diário

Parece que falta oxigênio no ar

Pão com banana e pizza com caldo de cana recheiam o dia a dia de um pernambucano na São Paulo dos anos 60

Daniel Santiago
“Esse negócio de
ficar um caderno
na mão tomando
nota das coisas
me dá um ar de
importância,
pareço um repórter.
A polícia pedia
para ver a carteira
de identidade de
todo mundo, só não
pedia a minha”
“Esse negócio de ficar um caderno na mão tomando nota das coisas me dá um ar de importância, pareço um repórter. A polícia pedia para ver a carteira de identidade de todo mundo, só não pedia a minha” IMAGEM: POP ESTÚDIO DE ARTE

Recém-aposentado da Prefeitura de Recife, Daniel Santiago, de 70 anos, recebeu uma missão da esposa: organizar as gavetas, prateleiras e pilhas de materiais acumulados. Dentre os vários durante a faxina, encontrou um caderninho de quase meio século de idade, com registros do ano que passou em São Paulo à base de pão e banana. Também achou os desenhos com que ilustrou sua temporada paulistana.

Nascido em Garanhuns, Pernambuco, Santiago aprendeu a desenhar ainda menino, com um tio, e não parou mais. Aos 17 anos, ingressou na Aeronáutica e foi transferido para Salvador – onde prestou, por curiosidade, um concurso para desenhista publicitário nas lojas Mesbla. Foi contratado.

“O emprego não me prendia, eu tinha acabado um namoro: resolvi conhecer São Paulo”, disse. Pegou a sacola da Aeronáutica e nela enfiou um par de botas, umas poucas roupas, um casaco príncipe de gales, peças de xadrez e matrizes de xilogravura. No bolso, o equivalente a 20 reais – e o caderninho que um colega havia lhe dado em Salvador.

Não fosse pelo mal-estar, causado pelas mais de quarenta horas de viagem de ônibus, ele provavelmente não teria começado este diário. “Eu tinha uma tendência de só anotar coisa ruim”, conta. “Quando acontecia uma coisa boa, eu deixava para depois, e esquecia. Eu pensava em detalhar tudo, futuramente.”

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“Passei a manhã no quarto desenhando. Havia programado um passeio ao Ibirapuera, mas a manhã estava muito fria”

 

Sexta-feira, 11 de novembro de 1966_Primeiro dia em São Paulo. Parece que falta oxigênio no ar. Tive enjoo durante todo o dia. No começo da noite já estava tudo em ordem, tive apetite.

12 de novembro_Acordei cansado. Suor, sede. Me mudei do Hotel Tatuí para a Hospedaria Tupinambá, de frente para o cavalo do Marechal Deodoro. Almocei uma pizza com um copo duplo de caldo de cana. Saí em exploração de reconhecimento pelo vale do Anhangabaú, começando pela rua Santa Ifigênia. Até agora, o que há de mais antipático são o cheiro de borracha das sandálias japonesas e a fala de certas pessoas.

Fui ao correio mandar alguns postais e, grande coincidência, encontrei um amigo pernambucano, o Moacir. Nos conhecemos na Base Aérea do Recife, quando operei do joanete. Ele também estava internado, com um ombro deslocado. Conversamos durante horas, encontramos outros amigos dele, tiramos retratos. Comi de novo pizza com caldo de cana no jantar. Dormi mal. Cama horrível, cobertores fedorentíssimos. No quarto dormiam mais quatro rapazes, que chegavam acendendo a luz de duas em duas horas, até de manhã.

13 de novembro_Faz um frio bom como em Garanhuns. Suco de laranja, pão com manteiga, café com leite. Comprei O Estado de S. Paulo, engraxei as botas. Vou à praça da República ler o jornal. Chove fininho: ninguém se importa, só eu. Os pombos davam um espetáculo. Uma jovem mãe de saia justa, joelhos redondos e sapato alto estava agachada junto a um filhinho que admirava um pombo a bicar pipoca. Eram quatro seres deslumbrados: o pombo com a pipoca, o menino com o pombo, a mãe com o menino, e eu com a mãe do menino. Almocei macarrão com ovo. Jantei média com pão. Cama fedorenta.

14 de novembro_Primeiro dia de atividades. Vou de calça preta de Nycron, bota marrom engraxada, gravata e paletó. Foi uma miséria! Negativo em todo canto. [Depois eu soube que era assim porque eu dizia que morava na Hospedaria Tupinambá. As recepcionistas das agências de emprego sorriam amarelo. Era o pior endereço de São Paulo: baixo meretrício, malandragem, drogas.] Tarde péssima, estou sentimental. Chorei ao ver uma banda passar tocando a música de Chico Buarque.

Depois de observar uma moça bonita por mais de uma hora, perguntei se ela queria ajuda. Ela estava sozinha numa parada de ônibus, embaixo do viaduto do Chá, era quase meia-noite. Ela respondeu que não, eu saí. No mesmo instante, chegou o namorado atrasado. Ainda vi a bronca que ela deu, e ele pedindo desculpa.

Morri de rir com uma piada na Folha de S.Paulo. O juiz pergunta ao acusado: “Mas por que o prenderam?” “Porque eu não corri o bastante, sr. Juiz.” Saúde: boa. Peso: 57-58 quilos. Jantar: média com pão.

16 de novembro_Almoço: pizza e caldo de cana. Jantar: idem. Alegria do dia: achei 300 numa calça velha, que vesti para ir ver as vagas em uma oficina de pintura. Acertei o negócio: 700 a hora, a partir das 21 horas. O serviço é pintar estatuetas de gesso à noite, quando o patrão chega do trabalho.

Tomei o ônibus errado e fui parar no Jardim Japão. Quando caí na cama fedorenta, já eram duas da manhã.

17 de novembro_Uma semana em São Paulo. Bem-estar geral. Peso: 57 quilos. Dinheiro: 4 mil. Acordei às 11 horas. Almoço: esfirra na praça da Sé. Fui até lá para tirar os documentos para cobrador de ônibus, mas a dona exigiu que eu pagasse 10 mil pelo boné. A exigência da garantia era porque muitos candidatos desapareciam com o boné e não assumiam o emprego. Desisti. Às 13 horas comprei um jornal e fui à praça da República. Como é bonita!

Consegui um emprego como auxiliar de escritório. Seu Felipe, o português chefe do escritório, me sugeriu que trocasse de pensão. Encontrei a de dona Santinha, uma senhora de 50 anos de idade, mais ou menos. Mas preciso pagar 30 mil, adiantado.À noite, tentei vender uns livros, mas não quiseram comprar.

18 de novembro_Ainda na Hospedaria Tupinambá, na Rio Branco. Acordo cedo, tomo banho frio, faço a barba. Junto do banheiro, uma senhora gorda e loura, com sotaque português, lavava os lençóis encardidos num molho horroroso e fedorento. Café com leite, pão. Tomei o ônibus para o trabalho, primeiro dia! O serviço é chato, burocracia. Datilografia, arquivo, matemática, correspondência etc. Acho que não vou comer nada na hora do almoço, só tenho 300. Só tomei um cafezinho ao meio-dia e outro às quatro da tarde, com uma paçoca de amendoim. Não sei como vai minha saúde, mas me sinto bem, com bom humor. Tenho um pouquinho de fome. Era para estar feroz, mas eu tenho prática em fome. Em Recife, vadiava das 8 às 18 horas na praia, sem almoçar.

Tentei vender uma corrente que Maria Amélia me deu, mas ninguém quis. Tentei vender o Guia de São Paulo a um cara que fica na avenida São João, mas ele não quis, disse que não prestava.

Fui e voltei várias vezes da hospedaria para pegar objetos na bagagem e tentar vender. Minha esperança era que o porteiro me esquecesse lá dentro, e eu pudesse cair na cama fedorenta. Mas ele era esperto, ficava gritando: “Saindo! Saindo! Quem não pagou, saindo!” Só ficava quem pagasse adiantado a dormida.

Meia-noite e meia cheguei à rodoviária com a intenção de ficar até as seis da manhã fazendo palavras cruzadas. Na sala de espera para embarque, era difícil conseguir uma poltrona. De cinco em cinco minutos o alto-falante anunciava a saída de um ônibus: “Passageiros para Limeira, boa viagem.” Aí saíam dez pessoas. “Passageiros para Campinas, boa viagem”… Saíam mais dez. Quando saiu o último ônibus, as poltronas estavam lotadas de pessoas que não tinham para onde ir. O guarda sabia e pedia com delicadeza que esvaziassem o salão para a faxina. O faxineiro, um homem simples, mas com o semblante altivo de quem estava empregado, olhava com respeito aquelas pessoas que estavam na miséria e dizia, em tom de consolação: “Às 5 horas vocês voltam.”

Fui para a esquina da avenida Rio Branco com a rua Aurora, junto à boate Táxi Girls. A Rádio Patrulha levou duas mulheres, outras fugiram de táxi. Esse negócio de ficar com um caderno na mão tomando nota das coisas me dá um ar de importância, pareço um repórter. A polícia pedia para ver a carteira de identidade de todo mundo, só não pedia a minha. Senti vontade de escrever, mas as mãos ardiam com o frio. Passei a noite para lá e para cá, parava por cinco minutos, mas não suportava o frio. Até as 2 horas eu consegui me infiltrar entre os que estavam passeando, os boêmios, os que esperavam ônibus. Mas depois disso, todos sabiam quem era boêmio ou vagabundo.

Quando deram 4 horas, cada um pegou sua porta e não saiu mais para lugar nenhum. Eu botei o Guia de São Paulo debaixo da camisa, um jornal que uma mulher me deu no bolso de trás, cruzei os braços com as mãos por dentro do paletó e tremi até as 5 horas. A essa hora, o movimento começou de novo na cidade: o caminhão do leite, os ônibus aumentaram, mais gente pela rua. Saí caminhando ligeiro com os transeuntes. Para todos os efeitos, ia trabalhar também.

Tinha o plano de falar com o cobrador para me levar fiado: eu deixaria a identidade e, quando pagasse, ele me devolveria. Mas, com os passageiros querendo passar na borboleta, não tive coragem para falar com ele. A fila atrás de mim crescia, e eu fingia que estava procurando dinheiro nos bolsos. Fiz essa cena duas ou três vezes, descia do ônibus com cara de quem havia perdido a carteira. Às seis da manhã, resolvi partir caminhando.

Uma hora e meia depois, cheguei ao escritório com a garganta pegando fogo. Ainda faltava meia hora, então sentei num banquinho da praça e abri o jornal na maior pose. Lavei as mãos e o rosto: pronto, nem parecia! Bom-dia para lá, bom-dia para cá, às 10 horas um colega me convidou para um cafezinho. Fui: gostoso! Interessante é que eu não sentia fome. Já no fim do expediente, consegui 5 mil com o chefe. [Dias depois, seu Felipe confessou que me adiantou o dinheiro porque eu estava com a maior cara de fome.]

Saí feroz. Havia três dias que eu passava olhando demoradamente a vitrine de uma padaria. O atendente me perguntava o que eu queria, com cara de quem adivinhava que eu não tinha dinheiro. Comprei um pão doce gostosíssimo, que eu vinha namorando, um pão quentinho com manteiga, 250 gramas de tomate para evitar gripe e uma coxinha de galinha. Valeu a pena passar tanto tempo sem comer!

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“Minha cama fica em cima da de um rapaz gordo, um tipo meio esquizofrênico”

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“Às 9h, comi pão e banana. Às 13h, almocei três pães, seis bananas e leite”

19 de novembro_Tentei negociar o pagamento da pensão com dona Santinha, falei em deixar minha bagagem como garantia de pagamento. Ela não aceitou e me mostrou um quarto abarrotado de bagagens deixadas por hóspedes que nunca mais voltaram para pagar. Naquele monte de malas e sacolas abandonadas, vi uma japona surrada, azul-marinho, de botões dourados. Pedi-a emprestada, ela me deu de presente. Coloquei num molho de sabão em pó. Meu paletó príncipe de gales precisa de um descanso.

Ela me deu prazo de oito dias para dar os 30 mil adiantados. Telegrafei para Davi, meu irmão, que trabalha no Banco do Brasil em Pernambuco. A pensão é muito boa, tudo cheiroso. Minha cama fica em cima da de um rapaz gordo, um tipo meio esquizofrênico, que a família não quer em casa. São seis rapazes no quarto. Um deles, Casimiro, é gaúcho, alto, louro, mecânico de automóvel, e tem um jeito desconfiado. Também tem um rapaz do Pará que bebe muito e vomita no quarto. Pequenininho, cabelo penteado para trás, inteligente, canta bem.

Domingo, 20 de novembro_Acordei ao meio-dia. Comi um pão com manteiga, uma coxinha, tomate, cafezinho. Fui à praça da República vender um medalhão aos colecionadores. Cheguei tarde e não vendi, talvez não venda mais. À noite, mais um pão com manteiga e cafezinho.

21 de novembro_Seu Felipe me deu um dinheiro para depositar no banco: um pacotão. Fiquei admirado porque faz tão pouco tempo que estou trabalhando na firma e já me confiam tanto dinheiro na mão. Eu desperto confiança no chefe.

22 de novembro_Trabalho. Antes de sair, vendi a um colega de quarto a corrente que Maria Amélia me deu: 4 mil, em quatro suaves prestações. Depois eu a compro novamente por qualquer preço. Tentei um bico no supermercado e no salão de boliche que fica aqui perto. Não consegui.

Às 9 horas, tomei uma média com pão doce e uma banana. Às 13 horas, comi três pães, seis bananas e tomei um copo pequeno de leite. Às 19 horas recebi a primeira prestação da corrente. Comprei seis pães e um salsichão, trouxe tudo pro quarto e jantei. Fui dormir imediatamente para não gastar mais.

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25 de novembro_Não tomei café de manhã. Às 14 horas, consegui um dinheiro com um colega de trabalho e comprei um pão com manteiga e um copo de leite. Às 19 horas, comi três pães. Hoje termina o prazo que a dona da pensão me deu para pagar o adiantamento. Faz uma semana que telegrafei para Davi e ainda não tive resposta.

26 de novembro_Sem dinheiro para tomar café da manhã. Tentarei tomar 5 mil emprestados de novo, com o chefe. Às 10 horas, um colega me convidou para um trago. Fui. Ele tomou uma batida de coco e eu, um cafezinho. Estava ótimo. No fim do expediente, seu Felipe me deu o dinheiro. Ele é um homem admirável, inteligente. Tem um filho com uns 16 anos que o chama de “papá”. Eu acho bonito o rapaz chamá-lo “papá”.

Paguei ao colega os 500 de ontem. Na saída do trabalho, não pude fugir ao convite para o tradicional trago do sábado. Um deles ia almoçar no mesmo bar, e me disse que era barato. Era mesmo: 900 por um bife com dois ovos, muito arroz, dois pães, um prato cheio de tomate. Um colega pagou um copinho de vinho e um torresmo. Comi que nem bicho! Me senti outro homem. O dia estava muito bonito, com sol e tudo. Fui a pé até o Ibirapuera e caminhei pelo parque. Me controlei ao máximo para não comprar sorvetes etc. Foi uma caminhada boa, mas ao chegar não tive coragem de tomar banho frio: tomei morno. Li um pouco Os Pastores da Noite, de Jorge Amado. Senti saudades da Bahia.

Consegui mais uns dias com a dona da pensão. Vendi uma calça que comprei em Salvador a um colega de quarto. Dá para passar 15 dias. Jantei um copo de leite e dois pães com manteiga.

27 de novembro_Hoje acordei resfriado. Tomei café às 8 horas: dois pães, um copo de leite. Passei a manhã no quarto desenhando. Havia programado um passeio ao Ibirapuera, mas a manhã estava muito fria. Almocei às 13 horas: seis bananas, três tomates, um pão, uma coxinha de galinha. Dormi até as 21 horas. Jantar: quatro pães, 50 gramas de salame, um copo de leite. Fui ao show de abertura de um supermercado na rua Iguatemi, aqui pertinho. Vi Nara Leão, que apresentou Chico Buarque: “Um compositor jovem que faz umas letras muito longas.”

28 de novembro_Café: pão com manteiga e leite. Almoço: dois pães, 50 gramas de salame que sobrou de ontem. Recebi a última prestação da corrente de Maria Amélia e comprei um bloco para cartas com dois envelopes. Jantei seis bananas, 250 gramas de tomate e dois pães. Lavei meias e cuecas. Escrevi a Amorim.

29 de novembro_Hoje amanheci completamente duro, não tomei café. Ao meio-dia consegui dinheiro com um colega, comprei dois pães. No fim do expediente, consegui mais 500, emprestados. Jantei três pães e um copo de leite. Fui até o shopping.

2 de dezembro_Acordei resfriado. Hoje de madrugada fez um calor igual ao de Recife. Não havia ar. Comi pão e leite, não almocei. À tarde consegui dinheiro com um colega e jantei três tomates, seis bananas e quatro pães. Ainda estou resfriado.

3 de dezembro_No fim do expediente, consegui 30 mil com o chefe, seu Felipe! Dei 25 mil na pensão. Almoço: quatro pães, seis bananas, 250 gramas de tomate. Às 15 horas, recebi o cheque de Davi. Jantar: macarrão com ovos!

Domingo, 4 de dezembro_Depois do café, fui à praça da República. Hoje, em São Paulo, há sol igual ao de Recife. Tentarei acabar com a gripe. Fui à Biblioteca Municipal.

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“O professor está amarrando o curso: até agora, só me deu desenho para copiar”

 

7 de dezembro_Dia normal. Bebi com um colega, ele pagou uma batida de limão, uma dose de gin com martíni. Fumei três cigarros durante o dia.

8 de dezembro_Hoje me levantei às 7 horas. Tomei café, mel, leite e pão. Fui trabalhar, mas não houve expediente. Voltei para dormir mais um pouco, não consegui. Me senti mal, com uma leve dor no peito esquerdo. Pensei que ia ter um colapso. Fui ao Pronto-Socorro Iguatemi, cheguei muito abatido. A atendente me passou na frente dos outros pacientes. O médico disse que não era nada no coração, apenas uma dor provocada por excesso de esforço físico. Nos dias anteriores, eu vinha fazendo ginástica antes do banho. Me passou um remédio para relaxar e AAS para a gripe. Voltei assobiando para a pensão. Almoço: macarrão com frango e vitamina de banana com leite. Falta de apetite, enjoo durante a tarde. Dormi bem.

Às vezes penso em ir embora imediatamente, em outras acho São Paulo uma cidade muito boa.

9 de dezembro_Passei o dia com aspecto de doente, só porque sabia que estava doente. Tonto. Depois das 18 horas, tudo normal. Sempre tomando o remédio. O peito doeu um pouquinho. Dormi bem.

10 de dezembro_Tudo em ordem. Apetite. Dia de sol. Bem-estar geral. Fui ao correio, mandei a carta de Davi e cartões. Choveu como eu nunca vi. Peso: 58 quilos.

11 de dezembro_Acordei às 9 horas. Fiz a barba, coisa que nunca faço no domingo. Saúde 100%. Hoje paro de tomar os remédios. Programa: praça da República, Biblioteca Municipal. Li sobre Van Gogh e sobre xilogravura. Ainda não tive oportunidade de desenhar figuras humanas. Comecei a escrever para a minha amiga Zélia.

12 de dezembro_Tentei terminar a carta da Zélia, mas não consegui.

14 de dezembro_À noite, fui ao correio. Tristeza na rua iluminada para o Natal, o povo alegre. Enviei postais a Mendes e Simão. Dormi à meia-noite. Ainda escrevendo para a Zélia.

15 de dezembro_Bem-estar geral durante o dia inteiro. Recebi uma carta de Amorim e duas de mamãe. Foi um prazer! [Perdi todas as cartas de mamãe. Com certeza, foi ela mesma quem as tirou do meu arquivo. Ela adorava bisbilhotar, mas era muito tímida. Num bilhete, escreveu no rodapé: "Leia e rasgue.”] Dormi à meia-noite.

16 de dezembro_Mel, pão, café com leite. Falta de apetite. Almoço três pães, três laranjas, seis bananas. Senti enjoo antes, durante e depois do jantar. Passou depois de uma hora que jantei. Penso que é coisa do estômago. Quando sinto isso, fico muito triste, não sinto vontade de falar, penso em ir embora no dia seguinte. Será que em Recife eu vou sentir isto? Começou no primeiro dia em que cheguei a São Paulo. Que será? Tem momentos aqui que eu sinto um bem-estar espetacular, e de repente vem uma tristeza na mesma proporção. Sinto os ouvidos apertados, como em viagem de avião. Será o clima? De hoje para amanhã eu resolvo se vou embora no fim do mês. Vou dormir mais cedo. Amanhã não tomarei mel.

17 de dezembro_Manhã com enjoo. Depois do almoço melhorei um pouquinho. Quando estou bem, acho São Paulo muito boa e desejo continuar aqui. Tenho a impressão de que quando fica nublado eu me sinto mal. Vou ao correio levar a carta de Zélia.

18 de dezembro_Acordei às 10 horas. Tomei café da manhã, sem mel. Depois do almoço, bem-estar geral. Continuarei em São Paulo! Passei a tarde lendo Seleções. À noite, saí para jogar sinuca com uns amigos.

21 de dezembro_Choveu e fez frio durante o dia todo. Pela primeira vez, senti que funcionei como auxiliar de escritório.

22 de dezembro_Passei o dia bem. À noite, andei na chuva depois do jantar, durante uma hora. Tomei mel à noite. Tive calor durante o sono.

24 de dezembro_Tudo em ordem. Tomei cerveja. À tarde desenhei, à noite joguei sinuca. [<[Hoje lamento não ter escrito, com todos os detalhes, sobre por que tudo estava em ordem, onde e com quem tomei a cerveja, o que desenhei à tarde e onde foi o jogo de sinuca.]p>

25 de dezembro, Natal_Acordei às 10 horas. Tomei café, fui caminhar no Jardim Europa, o bairro mais bonito de São Paulo. Almocei, tomei champanhe na pensão. [<[Havia um hóspede jovem e inteligente que sempre batia papo comigo na hora do almoço.] tarde lavei roupa. Jantei três pães, 50 gramas de presunto. À noite fui ao centro comprar o Estadão, mas não comprei. Dormi bem.

30 de dezembro_Dia normal, enjoado e sem novidade. Quente e nevoento até meio-dia.

31 de dezembro de 1966_Consegui 10 mil com o chefe. Desenhei à tarde. Tomei um porre e fui dormir cedo para não ver a chatice da passagem de ano, mas acordei às 23h30 com o barulho das comemorações, e perdi o sono.

1º de janeiro de 1967_Caminhei até o Jóquei Clube. Tomei banho, almocei às 15 horas, dormi até as 19 horas. Fui ao correio levar uma carta para Hélio e Caetano. Peso: 60 quilos!

10 de janeiro_Hoje comecei a fazer as refeições na casa de dona Maria. Quem me levou lá foi o rapaz paraense com quem eu divido o quarto (aquele que canta bem e vomita). Dona Maria é uma portuguesa que mora na rua Tabapuã, casada com um português simpaticíssimo. A comida é ótima! [<[Um dia comi muita uva, com casca e tudo, e fiquei entupido. Não me lembro como resolvi o problema, mas foi grave.]p>

8 de março_ Deixarei de fazer as refeições na casa de dona Maria porque o amigo desistiu e ela não pode ficar só comigo.

18 de março_Recebi uma carta anônima nos seguintes termos: “Daniel Lima Santiago, seu pai, que mora em Canhotinho, Pernambuco, está passando fome e pede mandar auxílio urgente.” Imaginei que a letra seria de vovó Mocinha, mãe do meu pai. Guardei a carta e esqueci. Dias depois, recebi outra, com a mesma letra, mas assinada por Simão Marques da Silva, pedindo para eu ir à rua Anita Sabá, n.º 3, na Penha, a fim de “nós conversar sobre os negócios de sua familha”. Deixei para lá. Hoje o cara apareceu aqui no trabalho, mas não lhe dei muita atenção. É um velho baixo de bigode, deixou o mesmo endereço: reconheci a letra. Disse para eu ir até lá falar com uma irmã de vovó, Quitéria Fortunata – nome que ele escreveu hesitante. Vou pensar no assunto.

27 de março_Recebi uma carta do meu pai. [<[Ele não tinha nada a ver com a carta anônima, e não passava necessidade. Sempre tive pouco contato com ele.]omecei a fazer as refeições num bar, pagando por quinzena, uma miséria! Peso: 61 quilos. Estou sentindo um dente, devo ir ao dentista.

6 de maio_Deixei de sentir o dente, mas devo ir ao dentista. [<[Lamento não ter anotado qual era o dente e o que aconteceu com ele. Eu não dava importância aos dentes, hoje só me restam dez naturais.]ntre estes dias aconteceu uma coisa interessante, mas eu não tive tempo de escrever no diário. Estava com uma preguiça muito saudável. Me matriculei na Escola Nacional de Desenho, na rua Barão de Itapetininga.

8 de maio_O dia hoje foi de muita expectativa. [<[Ou era uma moça que morava na pensão, ou era um buraquinho na porta do banheiro, por onde eu estudava anatomia feminina. Mais uma das muitas anotações que deixei para fazer depois e esqueci.]p>

22 de maio_Eu e o Casimiro saímos da pensão de dona Santinha. [C[Casimiro era o gaúcho desconfiado que dividia o quarto comigo.] novo quarto, mais barato, não tem as paredes rebocadas nem as janelas pintadas. Era como uma garagem construída num oitão de uma casa. Comprei uma cama, um colchão, um cobertor, dois lençóis e uma fronha! Fiz o poema “Céu de chumbo”.

Cheguei à conclusão de que não estou aprendendo nada na escola. O professor está amarrando o curso: até agora, só me deu desenho para copiar. É possível que eu desista este mês.

A música sucesso do momento é Aline, do Agnaldo Timóteo.

Saúde: normal. Peso: 61 quilos. Comprei dois pares de meias, três camisetas, um blusão olímpico e duas ceroulas.

28 de junho_Tive a honra de receber meu primo Petrúcio, sobrinho de Quitéria Fortunata, como imigrante.

Vi um anúncio da Escola Nacional de Desenho de Curitiba no jornal, pedindo professores. Mandei uma carta com alguns desenhos. Acho que me sairia bem.

29 de junho_Falei com dona Santinha, da antiga pensão onde morei, para ficar com o meu primo. Ficou.

Sábado, 15 de julho_Meu primo foi embora hoje para o Rio. Comprei a passagem e dei o troco a ele: 2,60. Foi o único dinheiro com que viajou.

Ficou resolvido o caso da carta anônima: era do marido de Quitéria. Na sexta-feira à noite, eu fui lá com meu primo Petrúcio, só porque ele insistiu. Chegamos às 20 horas, batemos nas portas, nos portões, nas paredes, gritamos na rua, chamamos e ninguém abriu a porta. Eu sabia que havia gente em casa. Uma vizinha disse que o pessoal dormia cedo e não abria a porta para ninguém. Dei uma banana para todos e voltei aborrecidíssimo.

Sábado, 12 de agosto de 1967_Pedi demissão, vou para Curitiba. Segunda-feira começo a dar aulas de desenho. Estou de bigode.

Daniel Santiago

Daniel Santiago é artista plástico pernambucano.

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