esquina

O’Minas Gerais

Maior produtor de cachaça do país, o estado avança na indústria do gim

Carlos Adriano
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2021

APereskia aculeata é uma planta trepadeira, de graciosas folhas miúdas, que adora cobrir de verde muros e cercas. É também um ingrediente antigo da culinária mineira, famoso por seu potencial nutritivo e pelo nome popular impregnado de religiosidade: ora-pro-nóbis (trecho da Ave-Maria em latim, “ore por nós”).

Utilizada há séculos para temperar carnes, ensopados e omeletes, a planta foi parar agora na fórmula de um gim produzido em Minas Gerais. “Buscamos um ingrediente que representasse a história da nossa família”, diz a belo-horizontina Laiza Machado. Ela é diretora e proprietária – com Alexandre Luchesi, seu marido – da Destilaria Don Luchesi, inaugurada em 2019, que resolveu incluir a trepadeira provinciana à base de zimbro que consagrou internacionalmente o gim.

Foi preciso fazer vários testes laboratoriais até encontrar a receita ideal do O’Gin, o nome da bebida com ora-pro-nóbis. “Resultou numa receita leve e aromática, em que o sabor da planta não é destacado no paladar, serve apenas de complemento a outros botânicos”, descreve Machado. O produto foi bem recebido: neste ano ganhou medalhas de ouro em competições nos Estados Unidos e no Reino Unido.

O gim com ora-pro-nóbis não é o único em que a destilaria situada em Lagoa Santa, na região metropolitana de Belo Horizonte, apostou num ingrediente tipicamente brasileiro. Há ainda o O’Gin Amazonian, a ser lançado proximamente, composto de botânicos da Floresta Amazônica, entre eles a flor de jambu, que se devorada in natura causa certo formigamento na língua.

 

“Meu verso é minha cachaça”, cravou Carlos Drummond de Andrade no poema Explicação, que faz parte do livro Alguma Poesia, publicado em 1930. Já naquela época, Minas Gerais, terra natal do poeta, destacava-se por seus alambiques. Desde então a quantidade deles só aumentou – até o estado se tornar o maior produtor do país.

Segundo o levantamento A Cachaça no Brasil: Dados de Registro de Cachaças e Aguardentes, publicado em 2020 pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Minas Gerais tem 375 produtores de cachaça. É um número maior que a soma dos alambiques de São Paulo (126), Espírito Santo (62) e Rio de Janeiro (59). Esses quatro estados concentram cerca de 70% dos 894 fabricantes brasileiros e juntos produzem 4 003 marcas da “marvada”.

Nos poderosos domínios mineiros da caninha, no entanto, o destilado com zimbro está avançando a goles largos, o que leva à hipótese de que o poema de Drummond venha a ganhar no futuro uma nova versão: “Meu verso é meu gim.”

Ainda não existem dados seguros sobre a expansão das marcas no estado, mas o Sindicato das Indústrias de Cerveja e Bebidas em Geral do Estado de Minas Gerais, por intermédio da executiva Tatiana Santos, garante: “O gim está ganhando espaço.” Uma pesquisa a respeito do novo setor deve ser feita neste ano, em vista do crescente número de fabricantes, resultado do aumento da demanda no país e no estado.

O gim Zuur, por exemplo, vende em Minas Gerais 5 mil das 7 mil garrafas produzidas mensalmente, segundo Rafael Melo Lima. Ele é um dos sócios da Destilaria Zuur, instalada em Caeté, a 1 hora de Belo Horizonte. Inspirados por hábitos culinários do Cerrado mineiro, os produtores incluíram na receita do gim o limão-cravo (também chamado limão-galego ou limão-capeta). Em 2019, o Zuur foi eleito o melhor da América do Sul pelo Gin Guide (editado em Oxfordshire, na Inglaterra) e ganhou medalha de prata no Spirits Selection by Concours Mondial de Bruxelles, na Bélgica, uma das maiores competições de destilados do mundo.

Mas nem sempre o sucesso de um gim cabe em Minas Gerais.

O brasiliense Augusto Simões Lopes, depois de atuar durante 25 anos em grandes empresas, resolveu se mudar para Camanducaia, no Sul de Minas, onde se dedicou à produção de azeite. Em 2017, um pouco como hobby, começou a produzir artesanalmente o Jungle Gin.

O projeto deu certo, e no mesmo ano ele inscreveu o destilado no Spirits Selection by Concours Mondial de Bruxelles. Ganhou medalha de prata. Em 2018, voltou à disputa na Bélgica e foi premiado com medalha de ouro. No ano seguinte, Lopes mudou o alambique para a cidade de São Paulo, “por razões de logística, imposto, fornecedores e clientes”, diz ele.

 

Entre 2018 e 2019, o consumo de gim teve alta de 11% no Brasil, um aumento superior à média mundial, de 6,1%, segundo Laiza Machado. Para seu marido, Alexandre Luchesi, o destilado ganhou o paladar do brasileiro por ser versátil, fácil de combinar e permitir um preparo rápido, como no caso do gim-tônica. “Até 2026, será a bebida mais consumida do mundo”, ele especula.

A Don Luchesi produz mensalmente 10 mil litros de gim e até o fim do ano planeja abrir uma nova fábrica em Lagoa Santa com capacidade para produzir 200 mil garrafas por mês. Em junho, lançou um gim cujo gargalo traz as cores da bandeira do movimento LGBTQ+, de cuja venda vai destinar parte dos lucros para a ONG paulistana Casa 1, que oferece um centro de cultura e de acolhimento a LGBTs.

Mais profano, o “gim gay” não vai conter ora-pro-nóbis. E foi batizado como O’Gin Be Proud, para alinhar a marca ao gosto cosmopolita da época. Lá se vai o tempo em que os destilados de Minas ganhavam nomes brejeiros, como os das cachaças Pinissilina, Canarinha e Balanga Bicha.

Carlos Adriano

Leia também

Últimas

Cinemateca Brasileira em chamas – II

Foi preciso um fogaréu para comover quem ignorou o abandono da instituição

Garras olímpicas

Mais presentes nos pódios brasileiros do que em edições passadas, unhas decoradas também são parte da história dos jogos

A noite mais fria, na capital mais fria

As histórias de quem vive nas ruas geladas de Curitiba  - e por que muitos ainda recusam acolhimento nos abrigos públicos

O limbo brasileiro em Cannes

No maior festival de cinema do mundo, protestos contra Bolsonaro e apreensão com o futuro dos filmes no país

Mais textos