esquina

O teste do pijama

Insônia e nariz entupido na pestana média do paulistano

Vanessa Barbara
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2009

No corredor, ajeitando a gravata de seda, um sisudo executivo de meia-idade falava sobre finanças ao celular. A cena seria normal, não fosse um detalhe: debaixo do braço, ele trazia um travesseiro azul-bebê com borboletinhas estampadas. Quando a conversa acabou, o sujeito retornou à sala de espera, onde dezenas de adultos, crianças e famílias inteiras aguardavam para serem atendidas, cada um com seu travesseiro preferido: colorido, listrado, duro ou fofo, de pena de ganso ou de espuma (havia uma abundância de motivos florais). Também levavam mochilas com itens de higiene pessoal e um jogo de pijama. Estavam ali para um exame de sono.

No Instituto do Sono, na Vila Mariana, em São Paulo, cerca de oitenta pessoas fazem esse exame por dia (ou, mais precisamente, por noite), de domingo a domingo. A polissonografia, como é chamada, custa 800 reais e é coberta pelo SUS e por alguns convênios. Consiste em dormir num quarto escuro enquanto técnicos observam o padrão de sono, a partir de uma sala de controle com monitores de tevê. Os aparelhos digitais analisam a atividade elétrica cerebral (eletroencefalograma), o movimento dos olhos (eletro-oculograma), a atividade dos músculos (eletromiograma), a respiração, a oxigenação do sangue (oximetria), a posição corpórea e a desagradável constância do ronco.

Às nove da noite de uma quinta-feira recente, os pacientes preencheram suas fichas e entraram no elevador que leva às salas de exame. Pais de família passaram a trocar impressões sobre seus hábitos noturnos. Como é impossível manter a compostura com um travesseirinho e um pijama em mãos, o jeito é abrir o coração ao insone mais próximo. “Eu não consigo dormir por nada nesse mundo”, queixou-se um homem de olhos puxados e olheiras profundas. “Já eu durmo muito bem”, garantiu um senhor meio gordinho, “é a minha esposa que não dorme. Ela diz que eu ronco…”

 

Nos três últimos andares do edifício ficam os quartos individuais com televisão e banheiro. O colchão, alto e confortável, é observado por uma câmera no teto que impede o paciente de ceder ao ímpeto de subir na cama e dar saltos mortais. Antes de se recostar, é preciso preencher um extenso formulário sobre sonolência diurna, consumo de cafeína, higiene do sono, dependência de medicamentos e outros detalhes demasiadamente delicados, como xixi na cama e sudorese excessiva.



Às onze, um enfermeiro vem colar cerca de dez eletrodos na vítima. As ventosas são fixadas na pele e os fios se espalham por todo o corpo do paciente, inclusive nas pernas, barriga, rosto e cabeça (os eletrodos abaixo dos olhos são particularmente desconfortáveis). No dedo indicador, gruda-se, à base de fita crepe, um medidor de oxigenação do sangue. O enfermeiro fala um pouco de futebol, apaga as luzes e dá boa-noite. A turma pode dormir até as seis da manhã.

Consciente de seu dever de bem informar a sociedade brasileira, piauí enviou uma repórter atilada para dormir no Instituto do Sono. Jornalisticamente alerta, a repórter-paciente perdeu o sono, e passou mais de cinco horas acordada, pensando em todas as coisas do mundo em ordem alfabética – aipos, bolinhos, cambalhotas, dromedários etc. O vizinho de quarto tinha o nariz entupido e, em algum lugar, havia uma senhora com tosse. Fazia frio. Podia-se ouvir os técnicos na sala de controle conversando sobre o gol do Palmeiras. Para ir ao banheiro, era preciso tocar uma campainha e pedir que alguém viesse em socorro; alguns dos eletrodos eram removidos e arrastava-se um feixe de fios rumo ao reservado. De volta à cama, um silêncio triste e a desolação de quem não pode levantar para assaltar a geladeira. Nada de o sono chegar.

Lá pelas quatro da manhã, finalmente o cochilo. O primeiro estágio do sono fora superado e os belos sonhos começavam a dar o ar de sua graça. Mas a alegria dura pouco: os pacientes são acordados duas horas depois por um rancoroso enfermeiro que não aceita ser posto no snooze (“Só mais dez minutinhos.”). A avaliação chegara ao fim. É hora de levantar e se submeter a um vagaroso processo de retirada dos eletrodos.

Em seguida, a paciente vai congraçar-se com os colegas de exame num letárgico café da manhã oferecido pelo Instituto. Todos, sem exceção – o executivo, o das olheiras e o gordinho –, tinham as bochechas amassadas. Os resultados foram inconclusivos, já que não houve ocorrência de sono REM, apenas uma excruciante noite em claro. O relatório limitou-se a registrar os 321,5 minutos de vigília e os 83,5 míseros minutos entregues ao torpor. Pelo montante empenhado, mais valeria desfrutar a insônia em um quarto, ainda que com vista parcial para o mar, no Copacabana Palace.

Vanessa Barbara

Escritora e jornalista, é colaboradora do New York Times

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