esquina

Os enigmistas

Um passatempo em extinção

Bernardo Esteves
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2019

Na última semana de novembro, cinco charadistas estavam reunidos na sede do Círculo Enigmístico Paulistano, o CEP, no 15º andar de um edifício no Vale do Anhangabaú, no Centro de São Paulo. “Isso aqui é público de Fla-Flu”, comemorou Aldo Mattos. “Geralmente vêm só dois ou três.” Aos 53 anos, o engenheiro sergipano era o caçula do grupo, pelo menos duas décadas mais jovem que os confrades. Ele e os colegas se tratam por seus pseudônimos: Mattos é Batuta; os parceiros atendem por Agagê, Joquimas, Samuca e Vignati.

Os sócios do CEP – 78 atualmente – pagam uma anuidade de 120 reais que lhes dá direito a receber as edições trimestrais da revista O Enigma e a frequentar a sede da instituição. Doado ao Círculo por um antigo diretor, o escritório espaçoso fica aberto nas tardes de quarta; costumava abrir também aos sábados, mas já não há público. “Houve tempo em que você nem achava lugar para sentar aqui”, disse Joquimas, codinome do contador aposentado José Quirino Mastrangi.

Os enigmistas se reúnem para resolver quebra-cabeças linguísticos de vários gêneros, dos quais o mais nobre é a charada. Mas que ninguém venha com os problemas fáceis que acabaram associados à palavra no senso comum. “Charada não é ‘o que é, o que é’”, protestou Batuta. “É um passatempo erudito de culto às letras, tudo baseado em dicionários.”

A charada de raiz consiste num texto em verso ou prosa com pistas que, combinadas, levam à resposta. Um exemplo típico se enuncia assim: “Malandro de botequimvence por meio de trapaça (1-2)” (os números indicam a quantidade de sílabas da solução de cada pista em itálico). A resposta junta “bar” e “ganha” para formar “barganha”. Essa é a charada do tipo adicionada, a mais tradicional; existem ainda as aferéticas, as sincopadas e as paragógicas, dentre outras, cada uma com suas regras.

O mais profícuo enigmista brasileiro é Joquimas, que há quatro décadas edita a seção de charadas da revista do CEP, além de contribuir com palavras cruzadas, grifogramas, logogrifos e outros desafios. É também sonetista – calcula já ter escrito mais de 3 mil poemas do gênero. O charadista tinha 11 anos – hoje tem 79 – quando elaborou sua primeira cruzadinha, publicada na revista carioca Grande Hotel. Nos anos 80 dirigiu a seção de cruzadas e charadas de O Estado de S. Paulo – jornal em que o jovem Jair Bolsonaro publicou 21 palavras cruzadas na década anterior.

Admitido em março de 1953, um ano após a fundação do CEP, Agagê – nome de guerra do engenheiro aposentado Henrique Gurfinkel – foi o sócio número 85, indicado por Alberto Goldman, que mais de meio século depois seria governador de São Paulo. Agagê é três meses mais novo que o decano do grupo, o bancário aposentado Cid Rolando Vignati, que tem 82 anos como ele.

E não haverá mulheres entre os charadistas? Agagê apressou-se em citar Célia Vituli, a diretora social do Círculo e “uma das maiores cruzadistas do Brasil”. Os colegas lembraram-se também de Maria Oscarina Silva, sócia de Maceió que completou 90 anos em setembro último.

 

Mesmo os mais eruditos enigmistas são incapazes de resolver todas as charadas de cabeça. Sua ferramenta essencial são dicionários invertidos em que se parte da definição para chegar à palavra. Se uma pista da charada envolve o “fluido cósmico condutor da luz”, o enigmista vai à letra F para descobrir que se trata do éter; se a definição que lhe falta é a de uma “hospedaria reles”, a solução estará na letra H – “zungu”.

Os dicionários invertidos são chamados de calepinos, em homenagem a Ambrogio Calepino, lexicógrafo italiano do século XV. “Tentar resolver charadas sem calepinos é como não ter a bola e querer jogar futebol”, costuma comparar Joquimas. É possível encontrar em sebos calepinos lançados comercialmente, como os de Ernani Borges dos Reis ou o de Agenor Costa. A maioria das edições disponíveis, porém, é artesanal, datilografada ou mimeografada pelos próprios charadistas. “Isso tudo era feito a mão, é um trabalho de muitos anos”, notou Agagê, examinando o acervo de calepinos nas estantes do CEP.

A biblioteca reúne centenas de volumes, incluindo coleções de revistas de enigmismo de várias épocas e procedências e uma profusão de obras de referência – dicionários de verbos, sinônimos, locuções, provérbios, expressões regionais e estrangeiras. O acervo é inestimável para os enigmistas. “Viemos consultar as obras que não temos em casa e resolver juntos as charadas mais difíceis”, explicou Agagê.

A penúltima edição de O Enigma registrou a morte de João Cimola, enigmista que atendia pelo pseudônimo Jotacê. Frequentador das reuniões de quarta, há 25 anos editava a seção de palavras cruzadas. “A tristeza é que agora cada edição vem com obituário”, lamentou Agagê. A tiragem atual é de cem exemplares, e cada vez menos leitores escrevem para mandar as respostas pelo correio (os editores não aceitam e-mails). “A gente logo, logo pifa e não vai ter mais Círculo.”

A renovação dos entusiastas é urgente para a sobrevivência do passatempo. Joquimas aposta no caçula para tomar as rédeas. “Batuta é um cara excelente pra assumir o Círculo.” O desafio não será trivial. O sergipano já tentou cooptar amigos para o charadismo, sem sucesso. “Comprei calepinos e entreguei na mão deles, mas nem assim.” Entre as novas gerações, o interesse parece ainda menor. “Os meninos não têm tempo nem paciência para resolver os problemas”, continuou o charadista. “Meu filho de 10 anos só escreve ao celular, com corretor ortográfico. Ninguém mais consulta dicionário hoje em dia.”

Batuta estava de olho numa pilha de caixas postada na entrada da sala. Guardavam a coleção de calepinos do charadista Antônio Bittar, antigo presidente do CEP, que havia sido legada aos colegas pela viúva. O sergipano queria levar alguns volumes para sua biblioteca pessoal. Antes de sair, perguntou aos colegas se fariam um jantar de fim de ano. Agagê lembrou-se dos anos em que a comemoração enchia um restaurante na Consolação. Resignado, Joquimas desconversou. “Não tem ninguém para vir.”

Este texto foi reeditado e atualizado em julho de 2019 para piauí_flip_2019, edição impressa e distribuída gratuitamente durante a Festa Literária Internacional de Paraty.

Bernardo Esteves

Repórter da piauí desde 2010, é autor do livro Domingo é dia de ciência, da Azougue Editorial

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