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Piauí em Paris

Príncipes, best-sellers e Pierre Cardin encontram Teresina na Champs-Elysées

Fernando Eichenberg
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2007

– Où est le prince? Où est le prince? “Onde está o príncipe?”, brada a dama num fim de tarde parisiense, enquanto força passagem numa sala do Espace Pierre Cardin. É a primeira coisa que todos queriam saber ao chegar à exposição de fotografia do príncipe d. João de Orleans e Bragança, em março, na galeria encravada entre a avenida des Champs-Elysées e a place de la Concorde, nas imediações da vigiadíssima embaixada dos Estados Unidos.

Com sua sabedoria alquimista, o escritor Paulo Coelho, parisiense ocasional, chegou antes das 18 horas, horário impresso no convite, quando ainda se podia transitar no local sem trocar cotoveladas com a nobreza furreca. Colada nele, anotando cada palavra, está uma jornalista da revista The New Yorker. Sua missão: seguir os passos do peregrino best-seller durante dez dias. “É o Brasil! É o Brasil! Fantástico! Nota dez!”, exclama Coelho ante as imagens piauienses penduradas na parede. Ao passar a outra sala da exposição, avisa de pronto à repórter-sombra: “This is not Brazil!“. É o Egito.

Em sua primeira grande exposição no exterior, Orleans e Bragança resolveu exibir retratos que tirou do Piauí e do oásis de Siwa, no país das pirâmides. “Piauí em Parrí”, brinca d. João, com a rima e com o inusitado da situação. De jeitão simples e acariocado, o príncipe, tataraneto de d.Pedro II e bisneto da princesa Isabel, destoa dos convivas no quesito vestuário. A ala masculina passeia suas bengalas lavradas e seus lenços coloridos ao redor do pescoço. Colares de pérolas, longas luvas brancas e véus de rendas delicadas ornamentam as damas. Vestido em traje menos fino, sem terno, gravata ou brasões, d. João conta que gosta mesmo é das suas botas Zebu, de 28 reais o par.

“Piauí”?. Mais qu’est-ce que c’est, mon Dieu?

É a segunda coisa que se precisa saber. “Piauí? Nunca fui”, diz sem rodeios o mecenas da exposição, o empresário Pierre Cardin. Suas numerosas viagens ao Brasil tiveram outros destinos. Numa delas, faz questão de relembrar, desembarcou no país para participar do filme Joana Francesa, de Cacá Diegues, junto com a atriz Jeanne Moreau, com quem se embriagava nas cálidas noites da orla carioca. Brasil, para ele, evoca joie de vivre, bon vivant, nostalgie e “solidao”, diz, num português com sotaque acentuado. Anfitrião bastante solicitado, encerra gentilmente a conversa: “É um prazer oferecer esta exposição a monseigneur“.

Monseigneur“, título de tratamento usado para membros da alta aristocracia, é a palavra que mais se ouve. Entre um monseigneur pra cá, um monseigneur pra lá, e a caipirinha rolando solta, os recém-chegados tomam conta dos 460 metros quadrados do salão no andar de cima. “Os donos daqui disseram que nunca teve tanta gente no Espace Pierre Cardin”, informa d. João. Entre os que atenderam ao convite estão o príncipe árabe Karim Aga Khan, a irmã de Jacqueline Kennedy, Lee Radziwill, e quatro representantes da família Orleans: o conde de Paris, Henri d’Orleans, Chantal d’Orleans e os gêmeos Jacques e Michel d’Orleans. Mesmo contente com o sucesso da soirée, o cicerone demarca suas diferenças com o habitat: “Sou muito eclético. Danço conforme a música. Conheço o jet set, mas essa não é a minha praia”. Para ele, as revistas de celebridades deveriam exibir ganhadores do Nobel, presidentes de ONGs, professores. “Quando me falam que fulana é modelo, eu pergunto: modelo de quê? É um modelo de advogada? De veterinária? De cientista?”

Na semana do vernissage, a revista de celebridades Point de Vue dedicou seis de suas páginas a d. João. Numa foto de meia página – em que ele aparece de cara pintada, ao lado de índios da Amazônia -, definiu-o como um “explorador humanista”. Mesma imagem usada pelo jornal português Expresso, acompanhada do título “Um príncipe perfeito”. Na exposição, o príncipe trata de explicar aos interessados aquilo que o motiva: “Sempre viajei para lugares fora de mão, sempre quis conhecer identidades. Uma pessoa com identidade é uma pessoa rica. Fico fascinado quando vou num lugar muito longe e vejo um casebre humilde e cheio de identidade”.

Fascinada estava também a baronesa Sílvia Amélia de Waldner. Enquanto oferecia amostras de seus conhecimentos do interior do Brasil, comentava que as fotos de d. Joãozinho haviam lhe mostrado uma grande lacuna em suas itinerâncias. “Preciso ir ao Piauí”, dizia. A baronesa preencheu um cheque de 900 euros para adquirir uma fotografia. Não escolheu uma imagem da Serra da Capivara, do Delta do Parnaíba, ou de Piripiri. Levou para casa (ela mora em Paris) um retrato do Egito. Na queda-de-braço com o estado nordestino, a terra de Ramsés se saiu melhor. Das primeiras vinte fotografias vendidas, só quatro eram do Piauí.

Fernando Eichenberg

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