esquina

O trabalho e os guias

Um dia no Santuário Nacional da Umbanda

Rafael Cariello

Às oito e meia da manhã, um congestionamento de mais de 1 km já havia se formado na estreita estrada de terra que corta a mata fechada na divisa dos municípios de São Bernardo do Campo e Santo André, no estado de São Paulo. Uma equipe de seguranças munidos de walkie-talkies tentava organizar o fluxo com surpreendente polidez, digna de policiais ingleses: quem estava ali apenas para deixar passageiros e não pretendia usar o estacionamento podia por gentileza avançar pela esquerda com o pisca-alerta ligado. Outra parte da multidão descia dos ônibus e dos carros parados, decidida a fazer as últimas centenas de metros do percurso a pé.

Não fosse pelo horário, a cena poderia ser confundida com o acesso a um concorrido show de música pop ou a uma final de futebol. É verdade que a indumentária do público também o distinguia: quase todos de branco, com colares sobre o peito, muitos levando grandes cestas e bacias com frutas. Famílias e amigos caminhavam em grupos carregando atabaques nos ombros.

Aquele era o primeiro final de semana depois do Dia de São Sebastião, ou seja, Oxóssi, o orixá das matas, daí o movimento incomum no Santuário Nacional da Umbanda, fundado no final dos anos 1970 pelo babalaô Ronaldo Linares. Onde antes havia os vestígios áridos das operações de mineração em uma pedreira, agora vicejava uma floresta replantada, atravessada por uma grande cachoeira propícia à prática religiosa.

Lá dentro fica o Vale dos Orixás, com estátuas das divindades da umbanda, cada uma com cerca de 4 metros de altura, postadas sobre pilares de concreto duas vezes maiores. Iansã, na figura de Santa Bárbara; Abaluaiê, ligado a São Lázaro; Nanã, representada por Santa Ana, mãe de Maria, avó de Jesus. Outros mais. Há também, ladeando os caminhos que levam a essa grande praça, cerca de cinquenta tendas destinadas aos cultos. Grupos da região do ABC e da capital paulista costumam alugar esses espaços para as suas práticas. Os administradores do Santuário afirmam, com orgulho, que se trata do maior centro destinado às religiões de matriz africana no Brasil.



Logo na entrada fica o estacionamento, com vagas para mais de seiscentos carros, uma lanchonete, lojinha de souvenirs e imagens religiosas. O conjunto faz lembrar um desses postos de conveniência às margens das ricas rodovias paulistas.

 

Maria Aparecida Calamari Linares, nora de pai Ronaldo, e João Rodolfo Linares, filho do babalaô, também com walkie-talkies nas mãos, estavam desde as 6h30 cuidando de pôr ordem no terreiro.

João, que tem 59 anos, vai todos os dias ao Santuário, com folga apenas às segundas, quando o espaço fecha para o público. Fez curso técnico de mecânica e faculdade de administração, e trabalhou por muitos anos nos setores de compras de insumos de grandes indústrias do ABC. Magro, calvo, usa óculos e estava vestido com calça jeans e camisa polo. Tem um ar eficiente e organizado. Se sacasse um bloco de papel quadriculado e rabiscasse uns números com lapiseira, era capaz de me convencer a comprar alguns milhares de parafusos.

Maria, aos 58 anos, também de óculos, usa os cabelos pretos cortados na altura do ombro. Tem um jeito doce, gentil. Foi batizada na umbanda por volta dos 20 anos, depois que começou a namorar João. Pai Ronaldo jogou os búzios, revelando que a neta de italianos era filha de Oxum e Oxóssi. Em frente às imagens das duas divindades, no Vale dos Orixás, ela me explicou que Oxum é conhecida por ser “acolhedora e meiga”, e Oxóssi, “altruísta, desbravador, apaziguador”. “Não que eu seja tudo isso”, acrescentou.

Oferendas se acumulavam diante da estátua de Oxóssi, motivo da visita de muita gente naquele dia. Frutas, velas e garrafas. É costume entregar cerveja ao orixá, bebida fermentada que de alguma maneira é associada aos caboclos e índios das matas que ele governa. Mais de uma latinha da bebida podia ser vista no chão, o que provocou uma reação de desaprovação em Maria. “Deviam ter colocado num coité”, uma pequena cuia, observou.

 

João e Maria Linares dizem que o movimento no Santuário tem crescido nos últimos anos. Muitos praticantes não se sentem à vontade para fazer suas oferendas nas cidades ou nas praias, onde em geral são malvistas. Ali não há ninguém para reclamar do som dos atabaques, ininterrupto, que se ergue sobre a mata, nem dos transes, dos guias que baixam nos praticantes. Perto do Vale dos Orixás, num lago de águas rasas, um rapaz vestindo um cocar, cercado por um grupo de umas dez pessoas, dava voz a um caboclo aos gritos repetidos de “iê, iê”, acompanhados de batidas no peito.

Têm crescido também as manifestações de intolerância religiosa, sobretudo por seguidores de igrejas neopentecostais que associam os cultos de matriz africana ao demônio. Maria conta que já houve casos de motoristas de ônibus que, depois de dirigirem até ali levando grupos de visitantes, se recusaram a sair dos veículos, receosos de entrar no Santuário.

No caminho para a cachoeira, um pequeno fogaréu, provocado por velas, ameaçava fugir ao controle. Discretamente, Maria foi até um funcionário e pediu que ele apagasse as chamas assim que possível. Caminhava tomando conta de cada detalhe. Perto da queda d’água, disse que procura orientar pessoas que quebram ovos sobre a cabeça – parte da prática de limpeza espiritual – a evitarem o procedimento. “Peço para que não sujem a água dos irmãos que estão embaixo.”

Fizemos o caminho de volta à lanchonete, na entrada do parque. Numa das paredes há uma grande televisão, onde Maria planeja, num futuro próximo, passar vídeos educativos, com orientações aos visitantes. João veio nos encontrar numa das mesas, e Maria lhe ofereceu um pedaço do sanduíche. Quis saber se o marido não estava com fome. Ele também se mostrou perfeccionista: “Eu sou muito crítico. Ainda não está tão bom quanto poderia estar.”

O grande afluxo de pessoas é em boa medida resultado do trabalho dos dois. Ela contratou uma assistente, no final de 2018, para promover o site do Santuário em redes sociais e mecanismos de busca. Criou um canal no YouTube. Tem na ponta da língua os números de visualizações do local no Google Maps e dos acessos ao endereço eletrônico, no Brasil e no mundo. Pretende lançar ainda este ano uma página em inglês.

No meio da tarde, Maria se despediu de João, com um gesto discreto de afeto. No início do século xx, Max Weber escreveu A Ética Protestante e o ‘Espírito’ do Capitalismo. Na obra, o sociólogo alemão investiga as relações entre concepções religiosas introduzidas pela Reforma e a adoção da ética moderna do trabalho, quando o esforço cotidiano passou a ser visto como um valor, um fim em si mesmo, e não apenas um meio para satisfazer necessidades. Pelo menos nisso, João e Maria Linares fariam boa figura ali.

No caminho para casa, Maria me disse que o marido, com seu walkie-talkie e os olhos atentos para o bom funcionamento do Santuário, ainda ia longe nos afazeres, que tinham começado com o raiar do dia. “Os portões fecham às 17 horas, mas ele nunca consegue sair de lá antes das 18 horas.”

Rafael Cariello

Editor da piauí. Foi editorialista da Folha de S.Paulo e correspondente do jornal em Nova York

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