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Os embalos de Sartori

Um político em ascensão no Uruguai

Danilo Thomaz
ILUSTRAÇÃO: Andrés Sandoval_2019
ILUSTRAÇÃO: Andrés Sandoval_2019

“Vê se tira a esquerda de lá”, disse o presidente Jair Bolsonaro ao político e milionário uruguaio Juan Sartori, durante um jantar em Davos, em janeiro do ano passado.

Sartori era então candidato nas prévias do Partido Nacional, de centro-direita para as eleições presidenciais no país. Foi vencido por Luis Lacalle Pou, que acabou eleito presidente do Uruguai em novembro último, com 48,7% dos votos – e arrancou do poder o partido de esquerda Frente Ampla, depois de quinze anos.

Fora da disputa presidencial, Sartori candidatou-se ao senado. Eleito com pouco mais de 96 mil votos, tornou-se, aos 38 anos, o senador mais jovem da próxima legislatura no país.

Sartori não se encontrou mais com Bolsonaro. Mas guarda boa lembrança do brasileiro e do que lhe foi sugerido no jantar. “Foi uma demonstração de apoio”, disse, em seu escritório no Edifício Unión, no Centro de Montevidéu. “Bolsonaro é uma pessoa que tem uma visão muito transparente, direta, da comunicação.”

O escritório tem três ambientes, pintados de branco e azul-cobalto. Em um deles, há uma mesa de tampo negro e uma prateleira com miniaturas de bois e outros animais. É uma lembrança dos negócios de Sartori no Unión Agriculture Group, uma das maiores empresas do setor agropecuário no Uruguai, fundada por ele, mas da qual é hoje apenas um dos acionistas. Magro e alto, com os cabelos penteados fio a fio, o senador portava um topete parecido com o de John Travolta em Os Embalos de Sábado à Noite.

Em junho, dirigentes do Partido Nacional denunciaram à Justiça o uso de notícias falsas contra Lacalle Pou e outros pré-candidatos à Presidência. Embora o nome de Sartori não tenha sido citado pelos denunciantes, especulou-se que aquilo fosse obra dele. Tanto mais que sua equipe na campanha contava com o venezuelano Juan José Rendón, considerado “o mago da propaganda suja”.

“Creio que nenhuma campanha utilizou fake news”, defendeu-se o senador recém-eleito. Mas depois acrescentou: “Houve notícias falsas o tempo todo.” E reclamou por ter sido, ele próprio, vítima de “todo tipo” de fake news. Uma delas dizia que ele se estabeleceu no Uruguai para montar uma plataforma da máfia russa na América do Sul.

 

Com seus votos, Sartori ajudou a eleger para deputado o pastor evangélico Álvaro Dastugue, da Misión Vida para las Naciones, a segunda maior igreja neopentecostal do país (a primeira é a Assembleia de Deus). A influência dos neopentecostais é crescente na vida uruguaia. Mas Sartori nega que tenha ancorado sua candidatura nessas igrejas, que na próxima legislatura terão três deputados pelo Partido Nacional e dois pela Frente Ampla. “A agenda de direitos [das minorias] é algo que nosso partido apoiou. Isso precisa ser mantido”, disse ele.

Tampouco lhe incomoda a ascensão do partido Cabildo Abierto, de extrema direita, criado no início do ano passado e ao qual pertence Guido Manini Ríos, quarto colocado nas eleições presidenciais. “Não os ouvi dizer nada que fosse antidemocrático. Para mim parece bom que o sistema político seja o mais diversificado possível”, afirmou Sartori. Chefe do Exército entre 2015 e 2019, Ríos foi demitido pelo presidente Tabaré Vázquez por criticar um tribunal que investigava crimes da ditadura militar no Uruguai (entre 1973 e 1985).

Para Sartori, o governo de Tabaré Vázquez, que termina em março próximo, foi “ruim em todos os aspectos” – em particular do ponto de vista econômico. “O país ficou ilhado”, disse. Por isso, ele defende a flexibilização do Mercosul, para que o Uruguai possa fazer mais acordos bilaterais. “O Mercosul é uma linda ideia, mas não funciona bem para ninguém.”

 

A eleição uruguaia do ano passado foi a primeira em que Sartori votou, em toda a sua vida. “E votei em mim mesmo”, disse, disparando um sorriso.

Ele nasceu em 1981 em Montevidéu, mas mudou-se aos 12 anos para Paris, acompanhando a mãe, que foi fazer um doutorado na França. Em 2003, formou-se em economia, na Universidade de Lausanne, na Suíça. Passou boa parte de sua vida entre este país, a França, Inglaterra e os Estados Unidos. Só a partir de 2005 incluiu também o Uruguai em suas andanças.

Contou ter começado sua vida de investidor com 12 mil dólares, dinheiro emprestado de amigos, mais 4 mil dólares do próprio bolso. No mesmo ano em que se formou, criou o Union Capital Group, um fundo de investimentos, vendido em 2008. Com o capital da venda, fundou o Unión Agriculture Group. “Ponho o mesmo nome em tudo”, afirmou. Seus negócios abarcam o setor agropecuário, de óleo e de gás (o valor de sua fortuna pessoal ainda é um segredo).

Em 2015, casou-se com Ekaterina Rybolovleva, 30 anos, herdeira do bilionário russo Dmitry Rybolovlev, considerado o 224º homem mais rico do mundo, segundo a revista Forbes. A badalada festa de núpcias ocorreu em Scorpios, na Grécia, ilha que foi de Aristóteles Onassis e mais tarde de sua neta Athina Onassis, que a vendeu para Ekaterina por 153 milhões de dólares. Como Athina, a mulher de Sartori é uma aficionada por equitação.

Em 2018, Sartori adquiriu, com dois sócios, um time da terceira divisão inglesa, o Sunderland, imitando seu sogro, que é dono do AS Monaco (Association Sportive de Monaco Football Club). No mesmo ano, de olho na carreira política, voltou a viver no Uruguai. Não esperou muito para lançar-se candidato. Em outubro, filiou-se ao Partido Nacional. Em dezembro, concorreu nas prévias da legenda para a Presidência.

O senso de oportunidade de Sartori já havia soado forte antes disso. Em 2013, quando o Uruguai regulou o mercado recreativo e medicinal da cannabis, ele obteve autorização do governo para comercializar canabinoides com fins medicinais e fundou a International Cannabis Corporation (ICC). A empresa – da qual era acionista majoritário – foi vendida em 2018 para a canadense Aurora Cannabis, por um valor estimado entre 50 e 70 milhões de dólares em ações.

O próprio Sartori experimentou maconha uma única vez. “Provei, mas não me causou nada”, contou. Ele parece preferir estes excitantes poderosos que são os negócios e a política. E o Poder Executivo do país é ainda o seu principal objetivo. “Seguramente me faltou tempo. Aprendi como fazer melhor no futuro”, disse. Ao se despedir sugeriu um título para esta entrevista: “O próximo presidente do Uruguai.”

Danilo Thomaz

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