esquina

Ode à mulher do pastor

Mais uma do Estado laico

Bianca Magela Melo
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2015

Listar os mortos recentes para homenageá-los é parte do protocolo das sessões da Câmara Municipal de Coronel Fabriciano, cidade de 108 mil habitantes a 200 quilômetros de Belo Horizonte. Os trabalhos no dia 24 de março foram abertos por Nivaldo Querubim, do PDT, que ao tomar a palavra declarou seu pesar pelo óbito de Dirceu Araújo Botelho e outros três conterrâneos. Os dezessete parlamentares – quórum completo – fariam um minuto de silêncio depois que cada um dos presentes desfiasse seus mortos.

Era outro, porém, o assunto que tagarelava na cabeça de todos. O próprio Querubim se encarregou de introduzi-lo após sua deferência aos finados. “Esta casa está vivendo dias difíceis desde o dia 10. Fomos alvo de chacota em todo o país”, afirmou, desencadeando um burburinho que precisou ser contido pelo presidente da Câmara. O orador ergueu um maço de recortes de jornal que haviam noticiado, em tom invariavelmente jocoso, a decisão da Câmara, em reunião anterior, criando na cidade o Dia Municipal da Esposa do Pastor.

Querubim criticou a proposta quando ela foi apresentada, o que não o impediu de votar a favor. Ele fez um mea culpa pouco antes de encerrar sua fala naquela terça-feira. “Só lamento não ter dado o voto contrário, mas os colegas evangélicos iam dizer que sou contra a causa deles”, disse. Com exceção do presidente e de um vereador faltante, os demais representantes aprovaram sem ressalvas a homenagem às mulheres de pastores.

O projeto de lei foi de autoria da vereadora evangélica Andréia Botelho, do PSL, cujo marido, Doriedson Botelho, já foi pastor. A proponente justificou nos seguintes termos a instituição da data: “O Dia da Esposa do Pastor é uma forma de reconhecer o trabalho e a dedicação daquela que passa a vida lutando, defendendo e apoiando a vida com Deus.” Sucinto, o texto não dava detalhes sobre a abrangência ou as implicações da homenagem.

Os ânimos esquentaram ainda mais quando, dois dias depois, a prefeita Rosângela Mendes, do PT, sancionou a lei e inscreveu no calendário oficial do município a comemoração da companheira do pastor, a ser celebrada todo dia 3 de março. Diante do alvoroço da mídia desde então, dois vereadores que haviam votado a favor recuaram e, menos de 24 horas após a entrada em vigor da lei, propuseram sua revogação (o pedido ainda não havia sido votado até a conclusão desta reportagem). O parlamentar Professor Edem, do PT, evocou um ensinamento que atribuiu a Confúcio para explicar a mudança de atitude: “O homem que comete um erro e não o corrige está errado de novo”, declarou antes da sessão. “Reconheço que errei, mas acho que temos que fazer do limão uma limonada suíça com leite condensado.”

 

A idealizadora do projeto é uma mulher de 47 anos, sóbria, de cabelo escorrido e fala mansa, trajes discretos. Única vereadora da cidade eleita pelo inexpressivo Partido Social Liberal, é aliada da prefeita petista. No plano nacional, o PSL se alinha com a oposição – apoiou Marina Silva no primeiro turno e Aécio Neves no segundo.

Quando chegou sua vez, ainda na rodada inicial de homenagens póstumas, Andréia declinou o nome de um defunto e logo passou ao tema que mobilizava os colegas. “Nesta casa nunca votamos nada ilegal. É um projeto de honraria. Temos por aí Dia do Ovo, Dia do Milho, por que não Dia da Esposa do Pastor?” Para afastar boatos de que a proposta suscitara certo constrangimento nas igrejas, completou: “Digo que o evangélico que é contra não é evangélico, porque não ama a mulher do pastor.”

A pauta do dia não previa a apreciação do tópico, mas o assunto insistia em voltar. Na leitura da ata da sessão anterior, Andréia levantou as sobrancelhas, se empertigou e disse baixinho, num tom determinado: “É isso mesmo!” Agitada, levantou-se e caminhou até o pequeno portão que separa vereadores de ouvintes e foi abraçar uma conhecida. No momento da votação de projetos, era vista numa animada conversa com a vizinha de mesa, filiada ao PROS, e um homem na primeira fila da audiência.

No bloco de parlamentares sentados do lado oposto, alguém questionou por que o vereador Adriano Martins, do DEM – proponente em 2013 do Dia Municipal do Capelão Evangélico, que passou a ser comemorado todo 7 de setembro –, havia faltado justamente à fatídica sessão. O edil se dispôs a apresentar um relatório de suas ações e motivos a qualquer cidadão que se dirigisse a seu gabinete, mas naquele momento não daria “argumento para inimigo político”. Enquanto a mesa diretora buscava pôr ordem na troca de insinuações, que envolvia uma hipotética viagem aos Estados Unidos sem aviso prévio, um parlamentar arriscava, sem acertar, a pronúncia de “Massachusetts”, desencadeando riso geral.

Silencioso até então, o vereador Beto Cavaleiro defendeu que os colegas arcassem com as consequências de suas decisões. “Temos direito de ganhar vaias e aplausos, e, neste caso, foram vaias. Devemos sustentar o que fazemos.” O vereador Eneias Reis, também evangélico, discursou em apoio a Andréia: “Convivo no meio cristão e digo que é mentira dizer que os evangélicos estejam insatisfeitos com o projeto. Acho que está havendo intolerância religiosa”, afirmou, para o júbilo da colega.

Ao final da sessão, com o plenário já quase vazio, a parlamentar se dirigiu ao espaço onde antes haviam estado os pouco mais de vinte ouvintes que assistiram à sessão, e voltou a comentar a polêmica. Com ar cansado, sem mostrar entusiasmo, respondeu aos questionamentos de forma despachada e automática. Repetiu que a data não seria feriado e sugeriu que fosse comemorada no âmbito das igrejas. Interpelada sobre a repercussão, disse estar muito tranquila, embora seu desassossego durante a sessão fosse evidente. “Agradeço a quem jogou nosso nome na mídia achando que ia nos prejudicar”, acrescentou em tom irônico. “Hoje estamos tendo oportunidade de falar de outros projetos.”

Naquela tarde ela não apresentou nenhum para a apreciação dos colegas.

Bianca Magela Melo

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