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Papa-jacas perdoam amado?

Itabuna tenta se reconciliar com seu filho mais ilustre

Marcelo Bortoloti
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL

Privados do mar por fatalidade geográfica, os cidadãos de Itabuna, no sul da Bahia, costumam ir à praia no município contíguo de Ilhéus. Houve um tempo, contam nos anais da terra, em que eles levavam de casa tudo o que consumiriam, para não precisar beber sequer a água da cidade vizinha. Por isso receberam a desairosa designação de papa-jacas – uma referência ao fruto abundante na região, que os itabunenses supostamente levavam como única refeição do dia.

Por trás do apelido está uma rivalidade que opõe as duas cidades desde 1910, quando Itabuna se emancipou de Ilhéus e ganhou status de município. Durante a época áurea da produção do cacau, a partir dos anos 20, Itabuna se desenvolveu mais do que a cidade de cujas costelas se originou, o que exacerbou os ânimos de parte a parte. A querela envolve desde times de futebol a uma disputa de fronteiras.

O mais ilustre dos rebentos de Itabuna ajudou a estender a rivalidade para a esfera literária: o escritor Jorge Amado, nascido em 1912 numa fazenda perto do bairro de Ferradas. O romancista viveu na cidade até 1 ano e meio de idade, quando a família se mudou para a rival Ilhéus, a adversária, onde ele morou até os 11. Depois foi para Salvador.

Entre alguns itabunenses, há o sentimento de que Amado renegou a cidade natal em benefício da arquirrival. Citam como evidência que a cidade litorânea aparece com mais destaque na obra do autor e chegou a figurar no título de um romance de 1944, São Jorge dos Ilhéus – privilégio de que Itabuna jamais gozou. A projeção maior veio em 1958 com Gabriela, Cravo e Canela, romance de grande sucesso ambientado numa Ilhéus marcada pela opulência do ciclo do cacau.

Para piorar, quando Itabuna aparecia na obra de Jorge Amado, nem sempre era em circunstâncias abonadoras. É o caso de Terras do Sem-Fim, de 1943. Os papa-jacas foram descritos ali como uma gente rústica, mulheres de comportamento duvidoso e homens violentos e às vezes cornos.

Tudo isso poderia ser superado, não fosse a fatídica frase proferida por um personagem anônimo do romance: “Ferradas é o cu do mundo.” A passagem era irrelevante para a trama, mas repercutiu mal. “Por causa de uma frase os moradores ficaram revoltados”, resumiu Gustavo Veloso, autor de um livro sobre a história de Ferradas.

Entre os itabunenses mais velhos, é fácil encontrar quem se recuse a abrir um livro do conterrâneo ilustre. É o que faz o aposentado Nilton Ferreira Ramos, colecionador de documentos históricos sobre o município. “Ele nunca teve a hombridadede dizer que era de Itabuna, e essa mágoa eu carrego comigo”, disse, amuado.

De nada adiantou que Amado distinguisse sua cidade natal, como fez em uma entrevista de 1988 ao Fantástico e em diversas outras ocasiões: o estrago já estava feito.

Jorge Amado ainda era vivo quando foi erguido em sua honra um busto na praça principal de Ferradas, em 1983. Agradecido, o romancista voltou a Itabuna e tirou fotos ao lado do bronze lavrado por Richard Wagner Habib Silva. Mas a homenagem só fez reabrir velhas feridas: no dia seguinte à inauguração, o busto desapareceu.

De acordo com a explicação mais difundida, um grupo de vândalos teria levado a peça para conhecer o prostíbulo da cidade, já que em seus romances o escritor só descrevia os de Ilhéus – excitantes cabarés de bebida farta e mulheres ardentes. “O busto ficou em cima de uma mesa, deram bebida a ele e as mulheres o beijavam”, relatou Gustavo Veloso. A prefeitura desconhece o paradeiro da escultura.

Quando Amado morreu, em 2001, tentaram mudar o nome da avenida Cinquentenário, principal via da cidade, para homenageá-lo. Mas houve resistência e o projeto foi engavetado. Hoje, há uma única referência ao romancista na cidade: um bairro resultante de invasão de terra, chamado de Jorge Amado por costume popular – está entre os mais violentos de Itabuna.

Em compensação, sobram homenagens a Adonias Filho, nascido na vizinha Itajuípe. É seu nome que batiza o principal centro cultural de Itabuna. É também ele o patrono da egrégia Academia de Letras de Itabuna. “Adonias Filho é o patrono da Academia, mas a cadeira 5, ocupada pelo escritor Cyro de Mattos, tem como patrono Jorge Amado, que é muito querido”, ponderou Marcos Bandeira, presidente da casa. Para reparar a desfeita, a cidade acaba de ganhar uma nova agremiação literária, a Academia Grapiúna de Letras, que elegeu Amado como patrono.

Do outro lado da principal estrada da região, a BR-415, a 25 quilômetros dali, Jorge Amado é nome de rua, quarteirão e até aeroporto. A casa de Ilhéus onde morou o escritor é preservada como um espaço de memória, e sobram placas e estátuas em sua homenagem. Maurício Corso, presidente da Fundação Cultural de Ilhéus, contou que a Casa de Cultura Jorge Amado recebeu 35 mil visitantes neste verão. “Não gosto de comparar, de falar mal”, disse, em voz baixa. “Mas Itabuna poderia aproveitar melhor o local onde ele nasceu.”

Reconciliar a cidade com a memória de seu filho mais ilustre no ano de seu centenário é uma prioridade do prefeito Capitão Azevedo, um oficial licenciado da Polícia Militar baiana. “Já é hora de acabar com essas picuinhas”, disse. A principal medida é o restauro de uma casa no bairro de Ferradas a ser transformada em museu e centro cultural. “É a residência onde nasceu o escritor Jorge Amado”, afirmou o prefeito. Em verdade, o escritor apenas passou ali alguns dias com a família – a casa em que de fato veio ao mundo já não existe mais.

Capitão Azevedo tem se mostrado um bravo defensor da cultura e da história de seu município. Naturalmente, o prefeito há de ser um bom conhecedor da obra do homenageado. “Exatamente… tranquilo”, tentou desconversar quando questionado sobre seu livro predileto de Amado. Até que desceu do muro: “Bem… Gabriela, que teve aquela novela, né?”

Marcelo Bortoloti

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