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O severo padre George

Refugiados sírios em Belo Horizonte

Tarcísio Badaró
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL

De costas para a plateia, o padre parecia entoar uma longa oração, com volteios de voz e vibrato, enquanto balançava o turíbulo, de onde saía uma fumaça branca que se espalhava pelo altar. O cheiro era tão difícil de identificar quanto o que se ouvia. Ao fundo, uma senhora perguntou: “Que língua é essa?” Pareceu surpresa ao saber que era árabe.

Mas ali todo domingo é assim. Desde 1925, uma das missas na Paróquia Sagrado Coração de Jesus, no Centro de Belo Horizonte, é rezada na língua de Avicena e Averróis. Há noventa anos, a igrejinha barroca e amadeirada serve de referência à comunidade siríaca da cidade. Nessas ocasiões, o responsável pela celebração é o padre George Rateb Massis, sírio que estudou no Líbano. Naquela manhã de agosto, a maior parte dos presentes também era da Síria e não fazia muito tempo que estava no país.

Massis, aos 39 anos, tem os cabelos negros, a pele clara e uma pequena separação nos dentes da frente que lhe empresta um ar jovial. Desembarcou no Brasil há doze anos – é tradição da paróquia “importar” os celebrantes diretamente do Oriente Médio. Como muitos em seu ofício, tem a voz anasalada. Faz quase dois anos que, além dos paroquianos, passou a se ocupar dos refugiados de seu país de origem. O primeiro compatriota chegou a Belo Horizonte, a seus cuidados, em janeiro de 2014. Depois vieram outros 76, o mais recente no início de setembro. Todos fugiram da guerra civil deflagrada em 2011 e que, estima-se, já deixou mais de 230 mil mortos, além de provocar um êxodo desesperado mundo afora, sobretudo pela Europa. No Brasil há mais de 2 mil sírios nessa situação. Representam um quarto do total de refugiados no país.

“O Brasil foi o único país que prontamente facilitou a entrada, diminuindo a burocracia”, explicou o padre. “Mas o governo exigia que alguém recebesse os refugiados, e deixou bem claro que não assumiria responsabilidade nenhuma – não daria alimento nem moradia.” Os refugiados, tal como Massis, são árabes cristãos, minoria que sofre perseguições, não bastassem as mazelas da guerra. Quase todos são de Homs, cidade histórica e uma das mais afetadas pelo conflito nos últimos anos. “Mas hoje é uma cidade pacífica”, disse o sacerdote, que é de Zaidal, uma aldeia nos arredores de Homs. Pacífica? “Foi toda destruída. Só restaram escombros, ruínas.”



 

Antes de iniciar a pregação, o padre deu uma colher de chá aos visitantes e fez um preâmbulo em português. A missa seria em ação de graças a uma paroquiana falecida, ele disse, e à Síria, que acabara de viver mais um episódio trágico. Um mosteiro do século IV, em Al Quariatain, havia sido demolido pelo Estado Islâmico.

Enquanto isso, no pátio lateral da igreja, outro George passeava. George Azar, um dos 77, brincava com a filha, Ayla, que corria. A menina, sempre sorridente, passou quase metade do seu ano e meio de vida no Brasil. Azar é professor de inglês e tinha uma vida confortável até 2011. Aportou no início do ano, com o bebê e a esposa, engenheira elétrica. Naquele domingo, Azar havia acabado de encontrar um emprego. No dia seguinte começaria a trabalhar como faxineiro numa loja do Clube Atlético Mineiro.

Lá dentro, Massis já recitava a missa em árabe. Gesticulava bastante enquanto falava – os fiéis que não entendessem o que ele dizia podiam ficar com a impressão de que discursava com severidade. O sacerdote tem fama de durão, sobretudo ao lidar com patrícios recém-chegados. Todos passam pela “casa matriz”, um apartamento de cinco quartos próximo à igreja. Atualmente o local abriga oito rapazes sírios – os demais imigrantes estão espalhados em quinze apartamentos alugados pela igreja, por toda a Belo Horizonte.

Quando visitei a “casa matriz”, Flayeh Flayeh, um rapaz magrelo de cabelos arrepiados, parecia achar graça do rigor do anfitrião. Dias antes, ele havia sido punido por voltar depois do toque de recolher. “Aqui vivemos em regime de seminário”, explicou o padre. “As portas se fecham às cinco pra meia-noite. Esse aí ficou até tarde na rua e com isso passou uma semana sem celular.” Flayeh abriu um sorriso e levou as mãos à cabeça como se dissesse: “Vê se pode!” O celular era seu elo com a Síria. “Eles se falam o tempo todo: é mãe, pai, irmão, namorada”, continuou o padre. “Sempre que dá”, interveio “Fly”, falando em inglês. “Lá eles ficam três horas com luz, e três sem”, contou. Flayeh perdeu o irmão, um soldado morto em combate.

“Eles falam que sou ditador, mas respondo que nenhum outro pai tem 77 filhos”, disse Massis, à guisa de explicação para as rígidas regras da casa. Suas maiores preocupações são “as drogas” e a violência cotidiana – algo que, segundo ele, não existe, ou melhor, não existia, na Síria.

 

Ofinal da missa foi anunciado em português. Numa sala lateral da igreja, era a hora do café, com direito a pão de queijo e biscoito de polvilho, que já fazem sucesso entre os sírios.

O sacerdote circulava animado, distribuindo tapinhas carinhosos e abraços efusivos. Ao se aproximar de seu xará, apagou o sorriso e baixou o tom de voz, conversando em árabe, ao pé do ouvido e a sério.

A causa da reprimenda não era a breve escapadela de George Azar no início da missa. Fazia meses que Massis se esforçava para conseguir um trabalho para o recém-chegado, mas o imigrante, que faz questão de dizer que era rico em sua pátria, resistia a empregos que considerava subalternos. Abatido e orgulhoso, hesitou um bocado até aceitar a vaga de faxineiro na loja de produtos esportivos.

“Este aqui”, disse o padre em português, “é nariz em pé.” Deu dois tapinhas nas costas do xará e voltou a andar pela sala. Deteve-se diante da pequenina Jasmin, filha de um casal que chegou há mais de um ano. Jasmin é brasileira, tem seis meses e as bochechas bem gordinhas – que Massis apertou com gosto, antes de dizer que seu trabalho está valendo a pena e partir, apressado. Ia comprar os ingredientes para preparar o feijão do almoço na “casa matriz”.

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Tarcísio Badaró