esquina

Pequenos voyeurs

Por que os aficionados por games passam tanto tempo no YouTube

Bernardo Esteves
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2013

João Vieira tem 12 anos e dois videogames. O Nintendo Wii fica em seu quarto e o PlayStation 2 é conectado à tevê da sala de estar de seu apartamento no Rio. Nas férias de verão, os dois consoles ficaram ociosos. E não é porque o menino perdeu o interesse por jogos. Pelo contrário, ele nunca dedicou tanto tempo a esse hobby. Ultimamente, porém, João tem preferido ver outros jogadores em ação.

O brinquedo que ele mais usou nos últimos meses é um minicomputador portátil vermelho. É com ele que o rapaz acessa o YouTube, no qual visita canais de jogadores experientes, uma febre entre meninos da sua idade. João pode passar horas a fio vendo os vídeos em que eles narram partidas difíceis, ensinam como acessar passagens secretas e superar fases complicadas. “Depois que descobriu esses vídeos ele quase não joga mais”, disse seu pai, perplexo. “Agora só quer saber desse voyeurismo virtual.”

Entre os amigos de João, os vídeos que mais fazem sucesso tratam do jogo Black Ops 2, no qual agentes americanos tentam capturar um narcoterrorista da Nicarágua. Em seu encalço, o protagonista vai abatendo a tiros todos que se interpõem em seu caminho.

Nos vídeos sobre o Black Ops, João aprendeu a escolher armas apropriadas para cada situação do jogo. “Gosto de pegar as submachine guns ou os assault rifles”, ele contou, familiarizado com os nomes em inglês. “A sniper eu uso muito de vez em quando, se estou parado num lugar fechado, mirando nas pessoas. Já as shotguns são boas para atirar de perto, quando você já está vendo o alvo.”



João aprendeu esses macetes vendo os vídeos postados por BRKsEDU, dono de um canal do YouTube seguido por 563 mil usuários e cujos vídeos já foram visualizados 55 milhões de vezes. Com ele, João aprendeu a passar de uma fase na qual já perdera inúmeras vidas – uma batalha em que tinha que dizimar adversários espalhados numa pequena frota. Ele explicou o truque: “Você tem que pular do helicóptero e matar as pessoas no barco. Depois, assume o controle e mata os barcos inimigos com uma bazuca.”

 

Fora do YouTube, BRKsEDU é conhecido pelo nome de Eduardo Benvenuti. Nascido em São Paulo, ele tem 27 anos e mora desde o começo de 2012 em Hamilton, no Canadá, onde foi estudar marketing. Sua central de produção de vídeos é uma mesa em “L” na qual ficam dispostos quatro videogames, um computador de mesa e um laptop com acessórios para filmar a tela ao mesmo tempo que ele joga.

Benvenuti é fanático por videogames desde que se entende por gente. Já teve doze consoles, sem contar os jogos portáteis. Na sua infância, quando queria aprender dicas e se informar sobre os últimos lançamentos, ele comprava revistas especializadas. Com a popularização da internet rápida e das mídias sociais, esse nicho passou a ser ocupado por vídeos amadores produzidos pelos próprios usuários. Foi inspirado nos canais que ele acompanhava em inglês que Benvenuti decidiu publicar seus vídeos em novembro de 2010. A princípio, o canal era para ser apenas um hobby. “Nunca imaginei que fosse possível viver disso”, contou ele numa entrevista recente.

Meses depois, Benvenuti decidiu procurar a Machinima – uma empresa que agrega vários canais de vídeos sobre games, negocia a publicidade diretamente com o YouTube e remunera os autores de acordo com o número de visualizações. Benvenuti levou a eles números sobre o mercado brasileiro de games e mostrou como a audiência de seu canal vinha crescendo. “Eles já mandaram um contrato junto com a resposta”, contou. O paulistano passou a integrar o time de parceiros da empresa em maio de 2011 e chegou a ser o recrutador de canais em língua portuguesa para a Machinima.

BRKsEDU já publicou quase 800 vídeos em seu canal, cerca de um por dia. É um dos mais populares youtubers brasileiros – é assim que são chamados os autores de vídeos para a internet. Quando vem ao Brasil, é reconhecido nas ruas pelos fãs e não se nega a tirar fotos e parar para conversar. Em janeiro, seus vídeos foram visualizados cerca de 5 milhões de vezes. A audiência lhe garante um rendimento de quase 20 mil reais mensais. “Mas mesmo um canal médio consegue tirar uns 5 mil por mês”, estimou.

 

BRKsEDU não sabe ao certo a idade dos seus fãs. As estatísticas do YouTube indicam que a metade tem entre 13 e 24 anos. Mas como é preciso ter ao menos 13 para criar uma conta no portal, muitas crianças mentem sobre a idade. E os números também não levam em conta os usuários que veem os vídeos sem se cadastrar.

É o caso do mineiro Felipe Castro, de 8 anos – outro que passou a jogar bem menos depois de descobrir os vídeos. Num sábado chuvoso recente, ele ficou o dia inteiro vendo o YouTube. Seus vídeos preferidos mostram dicas de Minecraft – um jogo em que os usuários coletam materiais para criar ferramentas e construir estruturas para se defender dos animais e monstros que povoam um mundo virtual.

O canal predileto de Felipe é o de Venom Extreme, o mais popular autor de vídeos sobre games da internet brasileira, com mais de 1 milhão de seguidores. Num desses vídeos, Felipe aprendeu a criar uma ponte invisível protegida por senha. “Você faz os blocos ficarem invisíveis, constrói a ponte, depois coloca lava e os bichos não conseguem mais passar”, explicou.

Em fevereiro, uma busca no YouTube por vídeos sobre Minecraft retornou mais de 9 milhões de resultados. Para Felipe e outros fãs, ver os vídeos é parte da experiência do jogo. “Sem o YouTube, o Minecraft não existe.”

Bernardo Esteves

Repórter da piauí desde 2010, é autor do livro Domingo É Dia de Ciência, da Azougue Editorial

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