esquina

Par de vasos

Gêmeas como profissão

Isabel Junqueira
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2015

Numa recente tarde da primavera parisiense, Mady e Monette Malroux sentaram uma ao lado da outra num canto discreto de um café cheio de sofás e cadeiras coloridas e descombinadas. No estabelecimento localizado na Bastilha, bairro onde as duas moram faz tempo, ninguém parecia dar bola. As gêmeas univitelinas fazem mistério em relação à idade, mas aparentam beirar os 70 anos. Ambas têm olhos azuis, lábios finos e pálpebras caídas sobre os olhos, o que lhes dá um ar, quando sérias, de severas diretoras de escola. A pele pálida, branquinha, contrasta com os vivos cabelos ruivos.

Como o dia estava nublado, o que não é raro na cidade, as irmãs protestaram contra o típico céu parisiense e a mania de seus conterrâneos de usarem roupas monocromáticas. Em contraste com os tons de cinza sem graça, as duas trajavam sobretudos de lã vermelhos, camisas brancas, echarpes lilases, calças pretas e pares de sapatos Oxford verde-claros. Em 99,9% dos casos, Mady e Monette saem de casa assim, como se fossem o reflexo uma da outra. O duo já foi visto no metrô com de oncinha, e de vestido e escarpins cor-de-rosa num passeio corriqueiro. “Podemos comprar dois itens do mesmo modelo, mesmo sem estarmos juntas. Não tem erro: a outra vai gostar”, disse Monette.

Elas se divertem acrescentando aos modelitos um ou dois detalhes destoantes – naquele dia, broches redondos posicionados no centro do colarinho, com diferentes reproduções de obras de arte. Gostam de brincar com o olhar alheio, como se fossem uma espécie de jogo de sete erros ambulante. Mas não podem exagerar, para não desagradar os fãs e conhecidos do arrondissement, que já se habituaram ao desfile do par de vasos na vizinhança. A boulangère de uma padaria na rue de Montreuil reclamou quando, um dia desses, as viu vestindo calças de cores diferentes.

Quem não é do bairro também as reconhece, em geral de pontas marcantes em filmes como Paris, Te Amo (2006) e O Fabuloso Destino de Amélie Poulain (2001), onde aparecem comprando na quitanda um alho-poró e duas alcachofras – ato banal que, encenado por elas, parece extraordinário. Já faz tempo que as duas decidiram transformar a aparência excêntrica em ganha-pão.

Jovenzinhas, Mady e Monette frequentaram o conservatório de dança parisiense para se aperfeiçoar em valsa e tango, ritmos que são suas grandes paixões. Com o diploma em mãos, viajaram mundo afora se apresentando como um duo de cabaré, batizado de Diamond Sisters – “Malroux Sisters não iria pegar”, explicaram. Nos palcos, dançavam juntas trajando pouco mais que estolas de pele e calçando luvas longas de cetim e sapatos de salto alto.

Desde os anos 90, Mady e Monette andam com a agenda cheia de compromissos. Já participaram de inúmeras propagandas, programas de tevê, longas e curtas-metragens. Posaram para grandes fotógrafos como Nick Knight e Bettina Rheims, participaram de um videoclipe do cantor George Michael e desfilaram, em 2006, para o estilista John Galliano. Foi a última vez que elas se recordam de terem vestido roupas diferentes – mas só porque era uma exigência do trabalho.

 

Além do choque visual, Mady e Monette também oferecem uma experiência sonora fascinante para um singulier, apelido que as irmãs deram para as pessoas avulsas, gente que não divide sua identidade com ninguém. Uma pergunta simples como “Vocês são de Paris?” é respondida com um eco de oui na voz mezzosoprano característica das duas. A dupla às vezes sobrepõe falas. Na maior parte do tempo, elas preferem completar a frase uma da outra, como se dividissem um mesmo cérebro, além do mesmo armário e apartamento, dos mesmos gostos e gestos, da mesma vida. Cada uma tem seu próprio e-mail, é verdade – mas os endereços eletrônicos embaralham os nomes das duas: madymo e montma.

A decisão de levar ao extremo sua gemelidade, abraçando uma identidade quase única, aconteceu cedo e muito naturalmente, elas dizem. Mas não foi o que pensou a chère maman, horrorizada toda vez que as pequenas insistiam em se vestir de maneira idêntica. Receosa de que as filhas fossem ridicularizadas, a matriarca sempre as presenteava com vestidos de estilos e cores variadas, na esperança de que cada uma desenvolvesse a própria personalidade. Não adiantou.

Quando alguém abordava a dupla mirim na rua para perguntar quem era a mais velha, a resposta vinha na ponta da língua. “Nós duas somos a mais velha!”, gritavam. Consta que Monette nasceu cinco minutos antes de Mady, mas que ninguém ouse perguntar o dia e ano em que nasceram. Para manter o segredo, faz tempo que celebram o aniversário somente entre elas e algumas poucas pessoas mais próximas. Também dão respostas vagas quando o assunto é datas, como se para elas o tempo estivesse suspenso. “é nostalgia em relação aos parentes e amigos que perdemos. Quando você faz aniversário e pensa que não resta tanto tempo… c’est pas possible!”, desabafou Mady.

Quase nada é capaz de desfazer a harmonia da dupla, que no entanto se considera dona de uma (mesma) personalidade colérica e impulsiva em relação ao resto do mundo. As duas dizem fazer um esforço cotidiano para domar o mau gênio.

Outro dia Mady não se aguentou. Um grupo de três adolescentes, ao cruzar com as gêmeas na rua, resolveu fazer piada. Provocadas, as irmãs deram meia-volta, encararam a pequena gangue e responderam à altura: “Pelo menos nós temos consciência de como somos. Vocês sabiam que também se vestem uns iguais aos outros?” O trio, que trajava os mesmos tênis, jeans e moletons com capuz, preferiu sair de fininho.

Isabel Junqueira

Isabel Junqueira é jornalista brasileira radicada em Paris.

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