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Pimenta X Pizza

Na copa dos gringos a Itália é zebra

Cíntia Bertolino
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2014

Envergando com orgulho a camisa da Squadra Azzurra colada à barriga protuberante, Antonio Ianchello se preparava para entrar em campo na manhã do Dia das Mães. Diretor comercial de uma empresa farmacêutica em São Paulo, o milanês de 45 anos defenderia as cores do seu país no gramado sintético de uma quadra de futebol society na Pompeia, Zona Oeste paulistana. Enfrentaria a seleção do México.

A Itália tinha perdido os dois jogos disputados no torneio, para o Japão e o Paraguai. Uma nova derrota significaria a eliminação precoce. Ianchello não parecia muito otimista. “O time está fraco pra caramba e nossa campanha, um desastre”, admitiu o centroavante da equipe italiana num tom entre divertido e resignado.

A partida valeria pela terceira rodada da Copa Gringos, torneio formado por seleções de estrangeiros vivendo em São Paulo. Era uma rodada decisiva. Naquele domingo seriam definidas as dezesseis seleções que se enfrentariam nas oitavas de final e as oito equipes eliminadas, que participariam de um torneio de consolação, a Série Prata.

A iniciativa de fazer a Copa Gringos é do francês Stéphane Darmani, dono de uma produtora de audiovisual em Pinheiros. Darmani organizou a competição para que os expatriados também pudessem sentir o orgulho de representar seus países num ano de Copa do Mundo. Com apoio do Consulado da França, entrou em contato com outras representações diplomáticas para montar os times. Operários, funcionários de multinacionais, diplomatas e refugiados atenderam ao chamado.

China, França e Inglaterra precisaram fazer peneiras para selecionar os melhores atletas. Mas foi bem mais difícil montar as seleções de Camarões, Congo e Nigéria. Darmani foi ao Centro de São Paulo, onde essas comunidades de imigrantes costumam se reunir. Gastou muita saliva até convencê-los de que era um torneio sério. “Eles só toparam depois de jogar alguns amistosos”, disse o francês.

Dois dos times inscritos não são seleções nacionais. Como austríacos e suíços não tinham quórum para montar uma equipe, foram reunidos no selecionado Alpino. Formou-se também um catadão do resto do mundo, o Esperanto, que reúne atletas do Egito, Irlanda, Polônia, República Checa, Croácia e Turquia. Não há uma seleção do Brasil, mas cada time tem o direito de inscrever dois jogadores brasileiros.

A churrascaria que patrocina o evento prometeu aos atletas da equipe campeã quatro horas de comida e bebida liberadas. Darmani conseguiu ainda quinze camisas do Lyon, seu time do coração, quinze garrafas de espumante e frascos de perfume para distribuir entre os participantes. Os prêmios mais cobiçados são duas passagens para Paris e duas para Amsterdã, a serem sorteadas entre os finalistas.

Quando o torneio começou a ganhar forma, o francês foi surpreendido por um e-mail da Fifa. A mensagem o notificava de que não poderia usar oficialmente os dizeres “Copa Gringos São Paulo – 2014”, pois a federação de Joseph Blatter registrou como marca o nome de todas as cidades-sede da Copa associado ao ano de 2014. Darmani tampouco podia fazer qualquer alusão à Copa do Mundo. “Na época, mal tínhamos começado a divulgar o torneio”, espantou-se o francês. Restou-lhe assinar um termo de responsabilidade e retirar o “2014” dos novos cartazes e folhetos xerocados.

 

Na avaliação dos dois mesários do torneio, o pior time é o do Canadá, que perdeu todas as partidas disputadas. Sua meta é defendida pelo vice-cônsul em pessoa, Collin Holditch. No jogo contra o Chile, Holditch tomou 21 gols (seus companheiros de linha fizeram um). O diplomata reagiu com fleuma e fair play. “O futebol não é o esporte do Canadá.”

No jogo que opôs a Itália ao México, os europeus começaram ganhando e pareciam dispostos a enfim honrar a tradição de seu futebol tetracampeão. Até que o goleiro reserva do México, Luis Roberto Real Pomar Rodríguez, chegou atrasado e entrou em campo com uma surpresa para seu time – um punhado de pulparindos, um doce de tamarindo condimentado com açúcar, sal e pimenta. O quitute funcionou como um anabolizante para laboratório nenhum botar defeito. Os mexicanos comandaram uma vitória espetacular, impulsionados também pelas barulhentas matracas de três torcedores. O placar final ficou 6 a 2.

A rodada teve outros triunfos latino-americanos. Na quadra ao lado, o Paraguai, liderado por Anicio González, um artilheiro cabeludo e marrento, conseguiu passar apertado por uma seleção japonesa organizada e aguerrida. Já a Colômbia se impôs com facilidade aos portugueses: 8 a 3.

Entre uma goleada e outra, todos pararam para ver o clássico do dia: Bolívia e China. Muitos apontavam as duas seleções como as favoritas ao título, e a partida era encarada como uma final antecipada. A equipe boliviana entrou em campo apoiada por uma torcida expressiva que tomou conta da lateral da quadra. Os torcedores chineses estavam em menor número, mas não menos agitados, abanando bandeirolas enquanto o líder da torcida andava frenético para lá e para cá antes do início da partida.

O time da Bolívia é composto, em sua maioria, por costureiros e trabalhadores da indústria têxtil do Bom Retiro. Já a seleção chinesa, a mais jovem da competição, é formada por filhos de imigrantes e veio em busca do título. É o único time do torneio cujo técnico tem pinta de professor, com prancheta a tiracolo para explicar as formações táticas. O treinador é o carioca Cláudio Longo, ex-secretário de Esportes de Caraguatatuba e coronel da Polícia Militar. “Fui convidado a assumir o time depois de uma aula de mandarim”, contou. Suas instruções, no entanto, não bastaram para que a China brecasse o escrete sul-americano. Jogando o fino da bola, os bolivianos venceram por 5 a 2. “Perdemos para um time muito bom”, admitiu o técnico. “Mas estaremos na final.”

Na próxima fase, a China enfrenta os Estados Unidos, e a Bolívia encara a Colômbia no clássico andino. A final será no dia 8 de junho, no parque da Aclimação.



Cíntia Bertolino

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