esquina

Os livros da selva

A melhor livraria sobre a Amazônia

Fabiano Maisonnave
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2019

Joaquim Melo curtia o Carnaval no Recife quando recebeu a ligação de sua funcionária em Manaus. Um cliente estava atrás de Servidão Humana na Selva, livro de Carlos Teixeira publicado em 2009 pela Valer, pequena editora manauara. Depois de vasculhar na memória os cerca de 3 mil títulos sobre a Amazônia espremidos na sua banca de 29,95 metros quadrados, o bancário indicou a prateleira diante do freezer. Bingo.

Escapadas para fora do largo de São Sebastião, que circunda o Teatro Amazonas, são raras na rotina de Melo. Há treze anos, ele toca praticamente sozinho o pequeno negócio, localizado a poucos passos do majestoso edifício de 1896 e da própria casa, onde também guarda parte do acervo de livros. Protegida do calor infernal pela sombra de duas mangueiras e por um potente ar-condicionado, a Banca do Largo abre todos os dias, incluindo feriados, das 16 às 21 horas.

De início, os livros – a maioria deles usados – dividiam espaço com revistas, mas aos poucos passaram a dominar as prateleiras. Hoje, Melo, que tem 60 anos, provavelmente reúne o principal acervo do mundo de publicações à venda sobre a região amazônica. “A Amazônia inteira cabe aqui dentro”, deslumbrou-se a jornalista Eliane Brum, quando fez na banca o lançamento de um livro, em 2017.

Há muito de tudo: relatos de viajantes, obras acadêmicas, álbuns de fotografia, edições de autor e histórias em quadrinhos. As raridades incluem uma edição de A Selva, de Ferreira de Castro, com ilustrações de Portinari, a primeira edição de Voyage au Tocantins-Araguaya (1897), do explorador francês Henri Coudreau, e uma edição venezuelana de Vom Roraima zum Orinoco (1917), a obra do etnólogo alemão Theodor Koch-Grünberg que inspirou Mário de Andrade em Macunaíma.

Grande parte das pessoas que entra no pequeno reino de Melo está em busca de créditos de celular, cigarros e outros itens pouco literários. Mas a banca oferece uma variedade cada vez menor desses produtos para evitar que ocorram roubos, uma epidemia na 37ª cidade mais violenta do mundo, segundo a ONG mexicana Seguridad, Justicia y Paz. Só no ano passado, ladrões invadiram duas vezes o negócio durante a madrugada, sem levar nenhum livro. Numa das vezes, porém, a chuva escorreu pelo buraco aberto no teto pelos gatunos e estragou cerca de cinquenta volumes.

Ratos de biblioteca e pesquisadores, por sua vez, dificilmente saem de mãos vazias. Para eles, Melo tem uma estratégia: “Quando o cliente pega um livro, vejo qual é o assunto e aí vou mostrando outros.” Talvez por se sentir culpado de oferecer tantas tentações, ele costuma dar descontos bastante generosos. “Sempre facilito a venda pra cliente que é estudioso”, explica. Não é raro a pessoa sair de lá com presentes – o escritor Milton Hatoum conta que já ganhou edições antigas de Graciliano Ramos e Mário de Andrade.

Melo adquiriu o hábito da leitura na biblioteca do grupo escolar de Tefé, sua cidade natal no Médio Solimões, acessível apenas por barco. Quando o menino tinha 11 anos, a família mudou-se com os seis filhos para Manaus, onde o pai encontrou um trabalho fixo no aeroporto.

Na capital, Melo continuou os estudos e entrou em várias faculdades – de química, engenharia e filosofia –, sem terminar nenhuma. “Eu era muito torto”, diz, com seu típico tom de voz muito baixo. Depois de ser aprovado em um concurso do Banco do Brasil, trabalhou em Tabatinga, Fortaleza e Natal, onde se formou em economia. Casou-se com Rosa, com quem criou a filha e dois enteados.

Em 2000, voltou para Manaus decidido a entrar na vida acadêmica e fez mestrado em história na Universidade Federal do Amazonas (Ufam), com uma dissertação sobre o papel do antigo Serviço de Proteção aos Índios (SPI) na região. O trabalho foi publicado pela Secretaria de Estado de Cultura do Amazonas, em 2009.

Durante a pesquisa, Melo teve grande dificuldade para encontrar as obras de que precisava. Começou, então, a planejar uma livraria especializada na Amazônia. Passou a comprar tudo que encontrava na Estante Virtual, em sebos de Manaus e coleções particulares.

Sua busca continua até hoje, mas nem tudo vai para a banca. Quando adquire uma publicação muito rara, prefere doá-la para a Biblioteca Pública do Amazonas. Foi o que aconteceu quando encontrou um exemplar da primeira edição do Diário da Viagem que em Visita e Correição das Povoações da Capitania de S. José do Rio Negro Fez o Ouvidor e Intendente Geral da Mesma no Ano de 1774 e 1775, de Francisco Xavier Ribeiro de Sampaio, publicado em 1825, em Lisboa.

Seus “livros amazônicos” prediletos são os da época colonial do Brasil, como Viagem Filosófica pelas Capitanias do Grão-Pará, Rio Negro, Mato Grosso e Cuiabá, 1783-1792, de Alexandre Rodrigues Ferreira, e O Tesouro Descoberto no Máximo Amazonas, escrito pelo padre jesuíta João Daniel entre 1757 e 1776. No seu panteão de romancistas estão os paraenses Inglês de Souza e Dalcídio Jurandir e o manauara Hatoum, seu amigo.

Enquanto se dedicava aos estudos e ao negócio de livros, Melo começou a ajudar na revitalização do largo São Sebastião, um oásis na capital desarborizada, esburacada, sem calçadas e onde apenas 10,2% das casas têm esgoto – o resto é vomitado no rio Negro.

Em 2004, ele abriu com sua mulher o Tacacá da Gisela, um quiosque que serve o famoso prato amazônico. No ano seguinte, criou – sempre com recursos próprios – o Tacacá na Bossa, evento musical gratuito realizado toda quarta-feira, de abril a dezembro. No palco armado entre a banca e o quiosque, apresentam-se principalmente os artistas locais, mas já houve ali shows de nomes de expressão nacional, como Ed Motta.

E há também os lançamentos de livros, que agitam as noites no Centro – a Banca do Largo é uma das mais ativas livrarias de Manaus. “Fiz vários lançamentos ali e em todos eles houve debates na presença de um público enorme”, conta Hatoum, que cresceu no entorno do teatro.

Até há pouco, cartazes publicitários das obras do escritor enfeitavam os vidros da banca. Foram retirados após melindrarem o nonagenário poeta Thiago de Mello, que mora nas redondezas e apresentou Hatoum ao livreiro. Em breve, cartazes voltarão a decorar o local, mas Joaquim Melo diz que tomará muito cuidado para não aborrecer o ciumento autor de Faz Escuro, mas Eu Canto.

Fabiano Maisonnave

É correspondente da Folha de S.Paulo na Amazônia e do Climate Home News na América Latina

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