esquina

Patas, asas e antenas

Um museu só de insetos

Fabio Victor
Andrés Sandoval_2019

Treze crianças, sentadas no chão em círculo, tentavam conter a ansiedade diante da monitora, que explicava a importância da joaninha para a natureza. Tinham acabado de observar no microscópio um exemplar empalhado do pequeno inseto salpicado de bolinhas. “Sabem o que a joaninha come?”, perguntou a jovem que conduzia o passeio educativo. “Folha”, responderam os miúdos, estudantes de 7 ou 8 anos de uma escola particular do bairro paulistano do Butantã. “Não. A joaninha é um predador, ela come o pulgão e outras pragas”, prosseguiu a monitora, entabulando uma breve explicação sobre o controle biológico. “É por isso que quem tem planta tem de ter uma joaninha.” 

Estavam todos numa das salas da mostra permanente Planeta Inseto, que se apresenta como “o único jardim zoológico de insetos do Brasil”. Mantido pelo Instituto Biológico, subordinado à Secretaria de Agricultura e Abastecimento de São Paulo e voltado a pesquisas para o setor agropecuário (como vacinas para rebanhos, controle de pragas etc.), o museu que abriga a exposição funciona numa casa antiga, cercada de árvores, na Vila Mariana, Zona Sul de São Paulo. 

Depois da sala do controle biológico, a turma seguiu para a do bicho-da-seda. Valendo-se de recipientes com os próprios insetos, alguns vivos, outros mortos, a monitora narrou os quatro estágios do ciclo de vida do bicho – ovo, larva (ou lagarta), casulo (ou pupa) e adulto (ou mariposa) – e exibiu um pedaço de seda, explicando se tratar de uma obra daquelas criaturas. Uma garotinha indagou: “Então eles sabem costurar?” Quando as gargalhadas e a algazarra cessaram, veio a explicação da mágica: “A lagarta solta um fiozinho que faz um casulo, e cada casulo tem um único fio, enorme. As indústrias desenrolam aquele fio e transformam em tecido.” Em meio ao espanto geral, um pirralho disse, ao ver uma lagarta morta: “Parece um pokémon.” Mais anarquia no recinto, até que uma lagarta viva, retirada de uma caixa forrada de folhas de amoreira (a iguaria favorita dela) e passada pela monitora de mãozinha em mãozinha, tornasse a acalmar a comitiva. 

Os museus mais famosos de São Paulo com apelo infantojuvenil – o Catavento, o do Futebol e o da Língua Portuguesa (este em reconstrução depois de um incêndio e com reabertura prevista para o próximo ano) – têm em comum os acervos multimídia e os recursos audiovisuais sintonizados com a era digital. O Planeta Inseto não dispõe de nada disso. Os dispositivos mais high-tech do lugar são dois aparelhos de tevê na sala dedicada às abelhas, pois o principal atrativo do local é de fato a coleção de patas, asas e antenas, com a qual podem interagir os visitantes. 

“Um museu contém animais mortos. Um zoológico reúne animais vivos. Por isso dizemos que somos o único zoológico de insetos do Brasil. Em zoos você até encontra borboletários e formigários, mas insetos em geral, só com a gente”, gaba-se o biólogo Mário Kokubu, educador-chefe do espaço e coordenador dos monitores e monitoras, todos eles universitários do curso de biologia. Segundo Kokubu, 25 mil pessoas visitam por ano o museu, cuja entrada é gratuita. Diariamente, são quatro turmas de escolas – duas de manhã, duas à tarde. 

 

Na área externa do museu, caixas de abelhas abrigam quatro espécies nativas sem ferrão: jataí (“ícone das abelhas nativas do estado de São Paulo”, como esclarece um painel), mandaçaia, uruçu-amarela e iraí. Um quadro avisa que o mel que costuma ser vendido no comércio vem de abelhas exóticas, que não são nativas do Brasil. Em tom ufanista, reclama: “Tanto conhecemos um animal trazido de outras terras e não sabemos que o nosso país possui diversas espécies nativas que também produzem mel, um mel delicioso!” 

Logo na entrada, há duas caixas cheias de folhagens, que à primeira vista parecem conter apenas folhas e galhos. Com a atenção redobrada pode-se identificar bichos-pau camuflados, que às vezes os monitores tiram da caixa para serem tocados pelos visitantes. Nas várias salas, há vitrines com insetos empalhados: gafanhotos, mariposas, cigarras, vespas, borboletas e incontáveis espécies de besouros. Em uma das seções, chamada Laboratório do Entomólogo, ilustra-se o ofício desse especialista em insetos. Na sala das formigas, há um formigueiro de verdade e um quadro que mostra a sua complexa construção. Na das abelhas, a monitora explicava à criançada o que é polinização: “É quando as abelhas ajudam as plantas a namorarem. As plantas ficam grávidas.” “Ooooooooooooh”, suspiraram os estudantes.

A visita estava chegando ao fim, e a jovem foi buscar uma das estrelas da exposição para mostrar ao grupo: a cascuda barata-de-madagascar – a maior da sua espécie, com chances de atingir até 7,5 cm de comprimento –, também conhecida como barata assobiadora, por causa do chiado que produz quando expele ar. Um leve clima de terror se instalou no ambiente. Duas coleguinhas se abraçaram, solidárias. A monitora então explicou que, diferentemente da barata de esgoto, aquele era um inseto limpinho e inofensivo. “Vou mostrar de pertinho, quem quiser pode tocar.” Num átimo, quase todos se aproximaram, e a baratona circulou de mão em mão. Um sucesso. 

Nada causou mais frisson, porém, que a atração reservada para o grand finale: a corrida de baratas. As competidoras eram da espécie mais ordinária, as baratas de esgoto, mas criadas fora dos encanamentos. Estavam em uma caixa de madeira com tampo de vidro e dividida em cinco raias, batizada de “baratódromo”, em torno da qual as crianças se aglomeraram, eletrizadas, para assistir à prova. 

A monitora explicou: “Barata não gosta de luz nem de barulho. Então vou acender todas as luzes e pedir para vocês gritarem muito na hora em que elas largarem.” E assim foi feito: uma gritaria estrondosa ecoou pela sala e pelo museu, enquanto as cinco competidoras disparavam pelas pistas do baratódromo. Ansiosas, duas baratas viraram de ponta-cabeça e só voltaram à posição normal depois de muito esforço. Outras duas pareceram desnorteadas. A atleta da raia 4 venceu com folga a corrida.

Fabio Victor

Repórter da piauí. Na Folha de S.Paulo, onde trabalhou por vinte anos, foi repórter especial e correspondente em Londres

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