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    CRÉDITO: ANDRÉS SANDOVAL_2023

esquina

Olhos nos olhos

Os 84 anos de uma fotógrafa da música popular brasileira

Thallys Braga | Edição 206, Novembro 2023

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A cidade de Serrinha, na Bahia, tinha 46 mil habitantes no início da década de 1940. Quase todas as mulheres e homens eram brasileiros, católicos, solteiros, pardos, trabalhadores do campo e com os olhos em perfeito funcionamento. Fugiam da normalidade 72 cegos, 3 estrangeiros e 8 cidadãos sem religião. Havia ainda uma senhora, conhecida por todos como Zizu, que se distinguia das outras pessoas em razão de um laboratório fotográfico que mantinha em casa. Zizu acabara de se tornar avó de uma menina, a pequena Thereza Eugênia Paes da Silva.

A infância de Thereza transcorreu naquele ambiente analógico, iluminado por lâmpadas vermelhas e nenhuma luz natural, onde eram reveladas as fotos dos seus familiares e vizinhos. Na adolescência, ela ganhou do pai uma máquina Kapsa – um modelo quadrado, mais barato que as outras câmeras da época – e começou a registrar a irmã nas paisagens de Serrinha. As paixões de sua juventude eram a fotografia e as canções de Emilinha Borba e Angela Maria, que ouvia na Rádio Nacional. Seu desejo mais profundo era conhecer Copacabana.

Ela estava com 24 anos quando viajou ao Rio de Janeiro pela primeira vez, acompanhada por amigos baianos (um deles dizia ser primo distante de João Gilberto). Gostou tanto das orlas da Zona Sul, cheias de garotas e garotos bonitos, que não quis voltar para casa. Fez chegar à família o recado de que arranjaria moradia na cidade grande. Tinha acabado de se formar em enfermagem na Bahia e logo conseguiu emprego no Hospital Federal de Ipanema, perto o suficiente da praia e da vida musical da cidade.

Thereza logo comprou uma máquina fotográfica moderna para registrar os amigos. Numa noite de 1969, foi com eles assistir Maria Bethânia no musical Sob o signo de Bethânia, em Copacabana. Puxou a câmera da bolsa e click, registrou a cantora no palco. Começava ali uma empreitada que marcaria o seu nome na história da música popular brasileira.

 

Pouco tempo depois, Thereza estava na casa de Bethânia, no Leblon, fotografando-a em momentos de descontração. “Não lembro como fomos apresentadas. Thereza era namorada de um músico meu, que de vez em quando frequentava minha casa”, conta Bethânia. As fotos despertaram o interesse de Maysa. De volta ao país depois de um período na Europa e nos Estados Unidos, a compositora queria mostrar aos brasileiros a nova silhueta, obtida com uma dieta rigorosa e anfetaminas, e os dentes brancos recém-implantados em Los Angeles. A enfermeira arranjou uma folga no trabalho e foi ao apartamento de Maysa. Retratou-a na sacada, observando o horizonte e o mar.

Thereza queria ganhar uma grana extra com a fotografia, mas os empresários dos artistas achavam o seu trabalho pouco comercial. Foi com grande surpresa que ela recebeu um convite de Ivone Kassu, assessora de imprensa de Roberto Carlos, para registrar a primeira temporada do cantor no Canecão. Thereza teve que pagar uma colega de trabalho para assumir o seu plantão na enfermaria. Valeu a pena: Roberto colocou a foto na capa do disco que lançou em 1970, com o sucesso Jesus Cristo. “Eu ganhei, em uma noite, o valor que ganhava em um mês de trabalho no hospital”, lembra.

A essa altura, Thereza começou a se tornar uma fotógrafa conhecida, mas não era por isso que circulava em meio aos famosos. Antes de ter o talento respeitado, ela fez amizades com músicos na Praia de Ipanema. Gal Costa, por exemplo, frequentou a casa de Thereza porque a namorada da cantora na época, a atriz Wilma Dias, tinha interesse por fotografia. E Thereza frequentou a casa de Marina Lima porque conheceu a cantora e os irmãos, Roberto Lima e Antonio Cícero, na areia. “Foi Thereza quem me ensinou a dirigir”, diz Marina. “Ela tinha um Fusca e saímos pela cidade para as aulas de direção.”

As duas foram juntas ao primeiro show de Caetano Veloso no Brasil depois do exílio, em 1972. Thereza fez uma dupla exposição do cantor durante a apresentação de O que é que a baiana tem, no momento em que ele imitava os trejeitos de Carmen Miranda. Foi com essa imagem que a fotógrafa conquistou a confiança de Guilherme Araújo, que geria as carreiras dos jovens artistas baianos – era o homem que, como diz Caetano em Verdade tropical, “deve ser visto não apenas como um empresário, mas […] um coidealizador do movimento tropicalista”.

 

Com a licença do influente Araújo, Thereza ganhou livre acesso aos artistas que o rodeavam. “Quando cheguei ao Rio, ela já era conhecida como a fotógrafa da turma dos Doces Bárbaros”, lembra Ney Matogrosso, que também foi retratado pela baiana. “Nunca vi a Thereza gritar, sempre foi suave. Isso fez eu me aproximar e ficar à vontade com ela.” (Até a entrevista para a piauí, Ney não sabia que Thereza era enfermeira quando eles se conheceram. Na enfermaria, ninguém sabia na época que ela era fotógrafa.)

Na década de 1970, a fotógrafa registrou o antológico show Fa-tal – Gal a todo vapor e fez a foto de capa do disco Cantar, ambos de Gal. Tirou algumas das fotos mais memoráveis de Caetano, Gilberto Gil, Rita Lee, Alcione, Chico Buarque, Zezé Motta, Angela Ro Ro, Raul Seixas e tantos outros, com ar despretensioso, sem pose de artista. Preferia usar a luz do dia e a iluminação do palco, nunca o flash. “Sempre tive senso de intimidade”, diz. A partir dos anos 1980, ela passou a fotografar menos. “Eu não queria obedecer nada nem ninguém. Não quis trabalhar para nenhum jornal ou gravadora. A enfermagem me dava um salário para viver.”

Thereza tem 84 anos, completados em outubro passado, e vive da aposentadoria de enfermeira. Seus olhos azuis estão enevoados. Ela usa o Instagram para compartilhar as fotos do acervo pessoal. Os empresários dos artistas que fotografou no passado estão sempre ligando para pedir acesso ao arquivo, mas quase nunca a remuneram pelo uso de suas obras. Dificilmente enviam convites para shows (ela vai a muitos, mas compra os ingressos).

Suas fotografias estão guardadas em pen drives no armário de casa. Os amigos a aconselharam a vender ou doar o material para uma instituição cultural, mas Thereza tem uma preguiça terrível de lidar com burocracias. Prefere passar os dias assistindo aos mesmos filmes de sempre (ela tem um pen drive com vários longas de Wim Wenders e Woody Allen). Caminha até o Forte de Copacabana todo fim de tarde. Se a paisagem está excepcionalmente bonita, ela fotografa. Se não, pega uma brisa e retorna para o conforto de sua casa.