esquina

Open house

Se você não for gay ou velhinha, atenção

Daniela Pinheiro
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2010

Às sextas-feiras, a carioca Graça Borges costuma se ocupar com uma atividade que a consome quase toda a manhã. Com os cadernos de programação de três jornais cariocas à mão, ela sublinha meticulosamente os eventos que a deixarão ocupada nas noites e madrugadas seguintes. São inaugurações, vernissages, entregas de prêmio, avant-premières, sessões de autógrafo, coquetéis, condecorações e solenidades diversas. Dos casamentos, aniversários, bodas de prata, feijoadas, bailes e jantares de gala, ela fica sabendo pelo bochicho de amigos e conhecidos.

Convite nunca foi empecilho. “Esse nome penetra é muito vulgar”, disse Graça numa tarde de janeiro. Ela prefere se autoenquadrar como “festeira” ou, para os mais antropológicos, como alguém de “espírito carioca”. Garante que não sai para perturbar a festa de ninguém, “mas para me arrumar, me sentir bonita, estar em contato com gente interessante num ambiente elegante. Tem só esse detalhe de não ter sido convidada”.

De fato. Promoters, seguranças e colunistas sociais costumam pespegar em Graça o apodo de “a maior penetra do Rio de Janeiro”. Ela considera uma injustiça. “Quando você é loira, alta e magra, é impossível não ser percebida. Os maiores penetras do Rio são os gays, que se vestem de terno, andam em grupo e parecem chiques, e as velhinhas aposentadas.” Os dois grupos passam incólumes pela polícia festeira. Gays, pelo efeito camuflagem – parecem parte integrante do ambiente; velhinhas, pelo efeito moral – ninguém imagina que elas sejam capazes disso. Sobra para as loiras.

Aos 60 anos, Graça está em ótima forma. Aparenta uma década a menos por engenho e arte do doutor Pitanguy. Seus cabelos platinum blond são longuíssimos. Tem as sobrancelhas delineadas por sombra escura e olhos contornados por lápis kajal. Formou-se em medicina na Universidade Federal do Rio de Janeiro e por dois anos chegou a exercer a profissão – era dermatologista –, mas o marido, um engenheiro bem-sucedido, foi transferido de cidade e ela o acompanhou. Desde então, nunca mais atendeu um paciente. “Comecei a sair para romper o tédio da vida de dona de casa. Um amigo me chamou para ir a uma festa. Não tínhamos convite, entramos na surdina e eu gostei.”

Da última vez que contabilizou o número de festas nas quais entrou de bicona, chegou a uma cifra respeitabilíssima: 498. Isso foi em 2005. De lá para cá, parou de contar. São tantas incursões felizes que ela não se lembra da maioria. Ficam na memória apenas as especiais, aquelas que exigiram tecnologia de ponta e empenho redobrado. “A festa da Carla Bruni com o Sarkozy, eu lembro de cada detalhe”, disse. Aconteceu em dezembro de 2008, no Museu de Arte Moderna. O coquetel foi oferecido ao primeiro-casal francês pelo presidente Lula. Durante duas semanas, Graça tentou conseguir um convite pelas vias normais. Ouviu de um conhecido que era melhor desistir, pois os convidados tinham até que se cadastrar, com passaporte e tudo, no consulado francês.

No dia da cerimônia, ela acordou mais cedo, foi ao salão, pôs o melhor vestido e chegou na porta do MAM duas horas antes. “Encontrei um senhor francês que eu conhecia de vista de outras festas e pedi para ele entrar comigo. Ele disse que o convite era individual, mas eu argumentei que não custava nada tentar”, relatou. Que o serviço secreto francês não ouça, mas deu certo. O homem entabulou uma longa conversa no idioma de Molière com um conterrâneo e Graça foi brindada com a pulseirinha que dava acesso à festa. “Esse foi o único evento em que eu tinha certeza que não ia entrar. Quando é para acontecer, acontece”, opina. Ficou a poucos metros de Carla Bruni, “uma mulher fina e elegante, muito de acordo para o presidente da República”.

 

Com quase duas décadas de prática, Graça montou um arsenal de conhecimentos táticos de dar água na boca a um marechal Montgomery. Aprendeu a distinguir segurança maleável de segurança inflexível e festa furável de festa impossível. “Camarote da Brahma é dor de cabeça. Quando exigem camiseta, o convite tem tarja eletrônica ou a festa tem muito paulista – esquece.” Sua expertise está sintetizada em pelo menos cinco regras de ouro:

1. Jamais encare um segurança nos olhos.

2. Estufe o peito e entre no ambiente fingindo que fala ao celular.

3. Esteja sempre bem-vestido, mas de maneira discreta. Se for homem, terno preto. Se for mulher, tubinho preto.

4. Se a segurança na porta principal for reforçada, procure a entrada de emergência, a da entrega de bebidas ou a dos funcionários.

5. Misture-se a um grupo grande. Em geral, não dá tempo de fiscalizar todos os convites.

É preciso também respeitar uma certa etiqueta. “Só tento entrar quando o evento é em lugar público. Nunca tentei ir às festas da Narcisa Tamborindeguy ou do Wolf Maya. Isso é invasão de privacidade”, afirma, grave.

Penetrar na maciota requer uma coragem que não se encontra nos fracos de espírito. Poucos são os que resistem ao opróbrio de ser expulso perante uma multidão de convidados. Segundo Graça, é o preço a pagar. Não se deve tomar a coisa pelo lado pessoal. “Claro que é constrangedor, mas quando acontece não é para ter dúvida: você agradece e vai embora.”

A promoter carioca Kika Gama Lobo, responsável pelos eventos de grifes como Louis Vuitton e Cartier, conhece Graça Borges de longa data e só lhe dirige elogios: “Nesse segmento dos famintos, composto por um bando de desclassificados, ela é totalmente diferente. Anda impecável, é discreta, sabe se portar. Ela só quer estar na festa. Não tira foto, não pede autógrafo. É a penetra ideal.”

Uma recente infiltração de Graça ocorreu na Ordem dos Advogados do Brasil, na cerimônia de posse de novos causídicos. Difícil imaginar um evento tão destituído de interesse, mas a categoria dos gays bem-vestidos estava a postos e entrou sem resistência. Já Graça foi barrada por uma mocinha cuja autoridade emanava da prancheta que trazia à mão. “Eu já tinha tido aquele trabalho todo de ir até lá”, contou, “então me coloquei à esquerda da porta e esperei chegar algum cavalheiro sozinho.” Quando o espécime se materializou, Graça lhe disse que estava aguardando um amigo que não chegava e perguntou se ele não se incomodava em entrar com ela. Dois minutos depois, data venia, estava dentro, pronta para fruir dezenas de discursos em legalês sobre incomensuráveis cenários jurídicos, regimes discricionários, questões legislativas, de doutrina e de jurisprudência. Bem melhor do que ficar plantada em casa, vendo televisão de abrigo e sandália de dedo.

Mas o futuro próximo nem sempre se anuncia promissor. Segunda-feira abriu com tempo feio e ela foi obrigada a suspirar: “Ah, hoje tem Oi Futuro, tem exposição na Caixa Econômica… Mas com chuva quem importa não sai de casa.”

Daniela Pinheiro

Daniela Pinheiro foi jornalista da piauí entre 2007 e 2017

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