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Palavra, história, alma

O vocabulário kaiowá é fixado pela primeira vez em livro

Leandro Aguiar
CREDITO: ANDRÉS SANDOVAL_2021

Sempre que começavam as chuvas de verão em Dourados (MS), o teto da casa do desenhista e professor de artes Misael Concianza Jorge ruía um pouco mais. Rajadas de vento derrubavam telhas, e caibros rompiam, apodrecidos. No fim de 2020, uma tempestade forte atingiu a região. O aguaceiro inundou o quarto de Jorge e foi impossível salvar os trabalhos que o artista de 48 anos vinha fazendo há tempos – uma série de ilustrações baseadas em histórias que ouviu de seus antepassados, os indígenas kaiowás.

Foi um infortúnio não só para ele, mas para as mais de quatrocentas pessoas que vivem na Terra Indígena Panambizinho, no município de Dourados, e todos os envolvidos na edição do livro no qual as ilustrações seriam publicadas: o primeiro dicionário linguístico e cultural kaiowá-português.

Com 15 mil verbetes previstos, distribuídos em cerca de quinhentas páginas, o dicionário teve sua publicação adiada pela editora Javali para o primeiro semestre do ano que vem. Jorge está recriando as ilustrações com um lápis de cor preta, mas algo se perdeu para sempre – alguns dos desenhos ele tinha feito quando menino. O artista, porém, não desanima: “Como já estou com as imagens dentro de mim, basta lembrar delas, olhá-las, que elas vão se desdobrando e me contando as histórias de novo.”

 

Quem coordena a edição do dicionário é a paraguaia Graciela Chamorro, de 63 anos, doutora em antropologia pela Universidade de Marburgo (Alemanha) e professora aposentada de história indígena da Universidade Federal da Grande Dourados. Nascida em Concepción, cidade a cerca de 350 km de Panambizinho, ela vive atualmente em Dourados. Embora não seja indígena, o guarani foi a primeira língua que aprendeu, pois é um dos idiomas oficiais de seu país, junto com o espanhol.

Aos 18 anos, Chamorro foi para o Recife estudar em um seminário batista, incentivada por missionárias brasileiras das quais era vizinha em Concepción. Aprendeu português, estudou latim e, para ler os textos bíblicos nos idiomas originais, enveredou-se pelo grego, aramaico e hebraico. Formou-se em teologia e música sacra e, em 1983, foi lecionar em Dourados, primeiro em um seminário e depois em universidades.

Os kaiowás são um dos povos que integram a etnia Guarani e se concentram em Mato Grosso do Sul e no Paraguai, onde existem indícios de sua presença desde pelo menos o século V. Um dia, por curiosidade, a professora foi visitar os indígenas, e algo lhe chamou a atenção. Embora o idioma kaiowá tenha a mesma raiz linguística do guarani, a cada vez que entabulava conversa com algum ancião ou anciã do local, Chamorro ouvia termos que desconhecia. Quando perguntava sobre o significado de uma palavra, não raro recebia a seguinte resposta: “Você fala do significado daqui ou do verdadeiro?” Pois muitos vocábulos, além de servirem para designar coisas do dia a dia, guardam outra acepção, menos utilitária e mais poética.

Essa descoberta foi, para a professora, uma espécie de revelação. Em artigo de 2004, Chamorro escreveu que, para os kaiowás, “a palavra possui uma essência espiritual” e que, por meio dela, os indígenas “tramam e dimensionam sua vida até o transcendente”.

A sua relação com os kaiowás a fez enveredar pela história desse povo e produzir uma bibliografia que escapa da visão eurocêntrica dominante. “Para alguns no mercado intelectual, se uma cultura não está documentada, é como se não existisse”, ela diz. “Só reunindo dados sobre os povos indígenas as pessoas acreditarão na existência deles daqui a duas ou três gerações.”

Autora de vários estudos sobre a cultura guarani, ela direcionou as pesquisas para os kaiowás e em 2015 publicou o livro História Kaiowá: Das Origens aos Desafios Contemporâneos, que já trazia nas últimas páginas um glossário com a explicação de alguns vocábulos. Pouco a pouco, Chamorro e seus interlocutores se convenceram da necessidade de produzir algo maior, um dicionário bilíngue.

 

Com inúmeras anotações sobre o idioma kaiowá acumuladas desde 1983, Chamorro trabalhou nos últimos quatro anos na etapa mais minuciosa da produção do livro: conferir, letra por letra, a grafia das palavras, certificar-se de que estão com a tradução correta para o português e apurar os exemplos de uso dos vocábulos. Para tanto, conta com a colaboração assídua de quinze indígenas, que esclarecem suas dúvidas e a auxiliam nos encontros com pessoas mais velhas, próximas do uso tradicional do idioma.

As palavras de mais difícil tradução são as que dizem respeito à cosmologia kaiowá. Um exemplo é Jasuka, termo que no dia a dia se refere a uma chuva amena, mas alude também ao leite materno e, em sentido mais abstrato, ao princípio ativo do Universo. Ou ñe’, que pode significar “palavra”, “história” ou “alma”, enquanto nos rituais indígenas designa o sopro divino que impulsiona os vivos, distinguindo-os dos mortos.

“O mais gostoso de fazer o dicionário é ouvir as histórias, os cantos e os ensinamentos dos mais velhos”, diz a professora e artista de origem kaiowá Rossandra Cabreira, de 42 anos, que colabora na obra. Por outro lado, ela lamenta ter constatado, durante o trabalho do livro, o desinteresse de alguns indígenas mais novos pela cultura tradicional.

A preocupação de Cabreira ecoa nas palavras da xamã Roseli Concianza, de 58 anos, irmã do desenhista Misael Concianza Jorge. “Alguns kaiowás da nova geração acham que a nossa língua, o nosso modo de ser, já acabou”, diz a xamã. “O dicionário vai prender nossas palavras ao papel, permitindo que cheguem às escolas, às universidades e aos jovens.”

Chamorro é menos pessimista. Ela conta que, recentemente, durante a retomada pelos kaiowás de terras que eles reivindicam como suas, os cantos no idioma tradicional ganharam cada vez mais protagonismo. “A palavra cantada é um jeito que eles têm de concentrar uma energia poderosa, que espanta qualquer um que apareça por ali.” Para ela, essa é a “grande arma” dos kaiowás.



Leandro Aguiar

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