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    ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL

esquina

Perdidos em Jaboticabal

Ou: Pode me dizer onde fica Órion?

Tomás Chiaverini | Edição 45, Junho 2010

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A cidade tem poucos sinais de trânsito. Um deles está verde neste momento, mas o Peugeot 207 vermelho que puxa a fila não sai do lugar. Ao volante da carroça, metido em seu impecável macacão anil ornado com insígnias e bandeirinhas, está o astronauta Marcos Cesar Pontes. Lembra-se dele? O homem já testou aviões que fazem galhofa das leis da física, elaborou planos de voo em russo e configurou softwares para ônibus espaciais. Em março de 2006,ganhou os proverbiais minutos de fama ao passardez dias em órbita (oito deles na estação espacial internacional), tornando-se o primeiro e único brasileiro a ir literalmente para o espaço. Mas as galáxias não são Jaboticabal, e esse arruamento do interior de São Paulo lhe propõe mais enigmas do que a nebulosa de Órion.

A assessora do astronauta se adianta para acionar o GPS, mas, do banco traseiro, o rapaz que os recepcionara no hotel assume a responsabilidade da missão e aponta o caminho. Minutos depois, desembarcam na garagem do teatro da cidade.

Pontes logo se vê apertando uma dezena de mãos desconhecidas. Sorri, distribui cartões de visita em inglês – Astronaut. Brazilian Space Agency Liaison – e se deixa conduzir até o camarim. Na saleta atrás do palco, senta-se num velhusco sofá de veludo marrom, mas logo se levanta para apertar a mão de algumas personalidades locais – o coordenador da faculdade que o convidou, o diretor do teatro e o representante do prefeito (que pede desculpas pela ausência do chefe). Alguém lhe oferece sanduíches tristíssimos e biscoitos recobertos por um elemento pastoso assemelhado à goiabada. Felizmente o astronauta não costuma comer à noite (evita refluxos).

“O que o senhor acha de Deus e qual o sentido da vida?”, quer saber o repórter de uma rádio local, espetando-lhe o gravador no rosto. Pontes não se abala diante de uma pergunta que já derrubou gente graúda, de Platão a Pascal: “Apesar da insignificância da Terra e do ser humano perante o universo, essas coisas são muito especiais. É a nossa Terra, é o nosso lar, e com ele cada pessoa também é como se fosse um universo de importância.” Todos tiram fotos.

Às 20 horas em ponto, o velho auditório começa a trepidar sob os acordes de Assim Falou Zaratustra, que será para sempre o tema de 2001, Uma Odisséia no Espaço e nunca mais o poema sinfônico de Richard Strauss. No telão, surgem corpos celestes que, em edição sagaz, misturam-se ao corpo terrestre e heroico do astronauta em ação. O auditório de 600 lugares está praticamente lotado. Movida pelo ingresso acessível (um quilo de alimentos não perecíveis) e sabe-se lá por que outros motivos, a juventude jaboticabalense compareceu em peso.

A música cessa e Pontes surge detrás das cortinas, cheio de sorrisos e acenos em retribuição aos aplausos calorosos. Com 1,68 metro, o astronauta não chega à altura esperada de um herói nacional, isso sem falar na barriguinha, para a qual ele tem explicação. A culpa é da viagem ao espaço, que provocou um desequilíbrio hormonal. Quando ele voltou à Terra, emagreceu até ficar praticamente pele e osso, e agora o tratamento o fazia engordar. A missão também lhe rendeu alergias e um sangramento ocasional nos ouvidos.

 

“Boa noite! Tudo bem?”, exclama ao microfone. À vontade, dá uns passos até o proscênio, apoia o pé na ribalta e, sempre sorrindo, fala do prazer de estar ali e do propósito da palestra: “Meu objetivo é mostrar que é possível. É possível você atingir e realizar qualquer coisa que você queira na vida, seja lá quais forem os seus planos.” O sorriso se alarga. “Tudo nasce com um sonho, e todo mundo sonha. O problema é que, ao longo da vida, a gente vai esquecendo disso, vai deixando acumular poeira em cima, liga no automático. Então, hoje vai ser essa ideia também: de que a gente tire essa poeira dos sonhos.”

Para alívio dos impacientes que já sonhavam em ir embora, dura pouco o introito de autoajuda. Em seu lugar, entra a história do garoto pobre de Bauru que se tornou piloto de caça, depois engenheiro formado pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica, depois viajante das estrelas. Em 1998, ele foi enviado aos Estados Unidos com a tarefa de se tornar astronauta. Tudo ia bem, mas então o ônibus espacial Columbia se desintegrou sobre o Texas. Esse acidente, ocorrido em 2003, desencaminhou os planos do governo brasileiro. Decidiram enviá-lo à Rússia, onde ele chegou no final de 2005. Teve cinco meses para aprender os rudimentos do idioma de Gagarin e, simultaneamente, familiarizar-se com o jeito russo de voar. No dia 29 de março de 2006, qual um coiote sideral à caça do Papa-Léguas, Pontes se atou à ponta de um míssil e partiu rumo à fronteira final. O Brasil inteiro se orgulhou.

O astronauta conta coisas muito interessantes – por exemplo, como se faz para ir ao banheiro no espaço (usa-se uma espécie de ordenhadeira) ou para dormir sem gravidade (você se enrola num saco de dormir preso com velcro na parede) – e oferece dicas preciosas aos que sonham com um futuro brilhante: “A sua essência é o que você é! Então, seja você mesmo.”

Na sequência, fala das críticas por ter passado para a reserva da Força Aérea dois meses depois do retorno à Terra. Acusaram-no de desperdiçar os 10 milhões de dólares investidos na missão para lucrar com a condição de civil, cobrando até 40 mil reais por palestra. (A de Jaboticabal, promovida pela Universidade Estadual Paulista, foi de graça.) Nessa hora, ele para de sorrir. Não, não foi dinheiro jogado fora. Graças a uma das experiências que ele fez no espaço, o Brasil pôde desenvolver um sistema próprio de resfriamento de satélites. Quanto à reserva, ele explica, em qualquer parte do mundo os astronautas são civis. Passar o tempo num macacão cor de anil distribuindo sorrisos cintilantes não condiz com o austero etos militar. Tudo o que ele fez foi feito de comum acordo com seus superiores. Hoje ele mora em Houston, onde é representante técnico da Agência Espacial Brasileira.

Com precisão de relógio da Nasa, a palestra termina às 22h30. Mais fotos, mais autógrafos e mais apertos de mão, mas agora chega, porque os heróis também se cansam. Com as bochechas doloridas de tanto sorrir, Pontes assume o comando do Peugeot vermelho. Vai dando ré devagar, com calma, para que as retinas atordoadas pelos flashes se acostumem à escuridão.

– Marcos, olha o retrovisor! – É a assessora gritando, graças ao que evita por um fio que ele trombe com a parede. – E agora? – ela pergunta. – Você sabe voltar para o hotel?

Experimentado em navegação espacial, o astronauta dá um palpite:

– Melhor ligar o GPS.