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esquina

O sacristão da câmara

"Se sou fantasma, sou fantasma na minha casa"

Dorrit Harazim | Edição 33, Junho 2009

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Sentado à esquerda do presidente da Câmara, com o rosto sempre enfiado na papelada que traz para o plenário, está um servidor público das antigas. Legítimo. Talvez o último remanescente da espécie. Roga-se não confundi-lo com seu primo distante da involução humana, o burocrata público agarrado ao cargo, seja qual cargo for. Não deixa de ser um alento para quem acreditava que a raça estava extinta, varrida pelas desprezíveis sub-raças geradas na Esplanada dos Ministérios.

Mozart Vianna de Paiva é miúdo e sabe sumir dentro de ternos cinza-chumbo e gravatas não-televisivas. Prefere calçar o que os ingleses chamam de “sensible shoes“, sapatos que privilegiam o bom senso do conforto aos espasmos da moda. Este ano, a pedido da filha caçula de 16 anos, foi conhecer o Carnaval do Rio. Hospedou-se com a família na casa de uma prima e foram todos para a rua ver o bloco passar. Manteve distância do Sambódromo e do camarote para o qual fora convidado por uma empresa. “Acho que não combina com minha função”, explica o ex-seminarista franciscano, nascido no interior de Minas 58 anos atrás.

Mozart ocupa há dezoito anos o cargo de secretário-geral da Mesa Diretora. Trata-se de uma função-amálgama, que mistura habilidades de intérprete, oráculo e salva-vidas regimental a serviço do presidente da Casa. Ao longo deste período, dez presidentes da Câmara erraram menos por ter Mozart Vianna soprando-lhes orientações no ouvido. Por ordem cronológica, Ibsen Pinheiro, Inocêncio de Oliveira, Luis Eduardo Magalhães, Michel Temer (3 vezes), Aécio Neves, Efraim de Morais, João Paulo Cunha, Severino Cavalvanti, Aldo Rebelo e Arlindo Chinaglia se apoiaram nos ombros desse servidor.

Ombros que hoje andam encurvados, apesar da sua condição ergométrica ter melhorado bastante nos últimos quatro anos, desde que a mulher de Severino Cavalcanti passou um pito no marido. “Severino, quem é aquele deputado que fica ali em cima te enchendo a paciência o tempo todo?”, perguntou. “Não é deputado, mulher, é o funcionário que me ajuda”, respondeu o então presidente da Câmara. Dona Amélia se horrorizou: “Mas Severino, se é teu funcionário, como você deixa ele em pé, lá, como que de castigo?”

Pergunta pertinente. Como saber que aquele personagem que há 13 anos aparecia sempre colado à orelha dos sucessivos presidentes da Câmara não era um dos tantos parlamentares-de-pirata que vive para uma foto? Sobretudo, como imaginar que se tratava do funcionário mais graduado (CNE-10) e de maior salário (cerca de R$ 37 mil, somando-se aposentadoria e vencimentos) da Casa, se sequer cadeira tinha? Cinco dias depois da queixa de dona Amélia uma cadeira extra se materializou juntinho à de espaldar alto da presidência.

Em plenário, Mozart aprendeu a operar com a máxima economia gestual. Há sessões que se estendem por 14 horas. Ao contrário dos parlamentares que entram e saem do plenário, o secretário-geral não pode arredar pé. Certa vez, no rol de mais um surto de denúncias de funcionários-fantasma na Casa, o nome de Mozart acabou sendo incluído por engano. “Se sou fantasma, sou fantasma em casa”, diz o servidor que chega antes das oito e sai da Esplanada por volta das nove da noite.

 

No Brasil, não é todo mundo que pode proferir a frase “Eu amo esta instituição”, referindo-se à Câmara dos Deputados, e ser levado a sério. Mozart Vianna pode. Com sua fala ligeirinha, que o faz engolir metade das sílabas para ganhar tempo (“absolutamente” vira ábsalamete, “assessoria” é assoria e “responsabilidade”, respsidade), ele explica como reage à erupção de escândalos na casa de que tanto gosta. “Não deixo as pessoas pelo meio do caminho. Se um colega de trabalho ou um parlamentar cai na linha de tiro, e a gente se conhece há bastante tempo, não vou me afastar dele. Vou continuar amigo.”

Amigo, em termos, pois Mozart, que iniciou a vida em Brasília trabalhando como escriturário da Sinteko e avançou na carreira passando por quatro concursos públicos, sabe que sua trajetória e hábitos destoam da aisance que reina na alta cúpula do poder. “Nunca frequentei. Sou apenas um funcionário e não me sinto à vontade. Não é o meu meio. Para dizer a verdade, sequer sou convidado”, admite. Ele dá a todos os parlamentares o tratamento de senhor, geralmente também de deputado, mesmo que os conheça há trinta anos. “Nunca falo você. Inversamente, é muito raro me chamarem de secretário. Geralmente sou apenas Mozart, e acho bom assim”, esclarece.

A Secretaria Geral da Mesa por ele comandada dá suporte jurídico, técnico e de gerenciamento administrativo à presidência da Câmara, além de preparar todos os textos legais da legislatura. Mozart consulta o Regimento Interno uma, muitas, várias vezes ao dia. “O regimento é o norte. Ninguém sabe tudo que está ali. Ademais, o texto legal sempre dá margem a interpretações. E eu não tenho como dizer ao presidente, no meio dos trabalhos: ‘Pare a sessão que eu tenho de refletir sobre esse parágrafo.’ Uma vírgula pode alterar o sentido de uma frase”, frisa o secretário, formado em Letras pela Universidade de Brasília.

No seu gabinete de número 02, na ala D do subsolo da Câmara, entra qualquer um, a qualquer hora. Nenhuma das cinco assistentes diretas está autorizada a dizer que o chefe não se encontra, quando ele lá está enfiado em dossiês e pastas. Mozart tenta atender todos os telefonemas na hora, e quando não consegue, dá retorno certo. Testado numa Quarta-Feira de Cinzas, às 7h45 da manhã, e no início da noite de um feriadão, bingo, do outro lado da linha atendeu o secretário-geral.

– O senhor vota?

– Nunca externei meu voto porque ninguém me perguntou. Então vamos lá: em 2006 votei no Lula, na anterior também. Em 1996 votei no Fernando Henrique.

Mozart não tem castelo, iglu ou mansão no Lago. Quando se aposentar de vez, continuará no seu único imóvel brasiliense, financiado pela Caixa Econômica em 180 meses, dos quais já pagou 110 prestações de 2.047 reais. Trata-se de uma casa térrea, confortável, mas simples.