esquina

Pedigree é passado

O animal doméstico na era do RG subcutâneo

Kelly Cristina
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2009

Bob acordou numa manhã de novembro decidido a ganhar o mundo. Aproveitou a distração do dono para achar uma brecha no portão e, fazendo uso do seu corpo esguio de pinscher, sentiu o frescor da liberdade nas ruas de Salvador. Não se sabe se a fuga era um desvario juvenil de Bob, então com 3 anos, ou uma cruzada em busca da mãe, Laila, que havia escapado pelo mesmo portão quando ele era filhote. Para a alegria de seu dono, Bruno Nascimento, o bicho foi recuperado eletronicamente.

Bob foi denunciado por um microchip – instalado em sua nuca justamente em função do histórico familiar de fugas. Um pedestre cruzou com o cão no bairro de Itapuã e o deixou em uma clínica veterinária. Bastou que o veterinário passasse o leitor (parecido com o que facilita a vida dos caixas nos supermercados) sobre o dorso de Bob para que descobrisse seu número de identificação, espécie de código de barras. Em seguida, pôde ver no banco de dados on-line que o cão estava com o status de “perdido”. Encontrou também seu nome, lista completa de vacinas e o contato do dono, que já somava dez dias de angústia.

Em São Carlos, no interior de São Paulo, Carlos Machado e seu sócio, Nelson Luis Margarido, ambos de 37 anos, ficaram tão radiantes quanto o dono de Bob. Eles são proprietários da Animalltag (assim mesmo, com “l” duplo), única fabricante de microchips para animais domésticos no Brasil. Engenheiros mecânicos, Machado e Margarido descobriram o filão ao acaso, nove anos atrás, quando vendiam chips para chaves de automóveis. Investigando os possíveis usos do aparato, tiveram um clic: por que não ampliar o mercado para animais? No campo da pecuária, a engenhoca foi prontamente aceita – é indiscutivelmente melhor colocar um chip em um boi do que marcá-lo a ferro quente. O problema foi convencer os donos de bichos domésticos.

A classe veterinária levantava dúvidas. O microchip se perderia pelo corpo? Provocaria câncer? Mataria? Entre os proprietários, não havia boa alma que se propusesse a informatizar o melhor amigo. Machado não recuou. Para provar a eficácia e a inocuidade do produto, testou-o em casa: a dogue alemã Raiza e a pinscher Nina foram as primeiras cobaias. (Hoje, as duas são falecidas – mas não por causa dos chips, é bom dizer. Boris, o labrador que as substituiu, também já está devidamente informatizado.)



Com felinos, a iniciativa se mostrou mais complicada: não raro, o aparato saía do lugar. “O microchip era implantado na nuca e, depois que o gato voltava de uma noitada fora de casa, tinha ido parar em alguma outra parte, como a pata”, ressente-se Machado. O produto passou, então, a ser feito com o mesmo material que, nos humanos, mantém o marca-passo no seu devido lugar. Questão resolvida. O chip não migra mais nem com reza braba.

 

A estratégia seguinte foi doar leitores de microchips para centros de controle de zoonoses. Afinal, de que adiantaria o cachorro ter um código de barras se ele não pudesse ser lido? Para provar, em definitivo, que o mecanismo não causava dano, três vendedores da Animalltag decidiram implantar o mecanismo em si próprios. Na dúvida sobre a classificação que teriam no banco de dados, cadastraram-se como SRD, “Sem Raça Definida”, mesma denominação dos vira-latas. A venda explodiu. (À diferença dos funcionários, Machado e Margarido continuam se valendo apenas de RG e CPF para identificação pessoal.)

De lá para cá, para alegria dos sócios, o verbo “microchipar” entrou definitivamente para o léxico dos animais domésticos. Em 2004, a União Européia decidiu fechar os aeroportos a cães e gatos estrangeiros destituídos de chip (ou pelo menos de uma pequena tatuagem identificadora, para animais ainda afeitos à era analógica). A precaução, embora xenófoba, fazia sentido: como ter certeza de que o cachorro imigrante é mesmo o da carteirinha e não um embusteiro?

Três anos depois, a resolução chegaria aos trópicos. Em 2007, o microchip se tornou obrigatório para comercialização ou doação de qualquer cachorro ou gato na cidade de São Paulo. Em Belo Horizonte, na mesma época, decidiu-se microchipar os pit bulls para localizar seus donos em caso de encrenca (os donos, infelizmente, ainda não foram microchipados). No mês passado, a prefeitura de Curitiba anunciou a distribuição de 22 mil microchips a preço de custo.

Machado calcula que haja hoje 600 mil cachorros e gatos microchipados no Brasil, 80% deles com o produto da Animalltag. A preferência pela marca nacional se deve a dois fatores: assistência técnica próxima e banco de dados em português – só o veterinário pode atualizar o histórico dos cachorros on-line. O preço é o mesmo das duas empresas estrangeiras que engatinham no mercado: 50 reais, com direito ao implante. (Já o leitor, se não for doado, sai a 400 reais. Por ora, o chip ainda não pode ser lido no supermercado mais próximo.)

No último ano, a fábrica abriu sucursais na Colômbia e no Uruguai. (O sócio uruguaio também resolveu implantar o microchip em si mesmo. É o quarto na história da empresa – primeiro do alto escalão.) O desafio, como acontece em geral com produtos eletrônicos, é acompanhar a modernização. Já há em outros países microchips de 8 milímetros de comprimento, que cumprem a mesma função do nacional, que passa de 1 centímetro. Pelo menos por enquanto, Machado acha que seu chip está de bom tamanho. Aponta que ele pode substituir anilha em pássaro, placa de metal em tartaruga e até coleira em urso panda. No caso do pinscher Bob, o microchip encurtou sua jornada independente. Ao que tudo indica, o cachorro aprendeu a lição. Faz nove meses que Bob não ensaia nova fuga pelo portão.

Kelly Cristina

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