esquina

Paralelepípedos de quatro patas

Da arte de leiloar sêmen bovino no horário nobre

Daniel Salles
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2008

Para laçar o telespectador, a maioria dos apresentadores de televisão costuma guardar o melhor para o final. O mineiro Paulo Brasil não se encaixa nesse grupo. São 21h30 de uma segunda-feira, faz pouco que ele entrou ao vivo na programação do Canal Rural, e já anuncia o ponto alto da noite. “Qual é a oferta imperdível de hoje?”, indaga ao parceiro Mario Pereira, com quem divide a atenção das câmeras. A resposta é dada sem rodeios, por ele mesmo: “Sêmen! É sêmen do Lufo!” Brasil esclarece que o touro Lufo, campeão nacional da raça Nelore em 2005, tem gerado descendentes festejados, dono que é de fabulosos espermatozóides. A possibilidade de levar cinco doses de possíveis crias do bicho, por cinco parcelas de 300 reais – com direito a entrega por Sedex e nota fiscal –, parece ser, portanto, uma tentação. Pelo menos é o que sustenta Brasil, que não se cansa de clamar: “Senhores, não dá para deixar passar um negócio desses.”

No ar de segunda a domingo, a partir das nove da noite, leilões de gado ocupam cerca de um quinto da grade de programação do Canal Rural. A rede não é a única a reservar o horário nobre para vender touro e sêmen bovino à prestação. O canal Terraviva, do grupo Bandeirantes, cobriu 325 leilões no ano passado. É pouco: o Sistema Brasileiro de Agronegócio, grupo de televisão mato-grossense a que pertence o Canal do Boi, transmitiu 1 125 no mesmo período. As emissoras se incumbem apenas de exibir os leilões – a organização cabe às empresas leiloeiras. Aos 37 anos, 18 dos quais berrando “Sêmen!”, Paulo Brasil é um dos nomes mais requisitados do Canal Rural.

Os leilões se dividem em virtuais e presenciais. No primeiro caso, touros e vacas são filmados com antecedência, e só podem ser arrematados por telefone. Já nos leilões presenciais, como o nome indica, os compradores ficam a poucos metros das reses, que passeiam besuntadas sobre uma passarela, tal qual estrelas do show business. Os eventos nobres, em que tramitam os Portinaris e Di Cavalcantis da espermática bovina, são realizados em hotéis cinco estrelas e centros de convenções, espaços que em nada se assemelham ao do modesto estúdio do Canal Rural, onde, de martelo em punho, Brasil aguarda o momento de entrar no ar.

Olhando fixo a câmera, o apresentador ajeita o microfone na lapela, limpa a garganta e, com voz forte e ritmada, rompe o clima de desânimo que reinava no lugar: “Boa noite, senhoras e senhores criadores. Boa noite, senhoras e senhores fazendeiros. Bem-vindos a mais um leilão ao vivo transmitido para todo o país!” A respeitosa introdução culmina com uma provocação: “Já vou avisando. Quem não comprar hoje vai ficar passando vontade.”

O leiloeiro apresenta seus convidados: o dono dos bois que serão vendidos e um especialista em pecuária. Ao longo das três horas do programa, os dois serão chamados a opinar a respeito de cada animal. Em seguida, Brasil se diri-ge ao parceiro Pereira, responsável por repassar os lances recebidos por telefone, e dispara sua retórica parnasiana: “Repare só na beleza de carcaça dessa bezerra; é um gadão!”, “Um macho como esse pouca gente tem!”, “Isso aí não é uma vaca, é um paralelepípedo de quatro patas!”

 

Às 21h40, após a apresentação de todos os bois à venda, ele ameaça: “Já estou com vontade de começar a bater o martelo!” Para os não-iniciados, o leiloeiro lembra que o pagamento pode ser dividido em catorze parcelas, sendo duas à vista, outras duas para dali a trinta dias e as demais para os próximos dez meses. “E a entrega é imediata”, esclarece. Quando os lances são finalmente liberados, tal qual um narrador esportivo, ele se põe a desfiar em velocidade de cruzeiro uma torrente de informações sobre cada animal. O mais importante é apontar quem são os ancestrais do quadrúpede, e se eles já ganharam algum prêmio.

A vaca Piastra, por exemplo, não tem motivo para se envergonhar de seus antepassados. “Reparem só no comprimento do dorso dessa bezerra, que futuro luminoso a espera. Mas claro, senhores, ela é simplesmente filha do Fajardo e neta da Brookshield!” Enquanto explicações como essa se desenrolam, Pereira se transforma numa espécie de operador de bolsa de valores. Andando de um lado para o outro, ele grita para o colega o que ouve pelo telefone: “Trezentos!”, “Quinhentos!!”, “Oitoceeentos!!!” Quando um animal passa a valer um número múltiplo de mil, ele levanta os braços e repete um mantra: “Vem, veem, veeem!” “É preciso criar um clima para chamar a atenção de quem está em casa”, justifica.

Embora os canais que exibem leilões de gado registrem traço no Ibope, a importância deles pode ser medida em valores monetários. “Em 2007, movimentamos 500 milhões de reais com a compra e venda de animais em nosso canal”, argumenta Nilson Moyses, diretor de Mercado do Canal Rural. Em fevereiro deste ano, uma vaca Nelore foi vendida por 3,64 milhões num leilão organizado pelo empresário Ivan Fabio Zurita, o presidente da Nestlé do Brasil.

É por isso que a dupla de apresentadores não se conforma se os lances começam a minguar. Quando isso acontece, Brasil avisa: “Assim não dá, senhores, um gado como esse tem que valer mais!” Pereira prefere chamar a atenção dos telespectadores que julga estarem assistindo ao programa: “Acorda aí, ô Zé Carlito, não bobeia não!”, “Ô Cícero, abre o olho, cobre esse valor!” Quando os lances escasseiam de vez, o leiloeiro se vê obrigado a repetir o mote: “Dou-lhe uma, dou-lhe duas, vendido.” E alerta: quem não arrematar a próxima oferta vai se arrepender. “Senhores, não dá para deixar passar um negócio desses…”

Daniel Salles

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