questões político-futebolísticas

Peixe no aquário

Romário é considerado um dos melhores deputados federais e está cada vez mais à vontade na política. Mas ainda não sabe se isso é bom ou ruim

Clara Becker
Em Brasília, Romário joga nas onze: vice-presidente da Comissão de Educação e Cultura, é vice da Frente Parlamentar de Defesa dos Direitos da Pessoa com Deficiência e diretor de Assuntos Esportivos e Acessibilidade da Frente Parlamentar da Atividade Física
Em Brasília, Romário joga nas onze: vice-presidente da Comissão de Educação e Cultura, é vice da Frente Parlamentar de Defesa dos Direitos da Pessoa com Deficiência e diretor de Assuntos Esportivos e Acessibilidade da Frente Parlamentar da Atividade Física ILUSTRAÇÃO: CÁRCAMO_2011

Um ônibus com 24 deputados federais e um senador deixou o hotel Holiday Inn, em Porto Alegre, às 10 horas de uma manhã de novembro e pegou a estrada para Canoas, nas imediações da capital gaúcha. O ônibus teve de fazer uma volta e passar primeiro pelo aeroporto para buscar um 25º parlamentar. O deputado federal Romário de Souza Faria não pôde chegar na véspera como os outros porque era a festa de aniversário de Rafinha, o quarto dos seus seis filhos, e a mãe do menino, da qual é separado, insistiu que ele comparecesse, apesar de o menino fazer anos só em fevereiro.

Romário cumprimentou seus colegas sem entusiasmo e logo se acomodou sozinho no fundo do ônibus. Fechou a cortina, pôs os óculos escuros e não largou o celular. Só tirou os olhos do aparelho quando o grupo começou a zombar de Francisco Escórcio, deputado federal pelo Maranhão, mais conhecido como Chiquinho, que discursava, de pé, perto do motorista. Um deles perguntou: “Seu Francisco, me diga uma coisa, esse seu traje é da Escolinha do Professor Raimundo, é?” Todos caíram na gargalhada, Chiquinho inclusive. Romário deu o primeiro sorriso do dia, levantou-se e puxou o coro: “Oida, oida, oida, Chiquinho hemorroida.”

“Olha a molecagem!”, disse o maranhense de volta. “Você mal chegou e já quer sentar na janela? Tem muita gente com calo na mão de tanto bater palmas para mim.” O ônibus parecia levar uma excursão escolar. O deputado Renan Filho sacou da mochila uma chuteira cor-de-rosa, um acessório da Barbie tamanho gigante, e de pronto foi chamado de maricas. Ele respondeu: “Foi o Jean Wyllys quem me deu. O Bolsonaro achou que é de viado.”

Ex-senador, ex-assessor especial de Renan Calheiros, Chiquinho foi demitido sob suspeita de espionar a oposição, é aliado histórico de Sarney e descobriu há pouco o apelo popular da pelada dos deputados, que ocorre às terças-feiras depois da sessão na Câmara. “Vi que podíamos tirar benefício político do cartaz de Romário, Popó e Tiririca”, contou.



Dito e feito: os Jogos da Solidariedade, que ele idealizou, são um sucesso. Neles, deputados federais e estaduais se enfrentam em partidas pelo Brasil afora e o dinheiro arrecadado é doado para instituições beneficentes. Agora, boa parte dos deputados quer levar o time para seus currais eleitorais. Já há mais de vinte solicitações de jogos. “Vamos ter que passar a sortear os lugares”, disse Chiquinho, que vislumbra uma carreira internacional para o time.

Daquela vez, os parlamentares jogaram em Canoas e em São Leopoldo, no Rio Grande do Sul. O anfitrião Marco Maia, presidente da Câmara, participou dos primeiros dez minutos de cada jogo. Apesar das ameaças (“Se não tocar a bola para o presidente, ele te tira da comissão! Tem que tocar pro presidente!”), ele estava fora de forma, simulou uma contusão e saiu de campo sem marcar gol.

Romário, o ex-pugilista Acelino “Popó” Freitas e os ex-jogadores Deley e Danrlei garantiram o público dos jogos. A partida seguinte, a convite do ministro Edison Lobão, de Minas e Energia, foi dali a duas semanas, em Imperatriz, no Maranhão. O ministro entregou o troféu aos vencedores.

Para participar dos Jogos da Solidariedade, Romário exige que a renda seja dada a instituições que ajudam pessoas portadoras de deficiência, uma de suas bandeiras no Congresso. Como é a principal atração, ninguém se opõe. “Entrei para a política com três temas bem definidos: defesa das pessoas com deficiência, combate às drogas e fiscalização da Copa do Mundo de 2014”, explicou. “Nada me tira do meu foco.”

Em Canoas, o ônibus fez duas paradas antes do jogo. Os parlamentares visitaram a Associação dos Pais e Amigos dos Excepcionais e o Instituto Pestalozzi locais. “Olha como o Romário já está com os olhos todos melados, ele sempre se emociona”, observou Sergio Petecão, senador pelo Acre. Ex-deputado federal, e ainda muito próximo à casa vizinha, ele é o único senador da equipe. Com 1,92 metro de altura, é um zagueiro avantajado.

“A gente vem aqui e lava a alma, esquece de todos os problemas de casa”, confessou, com uma criança no colo, o deputado Protógenes Queiroz, ex-delegado condenado pela Justiça e afastado da Polícia Federal. No campo, joga como lateral e tem a fama de tratar a bola por “Vossa Excelência”. Contudo, perde o posto de delegado para Popó, dupla de Romário no ataque, que “prende e não solta a bola”.  Protógenes atravessou um mundaréu de gente para que a criança que carregava, com dificuldades de locomoção, pudesse também tirar uma foto ao lado de seu ídolo, Romário.

“Vocês, mães, têm que pressionar os políticos”, explicou Romário para as dezenas de mulheres a sua volta. Chamou Marco Maia e disse: “Para essa viagem não ser em vão, os deputados que estão participando se comprometeram a destinar um pedaço da verba das emendas para essas instituições, não é, presidente?” Marco Maia acenou com um sorriso amarelo.

“Eu me vejo como uma voz lá dentro que representa os pais que têm filhos como eu tenho, eu sei do que eles precisam”, disse Romário. Logo depois do parto de sua sexta filha (de quatro mulheres), a caçula, médicos o puxaram de lado e avisaram que a menina havia nascido com alguma síndrome, ainda não sabiam qual. Romário segurou o choro, entrou no quarto e falou para a mulher, Isabella Bittencourt: “Papai do Céu nos deu um bebê especial.”

Quando soube que a filha, Ivy, era portadora da síndrome de Down, Isabella temeu ser abandonada pelo marido. “Infelizmente é o que acontece”, disse-me. Para sua surpresa, Ivy tornou Romário mais responsável, os dois são grudados. Ele diz que não pode decepcioná-la, quer que a filha sinta orgulho do pai.

O almoço antes do jogo, churrasco com cerveja, explica as barrigas salientes no time dos deputados. Romário ficou no guaraná e  comeu pouco. Mal sentava, e já levantava para tirar fotos e dar autógrafos. “Você vê? Está todo mundo aqui bebendo menos o Romário. Eu fui à tribuna defendê-lo e dizer que ele não bebe”, disse Chiquinho.

No discurso, Chiquinho referia-se a um domingo de julho, quando Romário foi parado na blitz da Lei Seca, no Rio. O deputado recusou-se a soprar o bafômetro, teve a habilitação apreendida por cinco dias, foi multado em 957 reais e responde a processo administrativo.

Um entre os mais de 300 mil seguidores de Romário no Twitter escreveu: “Essa lei não é feita para quem bebe, e sim para quem não pode pagar a multa. Você é muito safado.” Aconselhado a bloquear as pessoas que o criticavam, ele se recusou a fugir da briga. Deixando o decoro parlamentar de lado, o ex-jogador respondeu: “Vou respeitar a tua família. Safado é você e vai lá praquele lugar bem escuro…” E seguiu tuitando: “Aqui é o seguinte, rápido e objetivo: fala o que quer e muitas vezes vai ouvir o que não quer!”

Ao comentar o episódio, ele me disse: “Como qualquer cidadão, posso recusar o teste, e foi o que fiz e farei sempre: usar meu direito. Na opinião da imprensa, eu tenho que fazer o teste. Não fiz e não vou fazer.”

Em Canoas, no estádio da Universidade Luterana do Brasil, 2 mil torcedores aclamaram Romário. Apesar de ter afirmado que o mais importante é chamar atenção para as causas sociais, saiu de campo irritado com a derrota, por 3 a 2, contra os deputados estaduais gaúchos. Os dois gols dos federais, porém, foram marcados pelo ex-atacante que saiu ovacionado de campo. “Você já imaginou ver um estádio com milhares de pessoas aplaudindo políticos?”, perguntou, orgulhoso do seu feito.

Romário se disse “amarradão” com a política, por ter descoberto que, como deputado, pode fazer coisas que como ídolo de futebol lhe eram impossíveis. Além do quê, gosta da atividade. “Nessa minha ida agora ao México, senti a maior falta do Congresso”, disse. Ele passou duas semanas em Guadalajara, comentando os Jogos Pan-Americanos. Antes de ir, consultou as regras da Câmara e abriu mão do salário do mês de novembro, apesar de ter tirado duas semanas de licença.

“Não dependo desse dinheiro, são 26 mil reais”, disse. “Poderia estar ganhando muito, muito mais. O importante não é o quanto ganho, o importante é o que estou fazendo”, disse Romário. A soma dos benefícios mensais como deputado (60 mil reais de verba de gabinete e 3 mil em auxílio-moradia) é marginal diante do patrimônio do jogador.

No final de 2008, Romário e Marcos Antônio Teixeira se encontraram no Balada Mix, uma casa de sucos na Barra da Tijuca. Piauiense radicado no Rio, com experiência de vinte anos na política, Teixeira era filiado ao Partido Socialista Brasileiro, o PSB. A pedido de um amigo, tentou convencer o ex-jogador a se candidatar. Romário lhe disse que tinha três medos: de desgastar a imagem, do custo da campanha e de uma derrota.

Numa tarde recente, no café Odeon, no Centro, Teixeira contou que, depois daquela conversa, encomendou uma pesquisa quantitativa e qualitativa para avaliar a candidatura dele. “Popularidade não se traduz necessariamente em voto, e eu queria uma avaliação científica”, disse Teixeira, que é formado em ciências políticas pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

A pesquisa trouxe surpresas. O fato de Romário ter fama de marrento era visto de maneira positiva. “As pessoas o viam como alguém que fala a verdade, põe o dedo na ferida”, disse Teixeira. O futevôlei na praia tampouco lhe trouxe fama de vagabundo. Pelo contrário, era visto como um homem com atitude, que faz o que quer. “As visões positivas sempre suplantavam as negativas”, disse.

Alexandre Cardoso, presidente do PSB do Rio, foi um dos primeiros entusiastas da candidatura, e batalhou por ela. “Meu convencimento foi mostrar que ele poderia usar esse sentimento, que é dele, para o bem, para ajudar os menos favorecidos”, disse Cardoso. “O Romário é movido por emoção, ele faz as coisas por amor.”

O partido viu em Romário uma forma de se popularizar sem ser assistencialista. “Um terço da população do Grande Rio é analfabeto funcional, e nós precisamos de uma liderança para chegar nessas camadas, às quais as igrejas e milícias têm acesso”, disse Cardoso. “O Romário é completamente diferente do Tiririca, ele leva o processo político para as massas”, completou.

Ao se convencer de que as chances de vitória eram grandes, Romário aceitou a empreitada. A primeira atividade de campanha foi panfletar, às cinco e meia da manhã, na Central do Brasil. “Eu queria ver se ele ia mesmo acordar de madrugada”, disse Teixeira. “E também queríamos mostrar que a candidatura era para valer, os trabalhadores tinham que ver que ele não estava de oba-oba.” No dia seguinte, na mesma hora, embaixo de chuva, Romário pedia votos nas barcas que ligam o Rio a Niterói.

Muitas favelas, morros, mercados, municípios carentes, lágrimas e 12 quilos mais tarde (sem tempo para se exercitar, terminou a campanha pesando 86 quilos), Romário foi o sexto deputado federal mais votado no Rio, em 2010. Teve 146 859 votos. Marcos Antônio Teixeira virou seu chefe de gabinete.

Em Brasília, Romário foi sorteado com o gabinete 825. Além de ser maior do que os outros, e ter banheiro privativo, o gabinete fora ocupado por Luiz Inácio Lula da Silva, em 1988. Romário não gostou, queria um gabinete que terminasse com o número 11, não o do ex-presidente. Não foi difícil conseguir a permuta com Romero Rodrigues, do PSDB, que ocupava o 411.

As primeiras semanas no Congresso foram de sofreguidão. A pergunta “O que eu estou fazendo aqui?” lhe passou algumas vezes pela cabeça. “As comissões ainda não estavam formadas e só tinha o plenário, e o plenário é o lugar mais chato que tem naquela casa, dá sono, ninguém presta atenção em nada.” No início ele ficava calado, observando. “Quando comecei a me comunicar já estava afiado: sabia a quem chamar de líder, presidente ou Excelência”, completou Romário, que costuma chamar todo mundo de “peixe” ou “parceiro”.

Vice-presidente da Comissão de Turismo e Desporto, foi suplente da Comissão de Educação e Cultura, é vice da Frente Parlamentar de Defesa dos Direitos da Pessoa com Deficiência e diretor de Assuntos Esportivos e Acessibilidade da Frente Parlamentar da Atividade Física. No primeiro ano ele discursou onze vezes no plenário, relatou três matérias, apresentou 48 projetos e aprovou duas emendas à Medida Provisória 529, que muito indiretamente tratava de deficientes. Sua atuação lhe rendeu o sexto lugar no Prêmio Congresso em Foco, no qual jornalistas que cobrem o Congresso indicam 25 deputados e depois a votação é aberta ao público.

“Só se surpreende quem não conhece essa minha capacidade de conseguir o que eu quero”, disse. “Tem muito deputado que está aí há três, quatro mandatos e não aprovou uma vírgula. Eu, em sete meses, consegui aprovar duas emendas. Não estou aqui simplesmente por estar, quero marcar, fazer uma coisa diferente.”

Ambas as emendas propostas por Romário ampliam direitos a portadores de deficiência. Para aprová-las, perguntou aos assessores quem teria de perturbar para alcançar seu objetivo. Seguiu à risca as orientações: explicou para cada líder de partido, na Câmara e no Senado, os benefícios que seriam conquistados pelas milhões de pessoas com alguma deficiência. Humildemente, tomou horas de chá de cadeira, fingiu achar graça de muitos comentários futebolísticos, visitou o Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, a Casa Civil e o presidente da Câmara mais de uma vez, além de ter se reunido amiúde com associações e movimentos simpáticos à causa, aos quais pedia que pressionassem o governo.

Conseguiu aprovação das emendas por unanimidade, com direito a um mar de elogios, inclusive da oposição. “Nós, que quase sempre comparecemos à tribuna para denunciar a inconstitucionalidade de medidas provisórias e anunciar o voto contrário do nosso partido, hoje temos a satisfação de fazer exatamente o oposto: anunciar que o nosso partido aprova essa medida provisória”, discursou o senador Alvaro Dias quando a questão foi votada. “Creio que é fazer justiça destacar a atuação do deputado Romário, essencialmente voltada para oferecer dignidade aos portadores de deficiência.”

No plenário do Senado, Romário baixou a cabeça e, apoiando-a entre as mãos, mais uma vez chorou. “Foi uma das grandes emoções da minha vida”, contou. “Foi um jabuti do bem”, disse, mostrando familiaridade com o jargão político. As emendas jabuti são as alheias ao texto original de medidas provisórias.

“Ao Romário a gente tem que pedir para ir mais devagar”, disse Teixeira. “Ele é muito ansioso, cobra projetos de lei para apresentar, se irrita com muita conversa e pouco resultado. Aos poucos, está percebendo que a essência do Parlamento é parlare. O processo democrático é em slow-motion, não tem jeito.”

No plenário, de fato, o seu comportamento destoa da maioria. Tem dias que Romário cumprimenta os colegas, conversa e é simpático. Noutros, senta-se sozinho ao fundo e não fala com ninguém. “Eu não tenho obrigação de rir para as pessoas”, explicou Romário. “Tem dias que você acorda bem, às vezes não. Não é que eu seja marrento, tenho personalidade.”

Simpático ou não, leva a sério o trabalho. Até a ida ao México, tinha 100% de presença no plenário e quase o mesmo nas sessões na Comissão de Turismo e Desporto. Quanto às fotos jogando futevôlei na praia em dias de sessão, logo na primeira semana como deputado, ele disse o seguinte, irritado: “Isso aí é um equívoco, não tinha nada de errado. Era dia de sessão, mas eu estava liberado. Entendeu?”

Ele capricha no vernáculo. Confere com seus assessores a ortografia (“Lazer é com s ou z?”), não abrevia mensagens de texto no celular e faz questão de escrever todas as palavras por extenso. Seus discursos são escritos a várias mãos. “Eu leio várias vezes, para ter certeza de que o Romário está ali, que não mudaram a minha personalidade”, disse Romário. “Sou do povão e meu linguajar não é rebuscado.”

No ônibus entre Porto Alegre e São Leopoldo, no dia seguinte ao jogo de Canoas, Romário lia Uma Vida com Propósitos: Você Não Está Aqui por Acaso, do pastor Rick Warren. Na mochila, também carregava A Arte da Guerra,de Sun Tzu, que tinha frases sublinhadas e observações anotadas nos cantos das páginas. Influenciado pela mulher (“evangélica de verdade”), contou que nos últimos dois anos se dedicou ao estudo da Bíblia: “Se não li toda, foi quase toda.”

Estava cansado: na noite anterior, caíra na farra com os colegas. “Eu sempre curti noitada e acho que vou curtir até morrer”, disse Romário. “Só que hoje eu curto de uma forma diferente: mais tranquila, menos vezes. Antigamente, saía muito; hoje, a cada quinze dias eu dou uma saída. Também sou mais fiel, mas quem não quiser acreditar não precisa.”

Desde tenra idade, ele foi mulherengo assumido. Na escola, namorou Elaine dos 13 aos 18 anos, mas nesses cinco anos ficou com quase todas as outras meninas do colégio. Perdeu a virgindade aos 14, com Katia, enquanto namorava Elaine. A primeira vez que foi cortado da Seleção, em 1985, no Campeonato Mundial de Juniores, foi pego mexendo com meninas postado na janela do hotel, em Copacabana, onde o time estava concentrado.

Daí em diante, namoros e noitadas de Romário foram uma constante nas manchetes de jornais esportivos. Em 1994, jogando no Barcelona, foi flagrado na farra, na véspera da semifinal da Liga dos Campeões. Declarou aos jornais, no espanhol que ainda mantém: “Si no salgo de noche, no meto goles.” Indomável, conseguia privilégios como não treinar pela manhã ou trocar gols por folgas.

Ele nasceu na favela do Jacarezinho, na Zona Norte do Rio, no ano de 1966. Por causa de suas crises asmáticas, os médicos aconselharam que dona Lita e seu Edevair se mudassem com o filho. Foram então morar na Vila da Penha. Dona Lita lavava e passava roupas para fora. Sem dinheiro para condução, fazia as entregas a pé. Romário e Ronaldo, seu irmão mais novo, ajudavam-na. Também ajudavam o pai, que trabalhava numa loja de tintas e, de noite, tomava conta da birosca que construiu no quintal de casa para complementar a renda. Os irmãos se revezavam, cada noite era um, acompanhando a jogatina que durava até o alvorecer. Iam virados para o mercado de frutas, onde descarregavam caminhão de melancia das cinco às sete da manhã. De lá, seguiam para a escola.

No livro Romário, de Marcus Vinicius Rezende de Moraes, Ronaldo contou que, durante um período, no caminho da escola, um sujeito esperava por Romário e batia nele. A mãe ficou muito preocupada. Um dia, Ronaldo foi junto, viu o agressor, pulou em cima dele e os dois rolaram rua abaixo. O agressor bateu com a cabeça no asfalto e ficou desacordado. “Passei a levar meu irmão para o colégio e confesso que cheguei a ir armado com um revólver 22 do meu pai”, conta o irmão no livro. “Esse fato marcou muito Romário, que durante bom tempo sonhava com as manhas do agressor.”

Quando não estavam trabalhando, ou fazendo travessuras como roubar galinhas para incrementar o almoço, Romário e Ronaldo jogavam futebol. Seu Edevair montou o Estrelinha, time do bairro, como recompensa aos meninos por terem passado de ano. Do Estrelinha, Romário foi para o Olaria, e de lá para o Vasco. Passou pelo Flamengo,  Fluminense, América e, no exterior, jogou no holandês PSV, nos espanhóis Barcelona e Valência. Teve passagem-relâmpago, porém milionária, pelo Al-Sadd, do Catar. Os jogos pelo Miami FC e pelo australiano Adelaide United contribuíram para que completasse os mil gols. Por onde passou, esteve envolvido em celeumas.

Em 2008, se aposentou dos gramados. Fora do campo, tentou ser técnico do Vasco e empresário, até que se elegeu deputado. “Fui jogador, mas não fui atleta, e hoje sou deputado, mas não sou político”, explicou. “Não quero fazer carreira política. Estou dando tudo o que eu tenho nesse mandato. Depois paro”, disse.

Quando perguntado se não é contraditório dizer que pretende parar em 2014 e pôr o nome à disposição do PSB para concorrer na próxima eleição a prefeito do Rio, respondeu: “Presta atenção, qualquer mandato é de quatro anos. Vamos supor que houvesse mesmo essa oportunidade de me candidatar à prefeitura. Em vez de parar em 2015, eu pararia em 2016. Dois anos a mais ou a menos não fazem diferença. Entendeu?”

De fato, ele se animou com a ideia de ser candidato à prefeitura. Mas Alexandre Cardoso jogou-lhe um balde de água fria, dizendo que o PSB apoiará a reeleição de Eduardo Paes. “Não fiquei magoado, entendo que o partido já tenha uma coligação”, disse Romário.

Durante os quase 40 quilômetros que separam Porto Alegre de São Leopoldo, Romário manteve os braços cruzados em frente ao peito, as mãos segurando as axilas e as pernas balançando. Ao chegar ao destino, os outros deputados chamaram sua atenção: “Abre a cortina, Romário, o povo quer te ver.”

Antes de descer do ônibus, Romário deixou avisado: “O Jérôme [Valcke, secretário-geral da Federação Internacional de Futebol, a Fifa] vai terça lá no Congresso. Vou bater nele doído, não vai sobrar nada. Ele disse que Romário ou deputado nenhum vai vencer a Fifa. Acredita? Vou botar ele e o Ricardo Teixeira no lugarzinho deles.”

Depois, ele me explicou: “Eles estão de piada, é uma questão de soberania do povo, está na nossa lei. E a Fifa não quer? A porra é federal, amigo. Essa é minha briga, digo, minha luta.” Ele garante não ter guardado remorsos de 2002, quando Ricardo Teixeira lhe garantiu que seria convocado para a Copa, e ele não foi.

Naquele domingo, Romário deixou o jogo no intervalo e foi para o Rio. Na segunda, pegou o voo das seis da manhã para estar às nove na Assembleia Legislativa de São Paulo. Era a última das doze cidades-sede a serem vistoriadas pelo Fórum Legislativo da Copa 2014, que fiscaliza o torneio. Em todas as cidades cumpre-se o mesmo ritual: primeiro um encontro com a Assembleia local, seguido de um almoço com o governador e o prefeito e, por último, visitas às obras do estádio e aeroportos.

A avaliação final de Romário foi a seguinte: “No PowerPoint, tudo é maravilhoso. Eu já tenho ideia do que vai acontecer, eles vão fazer uma maquiagem para receber o povo. Alguns estádios não vão ficar prontos.” Por onde passou, falou sobre o excesso de gastos e a ausência de legado para a sociedade.

Na terça-feira, dia 8 de novembro, a audiência pública com Ricardo Teixeira e Jérôme Valcke estava marcada para as nove da manhã. Teixeira e Valcke chegaram uma hora depois, acompanhados por Marco Maia. Romário chegou às dez e meia, com um papel com sete perguntas na mão. Estava acompanhado por Afonso Morais, um jornalista do PSB especializado em esportes. “Romário pede que tudo seja documentado”, disse Morais. “Absorve rápido, decora tudo e contesta informações. Eu não imaginava que ele ia tão fundo.”

Ao saber, ainda em Guadalajara, que o requerimento da audiência havia sido aprovado, Romário ligou para Morais e disse: “Eu sei que o Ricardo Teixeira não presta e o cidadão tem direito de saber disso também. Temos que mostrar com quem o governo brasileiro está se envolvendo.” Em conjunto, os dois elaboraram as perguntas aos cartolas.

A frase de abertura do jogador não estava escrita, e surpreendeu Morais: “Eu não tenho interesse particular ou pessoal em travar batalha contra a Fifa. Como deputado federal, fui votado e legitimado para estar aqui na minha cadeira, ao contrário do senhor nessa sua. Eu vou lutar até onde puder para que a Fifa não monte um Estado dentro desse Estado.”

Em seguida afirmou ter em mãos uma carta na qual Joseph Blatter, o presidente da entidade, dizia que Valcke não passava de um chantagista. Contou que dois anos após a carta Valcke fora contratado para ser dirigente de marketing da Fifa. Depois, foi demitido quando a entidade trocou a Mastercard pela Visa, que passou a patrocinar o futebol mundial. Passaram mais seis meses e Valcke foi readmitido num cargo mais alto, o de secretário-geral. Lendo do papel, balançando as pernas, só então Romário fez a primeira pergunta: “Joseph Blatter teme o senhor por causa disso?”

Quando começava a segunda pergunta, o deputado federal Renan Filho alertou que os três minutos aos quais ele tinha direito haviam se esgotado. Romário ficou irritado. “Mas com apenas mais um minuto não conseguirei”, exclamou. E perguntou a Ricardo Teixeira: “O senhor prometeu que os estádios da Copa seriam erguidos apenas com dinheiro da iniciativa privada. Não é o que se vê, infelizmente, diante do investimento do governo federal. O que aconteceu? Não houve planejamento entre a CBF, a Fifa, o Ministério do Esporte e o Comitê Organizador Local, que o senhor também preside?”

E insistiu: “O senhor depôs na Polícia Federal sobre denúncias de pagamento de suborno a dirigentes da Fifa. O senhor recebeu propina? Se o seu nome aparecer no processo, o senhor renunciará à presidência da CBF e ao COL?”

Dirigiu-se novamente a Valcke: “O que o senhor acha de ter como interlocutor no governo brasileiro alguém com tantas suspeitas como o doutor Ricardo Teixeira?”

Romário foi mais uma vez interrompido por Renan Filho, e disse: “Posso fazer uma última colocação? Eu não recebo dinheiro da Fifa e de nenhum dos patrocinadores da Copa.” Ele se referia à “bancada da bola”, os parlamentares que têm campanhas bancadas por cartolas, quando mais uma vez foi interrompido.

Antes de passar a palavra a Ricardo Teixeira, Renan Filho disse que, segundo o regimento interno, os convidados só precisam responder às questões diretamente relacionadas à Lei Geral da Copa.

No dia seguinte, Romário combinou que ajudaria a escrever um documento ao governo suíço, pedindo que abra o processo contra a Fifa, que corre em sigilo. O material será entregue, em mãos, ao ministro da Justiça, Eduardo Cardozo. “Eu só tinha a perder na política e hoje sou respeitado pelos outros deputados como um político atuante”, ele me disse. “Estou a cada dia mais à vontade com a política, mas não sei se é bom ou ruim.”

No final do ano, no dia 16 de dezembro, Romário foi ao Comitê de Organização Local da Copa, no Rio, encontrar-se com Ricardo Teixeira e Ronaldo Fenômeno, recém-nomeado membro do Conselho Administrativo. O deputado disse ter aceito o convite porque queria entender as funções de Ronaldo no col. Dias antes, havia recomendado a Ronaldo que fizesse uma auditoria na entidade para se resguardar de irregularidades que tenham ocorrido antes de sua gestão. Na imprensa, o encontro pareceu ser uma reconciliação de Romário com Ricardo Teixeira. De fato, ele saiu contente, e disse que em breve anunciaria mais uma conquista envolvendo os interesses de pessoas com deficiência. Garantiu, contudo, que não se compôs com Teixeira. “Quem é do bem não vai se decepcionar”, disse Romário.

Clara Becker

Clara Becker é jornalista e vive no Irã. É coautora dos livros The Football Crónicas e Los Malos

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