esquina

Pau a pau

Concurso de carisma

Chico Felitti
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL

Apoiado numa parede de reboco, um homem magrelo tentava se concentrar nos fundos de uma sauna no Largo do Arouche, no Centro de São Paulo. Vestia apenas uma tira de dois palmos de toalha azul na cintura e se preparava para enfrentar uma batalha ingrata. Caio, estudante de publicidade de 28 anos, seria o único participante amador do primeiro concurso Mister Pirocas Bar, realizado no fim de fevereiro, para escolher o membro masculino mais impressionante de São Paulo.

Os outros sete competidores eram todos go-go boys, garotos de programa ou atores pornô – a maioria acumulava as três profissões. Já se conheciam de longa data e formavam uma rodinha a dez passos do estudante. Um deles – um rapaz musculoso de cabelo raspado e um fio de barba emoldurando o rosto negro – palestrava sobre os atributos dos colegas. “O meu é assim”, disse ele, segurando uma garrafa d’água de 500 mililitros entre as duas mãos espalmadas. Em seguida, apontando para um homem de mais de 2 metros ao seu lado, comparou: “Mas o dele é isso aqui”, disse, estendendo uma das mãos uns bons 10 centímetros além da garrafa.

Já o trunfo de Caio – um rapaz de cabelo raspado nas laterais e com um palmo de comprimento no topo da cabeça – era um mistério para todos. “Só acreditei que era bem-dotado quando comecei a sair com homens”, disse ele, enquanto aguardava a hora de se apresentar. “Foi aí que vi que tinha algo errado com eles. Ou comigo.”

Seus amigos viram na internet o anúncio do concurso promovido pela Chilli Pepper, estabelecimento que é conhecido como a maior sauna gay do mundo, mas se define como um hotel para solteiros (Pirocas é o nome do bar do hotel). Convenceram o estudante de que o Empire State que ele carrega entre as pernas lhe renderia o grande prêmio de mil reais, mais um ensaio na revista Junior, voltada para homens gays. “Vim com a cara e a coragem”, disse Caio. “Duvido que algum amigo venha torcer por mim.”

Às oito da noite, os concorrentes foram chamados a um escritório. Um funcionário passou distribuindo garrafas d’água e pacotes de citrato de sildenafila – o princípio ativo do Viagra. Além do incentivo químico, cada participante ganharia um cachê de 100 reais pela participação. Carlos Twister, um quarentão parrudo de boné, recusou os comprimidos. “Azulzinho para mim é só a garoupa”, disparou, referindo-se ao peixe que ilustra o verso da nota de 100. “Não tomo Viagra de jeito nenhum”, emendou Twister, que chega a fazer dez shows de sexo ao vivo por noite em boates do Centro.

Sentado numa cadeira giratória, Wellington Leite – um rapaz de tatuagem tribal no peito, ombro e braço direitos – brincava sozinho com seu Edifício Itália, estimulado por uma cena de sexo que via no celular. Foi então que Caio entrou na sala e deixou a toalha cair, para surpresa dos concorrentes. Se o caso era comparar o atributo dos adversários a arranha-céus, era como se eles fossem donos de edifícios como o Banespa ou o Martinelli – grandes, mas não colossais. O Empire State do estudante definitivamente se destacava.

Mas Caio deixou de ser o centro das atenções quando a porta do banheiro se abriu e saiu dali o homem com mais de 2 metros – aquele cujo dote excedia o comprimento de uma garrafa. Todos ficaram paralisados com o que viram: estavam simplesmente diante do Burj Khalifa, a torre mais alta do mundo. Foi Carlos Twister quem rompeu o climão: “Vou ganhar esse concurso pela simpatia mesmo, porque tá difícil.”

 

Cerca de cinquenta homens se aglomeraram numa meia-lua em volta do palco armado junto ao bar. Foram saudados pelo fisiculturista Lucas Mesquita, o Gavião, assistente de palco do Domingo Legal e um dos mestres de cerimônia. “Vamos avaliar a mais bela… como dizer?”, hesitou o apresentador. “Piroca”, completou sem pudor sua colega de palco, a drag queen Silvetty Montilla, que apresenta um reality show na internet e ganhou fama por sua língua ferina.

Na primeira etapa do concurso, os candidatos revelariam apenas uma parte da sua anatomia. No fundo do palco estava estendida uma grande tela de lycra preta com oito furos ovais – um para cada concorrente – na altura do quadril. Era pelos oito orifícios, que tinham o tamanho de um punho, que eles exibiriam suas prendas. Os mestres de cerimônias explicaram que seriam levados em conta não só o tamanho da peça, mas também a graça, o charme, o carisma. “Vai ter que balançar, conquistar o público, fazer a gente ter água na boca”, disse Montilla.

Os candidatos foram convidados a ocupar cada um seu buraco – Caio ficou com o de número 6. Os membros perfilados permaneceram estáticos enquanto eram apresentados pela drag queen. Em seguida veio a resenha dos jurados – Kaká di Polly, uma drag queen obesa e estrábica com quase quarenta anos de noite, Rey Neves, dono do Bar Fama e espécie de olheiro de go-go boys na cidade, e Thiago Michelasi, especialista em concursos de beleza. Polly se impressionou com o mais bem-dotado dos concorrentes: “Menino, isso não faz sexo, faz chacina!”

O júri escolheu os três candidatos que passariam para a etapa final: Carlos Twister, o veterano que recusara o Viagra; o homem alto dono do Burj Khalifa; e Wellington Leite, o rapaz de tatuagem tribal que brincava sozinho antes da cerimônia. Os finalistas fizeram em seguida uma apresentação solo, dançando e desfilando no meio do público, que teve permissão para tocá-los.

Depois de dez minutos de deliberação, público e jurados decidiram que a faixa de campeão caberia a Leite e seu Edifício Itália – que é de bom tamanho, mas está longe de ser o mais portentoso do mundo. O campeão fez a foto oficial de divulgação escondendo seu ouro com um cheque gigante de mil reais cobrindo as partes baixas. Aquele foi o único registro da noite, já que celulares e câmeras haviam sido vetados.

Caio, o candidato amador, desceu do palco e desapareceu na multidão após ser eliminado no teste às cegas. Meia hora depois, reapareceu no bar, que já estava vazio. “Foi combinado isso aí”, protestou. “Se fosse só pelo tamanho, eu teria chance.” Em seguida, dirigiu-se ao 2º andar da sauna, coberto só pela toalha. “Vamos ver se a fama pelo menos vai servir para alguma coisa.”

Chico Felitti

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