esquina

Passinho de Caracas

O mestre dançarino e o ritmo das favelas venezuelanas

Paula Daibert
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2012

“Vocês já viram a Madelen? Dança melhor que homem!”, diz Elberth a três amigos, e abaixa a aba reta do boné para a altura dos olhos, imitando os passos da menina. Com as pernas dobradas, ele faz os joelhos se encontrarem, como num xis, e os separa com rapidez, enquanto seus braços balançam freneticamente ao redor da cabeça e do corpo. Numa manhã de quarta-feira, início de outubro, os rapazes dançarinos esperam outros dois em uma pracinha de Petare, a maior favela da região metropolitana de Caracas, na Venezuela.

Petare tem cerca de 400 mil habitantes, quase seis vezes o tamanho da Rocinha. Tal qual a maioria das favelas do Rio, se formou morro acima, com ruelas íngremes. Chegam os outros dançarinos com tênis ultracoloridos, bonés e calças chupi chupi, apertadinhas. “Ouve isso aqui”, diz um deles ao grupo, e liga no smartphone um som com batida eletrônica grave e acelerada. A aprovação é geral. Jonathan não perde tempo: “Me passa essa música aí, Locutor?”

“El Locutor” na verdade se chama Andrew e tem a voz grossa e sedutora. Henry, mais conhecido como “El Negro”, é muito educado e pede permissão antes de falar. Daniel, “El Estilo”, é um simpático gordinho que sorri sempre. Jonathan, “El Mono”, não consegue parar quieto, dança até para falar. Joel é o mais calado, tem o cabelo trançado com miçangas rastafári, daí o codinome: “El Marihuana”. “Mas em ambientes sérios, me apresento como ‘El Gordo’.”

Todos são panas (amigos, em “venezuelanês”), mas Elberth impõe um respeito diferente. É “El Maestro” e os outros são seus discípulos. Todos têm menos de 25 anos e dançam changa, um ritmo venezuelaníssimo, criado nas favelas caraquenhas. Com a batida eletrônica produzida com sintetizadores, destoa da tradicional salsa e do reggaetón (uma espécie de funk que surgiu no Panamá e em Porto Rico e estourou em todo o Caribe).



A changa surgiu em Caracas no início dos anos 90, em linha com a onda mundial do dance. Os DJs faziam grandes festas pelo país, utilizando pequenos aparelhos de som que instalavam em qualquer lugar. Foram eles que começaram a popularizar a batida ao estilo do hit Pump Up The Jam, mas quase sem letra. Com pitadas de salsa, merengue e reggaetón, combinadas às batidas eletrônicas aceleradas a até 140 por minuto, a changa se consolidou nos anos 2000 como um fenômeno genuinamente criollo (local).

Fora da favela, o estilo “changueiro” é chamado de tuki. “Para eles, o tuki é criminoso, feio. Este país inteiro dançou changa, de Caracas ao Amazonas. Só que agora é música de favelado e visto como uma coisa ruim”, explica Elberth. O termo vem do título do disco Changa Tuki, lançado pelo DJ Byakko em 2005, e é inspirado no “tukiti tukiti” da batida. El Locutor interrompe: “Tuki é a nossa cultura, a dança é um alívio para os problemas. Não somos marginais, trabalhamos e estudamos.”

Mas El Maestro lembra que a cena changueira não era bem assim. “Tinha gente que dançava com faca na mão! Se um dançarino brilhava mais que outro, era apunhalado.” Com a popularização do ritmo pela internet e o compartilhamento de vídeos, os verdadeiros tukis, que arruinavam as festas, saíram de cena. “Se você fazia algo ruim, aparecia nos vídeos”, conta El Maestro.

 

Foi então que a changa estourou nas favelas de Caracas. DJ Baba comandava em Catia, a maior da Zona Oeste, e DJ Yirvin, o principal nome de Petare, agitava o leste da capital. Aos 13 anos, El Maestro começava a atrever-se nas rodas de changa. “Eu ficava no espelho tentando imitar meus amigos mais velhos, mas não conseguia.” Um dia, na louca, resolveu entrar em uma batalha de dança numa quadra perto de sua casa.

“Tinha muita gente: Jessica Petare, Alex ‘Caredeo’ (abreviação de ‘cara de dedo’), Cheo ‘El Smicht’ – que descanse em paz, esse já morreu. E eu pensava: ‘Algum dia terei um nome como eles.’” Perdeu, claro, mas a partir daí não parou mais de treinar. Continuou indo às festas até que sua musa Jessica o convidou para dançar. “Hoje é o dia!”, pensou. “E pronto! Comecei a sair até sozinho e fiquei famoso.”

Elberth criou passos próprios e passou a ganhar todas as batalhas. Foi quando se tornou El Maestro. Seus movimentos são frenéticos e saem naturalmente. Ele mexe qualquer e todas as partes do corpo, mas principalmente os pés, que deslizam pelo chão. “Hoje, não existe um lugar na Venezuela onde pelo menos uma pessoa não me conheça”, diz o dançarino.

Entre 2008 e 2009, a changa desapareceu, segundo seus adeptos, derrubada pelo preconceito da classe média. “Desapareceu para os sifrinos (filhinhos de papai), porque aqui em Petare nunca deixou de ser importante”, diz El Maestro.

Na mesma época, os DJs venezuelanos Pocz e Pacheko começavam a fazer música juntos. Foi quando conheceram o Buraka Som Sistema, grupo português que apresentou o kuduro dos guetos angolanos para o mundo. “Tocávamos dubstep (gênero eletrônico surgido em Londres), mas, inspirados pelo Buraka, começamos a dar um toque tropical, uma coisa estranhíssima”, conta Pocz. Faziam changa tuki e não sabiam.

Como por obra do destino, o irmão de Pacheko trabalhava na Prefeitura de Petare, e orquestrou seu primeiro encontrou com o DJ Yirvin. “Pacheko não conseguiu nem dormir aquela noite, sabia o que tinha encontrado”, conta Pocz. Em 2011, Pocz e Pacheko lançaram o jingle Tuki Love, que os levou a assinar com a gravadora Enchufada, a mesma do Buraka Som Sistema. E foram convidados a levar a changa ao festival Hard Ass Sessions, em Lisboa. “Na volta, fizemos umas festas tuki incríveis. Levávamos Yirvin e El Maestro, e os sifrinos alucinavam, sem nem saber o que escutavam.”

De fora para dentro, a changa se redescobriu. O renascimento se deve a Pocz e Pacheko, mas também aos diretores venezuelanos Miguel Salguero e Juan Acosta, que lançaram no início de outubro o documentário ¿Quién Quiere Tuki? “Até de Nova York já me ligaram”, se orgulha El Maestro. Para o dançarino, a changa começa a chamar a atenção do mundo e, por isso, o preconceito está diminuindo na Venezuela. “Tem muita gente aqui que saiu da changa porque era coisa de tuki. E agora, como os sifrinos estão se vestindo? Tuki! Até com sapato dourado. Quem dita a moda é a gente.”

Paula Daibert

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