esquina

Os Ubers youtubers

Cenas picantes e banais num reality show sobre quatro rodas

Luigi Mazza
CREDITO: ANDRÉS SANDOVAL_2021

Sentado em seu Chevrolet Cruze 2019, ainda estacionado na garagem de casa, Claudio Sena recebeu a primeira chamada do dia. “Eita, corrida para Fazenda Coutos. Viagem longa, mais de trinta minutos. E aí, vou?”, perguntou em voz alta. Estava sozinho no carro, mas centenas de pessoas o assistiam ao vivo no YouTube, naquela sexta-feira, 30 de abril. Motorista de aplicativo há cinco anos, Sena passou a transmitir as suas corridas pelas ruas de Salvador (BA) em tempo real desde o começo de 2021. As lives duram até cinco horas e são filmadas por um celular preso no painel – outro aparelho é usado somente para administrar as corridas. Quando está sozinho, Sena filma o próprio rosto. Quando tem passageiros, vira a câmera na direção do para-brisa.

Fazenda Coutos, o destino que aparecia no aplicativo do Uber, é um bairro da periferia de Salvador – e já passava das nove da noite. Por isso a hesitação de Sena, baiano de 54 anos. “Acho que vou dar uma arriscada.” E foi buscar o passageiro num condomínio de classe alta, no bairro Paralela, para levá-lo à periferia. Por meio do aplicativo, Sena avisou que chegaria em três minutos. Na verdade, chegou em sete. Ainda assim, quando parou em frente ao prédio, o passageiro não tinha descido para a portaria. “Sabe o que Claudião faz? Isso aqui ó: cancelo”, afirmou, indiferente ao seu próprio atraso. Manobrou o sedã para fora do condomínio e protestou. “Não tolero frescura de passageiro de aplicativo. Se a pessoa fosse pegar um ônibus, ia chegar com antecedência no ponto, não ia? Então por que diabo tem que deixar o motorista esperando?”

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Luigi Mazza

Repórter da piauí

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