esquina

O visionário

Nada ou ninguém obrigará Amaury Jr. a sonhar com um futuro jeca

Paulo Sampaio
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2010

Na pista quase vazia, um barrigudinho cinquentão, camisa polo listada e cabelos impecavelmente acaju, dança a pernadas espaçosas com um grupo de colegas de trabalho. Todos se mexem de cá para lá, e vice-versa, ao som de uma crooner loira aparentemente disposta a sacrificar as cordas vocais para passar por cima de uma banda nem sempre harmoniosa. É com sofreguidão que seu diafragma se põe a serviço de hits dos anos 70 e 80.

“Eu acho que está tudo errado!”, diz, algo irritada, a industrial Mariângela Chadalakian, 40 anos, 1,75 metro, divorciada. Há seis meses, ela pagou 1 500 reais pelo privilégio de frequentar durante um ano o Club A. Se fosse homem, teria pago 4 mil; se fosse um casal, 5 mil. De todo modo, mais bacana e em conta teria sido passar as férias em São Lourenço – e com uma esticada por todo o Circuito das Águas.

Inaugurado em outubro do ano passado no Sheraton São Paulo WTC Hotel, no Brooklin, o clube nasceu da mente do jornalista, cantante, empresário e entrevistador de celebridades Amaury Jr. Foi uma resposta ao estado geral da noite paulistana, cuja decadência ele detectou com argúcia e rigor sociológicos. “Você vê de tudo nos clubes de elite de São Paulo”, explicou na época. “Entra bandido, estelionatário, pedófilo, qualquer um.” No dele, não: “Aqui, se não tiver postura e classe, eu veto”, advertiu às vésperas da inauguração. O A vinha ao mundo para ser um clube privê AAA.

Luxo custa caro, e os mentores do empreendimento não fizeram economias. Amaury Jr. declarou que ele e os cinco sócios investiram “mais de 10 milhões” (sem contar as permutas). Arregaçando as mangas, conseguiu o patrocínio da marca de champanhe Perrier-Jouët, da cervejaria Itaipava e do energético TNT. Em troca de moeda sonante, cada patrocinador ganhou o direito a 500 carteirinhas. Na mira está a gigante American Express. “Eles vão comprar três mil carteirinhas e dar aos clientes que gastam mais de 300 mil por ano”, revelou.

Mas aí surge uma questão. Em outubro, ao destroçar as veleidades de bandidos, estelionatários e pedófilos festeiros, Amaury escolheu a dedo o adjetivo para descrever o rigor do seu sistema de seleção de frequentadores: disse que seria “hitleriano”. Ora, se patrocinadores recebem carteirinhas para distribuir, isso não compromete a severidade inflexível da seleção? Para efeito de discussão: como saber se não há nenhum pedófilo entre os três mil clientes exclusivos da American Express? A resposta estava na ponta de língua: “Eu estou na estrada há mais de vinte anos, tenho condição de saber!”, explica o apresentador. “E tenho poder de veto!”

É a primeira vez que Mariângela Chadalakian volta ao clube desde a festa de inauguração. Veio acompanhada de duas amigas e percebe que a noite não anda lá das mais incríveis. Segundo funcionários, ela está entre os 25 sócios que circulam pelos 1 200 metros quadrados do clube. O empresário Olacyr de Moraes e três moças altas ocupam um dos camarotes da casa. Outro VIP da noite é a Cacau, a oitava excluída do BBB 10, que se faz ladear do devido assessor de imprensa. Não é certo que retorne ao A. “O pessoal aqui é mais velho, né? E o movimento tá fraco”, constata.

 

Mariângela beberica um suco de tomate que, na sua avaliação, está “péssimo”. Talvez para diminuir o desgosto, decide dar um giro pela pista de dança, onde o barrigudinho evolui incansavelmente. Ele não é sócio. Está hospedado no Sheraton com um grupo que veio de Garopaba, balneário a 80 quilômetros de Florianópolis, para assistir à prova de Fórmula Indy. Quem se hospeda no hotel pode entrar no Club A sem pagar nada.

Vanessa Glaz, ex-sócia de Amaury, não acha isso certo. Vanessa, ou Van, de 21 anos, e sua irmã, Danielle, ou Dan, de 19, abandonaram o negócio justamente por considerar que não se estava cumprindo o “conceito”. Ela dá detalhes: “O combinado era que, de quinta a domingo, o clube funcionaria só para sócios.” Van não diz por dizer. Ela sabe. “Estudei muito o assunto, pesquisei casas fora do Brasil, conversei com os donos do The Cuckoo Club, de Londres”, explica Van, que forma com Dan uma dupla vistosa de loiras.

Para Mariângela, como se não bastasse o suco de tomate e o barrigudinho, vem a notícia de que o brunch dominical, realizado sob curadoria do estilista Amir Slama – outro membro da sociedade –, está temporariamente suspenso. “Mas como assim?”, reage ela, já quase sem forças. Contatado, Amir explica que, “por enquanto”, o calendário de eventos foi reduzido. “Demos um tempo no brunch. A casa agora só abre de quinta a sábado”, diz, e mais não explica.

Mariângela se apoia num canto da pista, desanimada até para protestar.  Olha em volta e suspira: “Isso aqui não tem nada a ver comigo…” Por volta da uma da manhã, avisa às amigas que está de saída. Espirituosa, faz um chiste: “Isso aqui não é mais A. É Z.”

Amaury Jr. certamente discordará desse vaticínio amargo. Sua fé é inquebrantável e sua ambição é grande, enorme. Não será um excesso na barriga de ninguém que o impedirá de ressuscitar o Gallery, a grande boate do high society paulistano nos anos 70 e 80. Foi o sonho que ele anunciou aos quatro ventos quando abriu a casa: “Eu vou reabilitar o que eles conseguiram… Aquele glamour, aquela elegância, aquele entra-e-sai de mulheres bem-vestidas… A música daquelas décadas foi a mais criativa de todos os tempos… E nada vai superar a discoteca!” Ele ainda tem muito o que fazer, sem dúvida, mas muito já fez também. Donna Summer, finalmente elevada à altura dos grandes mestres da música universal, haverá de concordar.

Paulo Sampaio

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