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    CRÉDITO: ANDRÉS SANDOVAL_2022

esquina

Pedalando até amanhã

Voluntários ensinam adultos a andar de bicicleta

Thallys Braga | Edição 188, Maio 2022

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Eram nove da manhã de um domingo nublado quando uma trupe de ciclistas aprendizes invadiu os jardins do Museu de Arte Moderna, no Rio de Janeiro. O grupo era formado por mulheres entre 27 e 58 anos, em trajes de ginástica, com mãos trêmulas e pernas bambas. O nítido nervosismo se devia ao fato de que nenhuma delas sabia pedalar. A contadora Luiza Abranches, de 46 anos, foi a primeira a tomar coragem de tentar. Deu impulso na bike, arrastou os pés no chão por 3 metros, desequilibrou-se e tombou para a direita. “Acho que não vou conseguir”, disse, olhos esbugalhados, sorriso vacilante.

Abranches tinha 13 anos quando pedalou pela última vez. Levou uma queda cinematográfica e nunca mais teve coragem de subir numa bicicleta. Naquele domingo, tentava se reconciliar com as duas rodas por razões amorosas: ela sonha em levar na garupa o marido, deficiente visual, para passear de bicicleta ao redor da Lagoa Rodrigo de Freitas. Como não se sentia segura para encarar o desafio sozinha, Abranches recorreu à ajuda da Bike Anjo – projeto em que voluntários ensinam os fundamentos do ciclismo a pessoas que já passaram da idade típica na qual se começa a pedalar. No Rio, os encontros acontecem duas vezes por mês. A ONG realiza ações regulares em outras 856 cidades brasileiras e em mais 36 países.

Ganhar confiança para pedalar em idade adulta é tarefa ingrata. O medo de acidentes pode beirar a fobia. Pesa também a insegurança em relação ao que outras pessoas pensarão de um adulto tentando se equilibrar em cima da magrela. “É uma das razões pelas quais a gente recebe mais mulheres do que homens aqui”, explica Norton Tavares, de 40 anos, o voluntário mais antigo da Bike Anjo no Rio. “Os caras têm medo de parecer fracos. Machismo purinho.”

 

Cada aprendiz recebe uma bike emprestada e tem à disposição um instrutor voluntário – o “anjo”, no jargão da ONG. O treinamento dura cerca de quarenta minutos, em quatro fases. Na primeira, o aluno apenas se move com a bike para se familiarizar. “É o momento que a gente usa para verificar o quanto a pessoa está nervosa”, explica Tavares. Em seguida inicia-se a “remada”, na qual o ciclista tenta tirar os pés do chão com a bicicleta em movimento. “Se ele consegue seguir um percurso reto durante três segundos, seu corpo está preparado para o grande desafio.” Chega-se então à “pedalada assistida”, quando o instrutor segura o aluno pelos ombros enquanto ele realiza os primeiros deslocamentos. Caso supere essa etapa, o combalido ciclista aprenderá a “arrancada”, que consiste em aplicar todas as técnicas anteriores para se mover em linha reta, firme e forte sobre as duas rodas.

“Andar de bicicleta é como viver: você só cai se estiver em movimento”, disse Tavares a Abranches, na tentativa de tranquilizá-la. Quando conseguiu pedalar pela primeira vez, a contadora soltou uma risada tão alta que se desconcertou. Freou bruscamente e caiu – sorrindo. “Estou quase lá”, disse. Ao fim da aula, a contadora não conseguiu ultrapassar a terceira fase do treinamento, mas parecia ter acabado de ganhar uma medalha olímpica. “Volto no mês que vem e aprendo o que faltou”, ela disse. Em seguida, virou-se para Tavares: “Agora vamos ao que interessa. Onde consigo uma bike adaptada para pedalar com o meu marido na Lagoa?”

 

Às dez da manhã, Mariangela Bazbuz, uma mulher miúda de 58 anos, se aproxima a passos ligeiros da sombra onde os organizadores da Bike Anjo se refugiam. Ela mora em Copacabana, mas é de Niterói, onde viveu uma infância modesta e nunca teve a chance de praticar ciclismo. Saiu de casa aos 17 anos para trabalhar e estudar psicologia, depois engravidou e se casou. Quando se deu conta, não tinha mais tempo para o próprio lazer. Namorou as postagens da Bike Anjo nas redes sociais por seis anos. Só agora, recém-aposentada como servidora do Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia, no Rio, animou-se a buscar a ONG.

 

Com a experiência de nove anos de voluntariado, Norton Tavares constata que mulheres como Bazbuz são as principais usuárias da Bike Anjo. “Elas passam a vida se dedicando à família e não sobra tempo para as atividades de que gostam”, diz o instrutor. Também há aquelas que carregam traumas em relação à bicicleta: “Certa vez atendi uma senhora paraibana que, quando criança, tentou aprender a pedalar na bike do pai. O cara pegou um facão e passou a parte não cortante na orelha dela. Disse que bicicleta desvirgina, que não era coisa de menina. A mulher pegou pavor de bicicleta.”

Os treinamentos acontecem na região central do Rio e no Engenho de Dentro, na Zona Norte. Antes da pandemia, a ONG realizava ações em Anchieta, Jacarepaguá e na Lagoa, e quer retomá-las o mais rápido possível. O instrutor tem um cuidado especial com as alunas negras, pois elas enfrentam o duplo estigma do racismo e do machismo. A turma de aprendizes que a piauí acompanhou era formada por 23 pessoas, mas só uma era negra.

 

O voluntário Elcio Cardoso, analista de sistemas aposentado e ciclista entusiasta, tem dificuldades de acompanhar o ritmo de Bazbuz, que sobre a bicicleta se transforma em uma menina espevitada. A certa altura, Cardoso pede que ela se acalme e coloque os pés sobre os pedais. Ele segura os ombros da psicóloga enquanto ela pedala para trás, só para ganhar confiança com o movimento.

 

Terminado o exercício, Bazbuz encara o trajeto à sua frente. Com um impulso, arranca com a bicicleta e, pela primeira vez na vida, pedala. Mantém-se em linha reta por cinco segundos, até que se vê prestes a colidir com uma das pilastras do museu e freia. Cardoso fica para trás, provavelmente pensando em quantos cafés ainda terá de tomar para acompanhar o ritmo da ciclista.

“Quando você muda de classe social, fica calculando cada um dos seus passos e trejeitos para ser aceita. Me vi assim quando terminei a faculdade. Agora que me aposentei, quero mais é ser feliz”, diz Bazbuz entre uma pedalada e outra. “Por mim, eu pegava essa bicicleta e iria até Ipanema, depois passaria na Lagoa, quem sabe atravessaria a Ponte Rio-Niterói. Se eu pudesse, ficaria pedalando até amanhã.”

Thallys Braga
Thallys Braga

Repórter da piauí

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