miranda a ‘brasileiros'”, diz João Paulo Garrido Pimenta, professor do Departamento de História da usp. Ou seja, é provável que o “brasileiros” do grito épico fosse um mero vocativo diplomático, encaixado pelo governo da Venezuela para adular o nosso orgulho nacional.

 

Miranda, é bem verdade, era um internacionalista ferrenho – “Um Quixote que não está louco, tem fogo sagrado na alma”, teria dito Napoleão Bonaparte ao conhecê-lo. Primeiro venezuelano cuja fama varreu o mundo e único latino-americano a ter o nome inscrito no Arco do Triunfo parisiense, participou de guerras revolucionárias em três continentes. Em 1806, liderou uma malograda expedição para libertar a Venezuela do jugo da metrópole. Em 1810, do exílio, acompanhou o processo de independência liderado por Bolívar e foi convencido pelo Libertador a voltar para governar o país. Dois anos depois, incapaz de resistir à investida do Exército espanhol, assinou um armistício com o inimigo. Ainda tentou escapar, mas foi entregue à Espanha e morreu na prisão. Bolívar não perdoou.

Agora novos perigos se anunciam. Estão querendo expulsar Miranda de seu pedestal. Há três décadas, quando o fincaram na Paulista, a avenida estava a um pulo de se tornar o ponto nevrálgico da cidade. O herói perdeu a primeira comemoração de peso em seu endereço – a conquista do Campeonato Paulista de Futebol pelo Corinthians, em 1977, quebrando o jejum de 22 anos –, mas assistiu à vitória do francês Radhouane Bouster na 54ª São Silvestre. Em 1990, com uma campanha do Itaú e da Rede Globo, a Paulista virou símbolo da cidade. Dois anos depois, na primeira grande manifestação política da avenida, Miranda presenciou uma multidão de caras pintadas exigir a renúncia de um presidente.

A virada de 96 para 97 trouxe os fogos de artifício, e no mesmo ano de 97, talvez para seu espanto de rude militar, ele se viu cercado pelos batalhões da Parada Gay. “Aqui é o lugar da diversidade, independente de etnia ou orientação sexual. E daí se é venezuelano? Ele é um luxo”, disse Michel M, de São Miguel Paulista, na última edição da festança que celebra o amor entre iguais.

O forasteiro só não contava com as bicicletas. Seu pedaço de chão começou a ser chamado de Praça do Ciclista pelos adeptos do veículo e, fazer o quê?, o nome pegou – tanto que em 2007 foi oficialmente reconhecido pelo prefeito Gilberto Kassab. As botas de Miranda são o ponto de partida da Bicicletada paulistana, um passeio noturno que acontece a cada última sexta-feira do mês, e de vez em quando ele é visto com uma bike entre as pernas.

“Aqui é a Praça do Ciclista e um herói da Venezuela não representa um ciclista”, diz Felipe Aragonez, com certa lógica e absoluto desdém pela unidade latino-americana. Ele estava entre os convidados do casamento de William e Priscila. Rapaz seguro, explicou o que deviam fazer: tirar o Miranda e pôr no lugar uma estátua em honra ao Ciclista Anônimo, “estilo o Soldado Anônimo que tem no Arco do Triunfo, um ciclista levantando a bike pra cima”. (O fato de no Arco do Triunfo estar o Túmulo do Soldado Desconhecido, uma simples pira ao rés-do-chão, não altera o raciocínio.)

Em risco de ser enxotado outra vez, não mais pelos exércitos da Coroa, mas por forças críticas do transporte motorizado, Miranda, se vivo fosse, talvez nem ligasse. A uns cem metros de distância, ao alcance de sua vista, a América que o inspirou é hoje um restaurante de hambúrgueres. Lutar para quê?

Denize Guedes

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