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Odisseia à mineira

Depois de correr o mundo pedalando, ele quer uma lavoura urbana no conjugado

Cristine Gerk
ANDRÉS SANDOVAL_2011

Chovia em Cordisburgo logo que aurora de dedos de rosa surgiu matutina. Um punhado de pessoas se aglomerava na frente da casa em que Guimarães Rosa foi criado. O arquiteto Argus Caruso Saturnino ajeitou a mochila nas costas, acenou e deu a primeira pedalada, deixando para trás os parentes que agitavam os guarda-chuvas para se despedir.

Zarpava para uma viagem de três anos e meio. Ia correr o mundo de bicicleta. Na Odisseia, enquanto Ulisses passava vinte anos longe de casa, lutando na Guerra de Troia e tentando voltar para Ítaca, foi lealmente aguardado por seu cão, Argos. Na epopeia que começava ali, quem viajou foi Argus.

No dia seguinte, o arquiteto descobriu que é impossível frear uma bicicleta pesada que desembesta morro abaixo, ainda mais sem a ajuda de Atena. Pedalava numa estrada de terra, em meio a uma plantação de eucaliptos, em direção à serra da Canastra, no interior de Minas. Mais ameaçadora que um ciclope, uma árvore se projetou à sua frente, numa descida em curva, e ele foi ao chão. O saldo foi um corte profundo na perna esquerda. Argus amarrou camisas para estancar o sangramento e decidiu seguir adiante, empurrando a bicicleta. Cogitou desistir. “Mas o mico seria muito grande”, admitiu. “Eu tinha acabado de fazer uma festa me despedindo de todo mundo.”

De Cordisburgo, o arquiteto pedalou rumo ao Mato Grosso do Sul, até chegar à Bolívia e cruzar os Andes, onde refez trilhas dos incas. De Lima, cruzou o Pacífico de avião até Sydney, na Austrália, e dali rumou para a Indonésia. Percorreu o Sudeste Asiático antes de seguir para o Oriente Médio, o norte da África e a Europa, até voltar para o Brasil. Quando concluiu a jornada, 35 mil quilômetros depois, Argus havia passado por 28 países de cinco continentes – o suficiente para encher dois passaportes de carimbos.



Ele pedalava até 50 quilômetros por dia e passava cada noite num lugar. Com o orçamento mensal de 300 dólares, que conseguiu com um patrocinador, as opções de pernoite eram limitadas. Dormiu em praias, escolas, prefeituras e templos. Teve pousos ainda menos convencionais, como tendas de beduínos, aldeias indígenas, casas em árvores e cavernas (na Capadócia). Visitou escolas, centenas delas, onde conversou – ou, com mais frequência, gesticulou – com as crianças e filmou recados delas para destinatários desconhecidos em escolas de outros países. Comeu de quase tudo. “Certas coisas não consegui encarar, como aranha frita, daquelas gordas, com os pelos oleosos e um creminho branco quando você morde”, disse, com uma expressão de desgosto.

Argus tem 36 anos e nasceu em Belo Horizonte, numa família de classe média. É um homem alto e bronzeado, de olhos verdes enormes e calvície em progresso. Mora num diminuto conjugado na praia de Botafogo, no Rio, onde não teria espaço para criar um cão que aguardasse seu retorno da próxima viagem. No chão do apartamento, há terra para todo lado. O arquiteto está sentado numa cama feita de tábuas, que é o que mais se assemelha a um móvel ali. “Pedalar é a parte simples da viagem”, contou. “Poucos acreditam, mas para uma viagem assim não é preciso muito preparo físico. Você pode se preparar no próprio trajeto, assim vai se acostumando com o ritmo da viagem, sem bolhas ou dores.”

 

Os monstros marinhos de Cila e Caríbdis, que Ulisses derrotou, foram brinquedo diante da polícia iraniana. Argus pedalava por uma estrada no interior do país, com uma amiga que acabara de fazer, quando viu emparelhar um carro com três policiais. Checaram seus passaportes e pediram que os dois fossem para a delegacia de Abbar, a 70 quilômetros dali. Escoltaram-nos de carro. Argus imaginou que o tomassem por um espião. Temeu pelo pior. “A cada quilômetro a mente ficava mais criativa e pessimista”, lembrou.

No posto policial, os viajantes foram interrogados, com o auxílio de um tradutor. Os agentes quiseram saber o que eles estavam fazendo ali e se tinham binóculos ou computadores. Foram liberados, mas na manhã seguinte os policiais os seguiram de carro novamente, “para sua segurança”. A escolta seguiu pelos próximos quatro dias. Argus consultou a embaixada brasileira em Teerã, que lhe recomendou que deixasse o Irã o mais rápido possível. “Ainda ficamos um dia na pequena cidade de Masuleh, na esperança de nos deixarem em paz, mas fizeram vigília na frente do hotel. Tivemos mesmo que ir embora”, lamentou.

Argus enfrentou ainda obstáculos como tombos, hipotermia, desidratação e intoxicação alimentar, mas concluiu seu trajeto com êxito, voltando à mesma Cordisburgo de onde partira.

Como não havia PowerPoint nos tempos da Odisseia, Ulisses nem considerou sair numa turnê de palestras pelo Peloponeso para narrar suas peripécias depois de voltar a Ítaca. Já Argus decidiu que devia compartilhar sua experiência com o mundo. Desde que retornou, já visitou mais de 50 escolas para falar de sua viagem. Também faz palestras para defender que a diversidade cultural trará a paz para a humanidade. “O mundo é maravilhoso”, conta o arquiteto com ar idealista. “A mídia amplia sem medida os focos de problemas. Fui ao Irã, à Síria, à Mongólia e à Turquia e o que mais vi foram famílias em busca de paz.”

A experiência também ensinou ao arquiteto que a ciência e tecnologia não impediram que o mundo ocidental regredisse muito, em certos aspectos. “Não conseguimos mais usar a ventilação, a iluminação e o aquecimento naturais, como tantos povos orientais ainda fazem”, denuncia. Imbuído da luta pela preservação do meio ambiente, decidiu estudar o uso da terra crua na construção, no mestrado em design que faz na universidade católica do Rio.

E a luta por um mundo mais sustentável começa em casa. Argus afirma querer construir em seu conjugado uma verdadeira lavoura urbana – embora cactos sejam tudo o que se vê por ora. O reboco é de terra, a parede é de pau a pique e a pintura, de baba de cacto. Num canto, jazem bambus que o arquiteto promete transformar em móveis. Tudo muito orgânico. Segundo ele, “é só botar o apartamento abaixo que nasce planta”.

Cristine Gerk

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