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    CREDITO: ANDRÉS SANDOVAL_2020

esquina

Podcast nas ruas

Um programa dedicado às prostitutas em Belo Horizonte

Leandro Aguiar | Edição 171, Dezembro 2020

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Tarde de quinta-feira, 5 de novembro. Indiferentes à chuva fina, vários homens caminhavam pela Rua Guaicurus em direção aos “sobe e desce”, como são conhecidos os prédios cheios de escadas e nenhum elevador que abrigam os bordéis na zona de prostituição da capital mineira. Numa esquina, despontou um Celta cinza como a tarde, com as caixas de som a todo volume. Pouco a pouco, mulheres apareceram nas janelas para ouvir o que o carro transmitia: a reprise de um dos episódios do podcast Vozes da Guaicurus, voltado às profissionais do sexo.

A voz que se ouviu foi a de Cidinha, uma das líderes da Associação das Prostitutas de Minas Gerais (Aprosmig). “Olá, mulheres!”, dizia ela. “Tirar um tempo para você é bom para o seu corpo e para a sua mente. Você sabia que a Aprosmig está tendo atendimento psicológico online? É só ligar para mim que eu marco para você…” Em seguida, a locutora Pollyana Policarpo Rios, aluna de psicologia que compõe a equipe técnica do podcast, passou a palavra à psicóloga Carla Derzi, que falou sobre o impacto da pandemia na saúde mental e deu conselhos.

O podcast é produzido pela Aprosmig em parceria com o Fundo Positivo, financiador de projetos de proteção contra o HIV. A cada semana, trata de um assunto do interesse das prostitutas, como os cuidados ao receber clientes durante a pandemia – tema do episódio de estreia, em 24 de agosto –, os direitos sexuais e reprodutivos, assunto do quinto episódio, e a prevenção de doenças, do sexto. Duas vezes por semana, Max Araújo, o motorista, passa com seu carro de som transmitindo o programa na região central de Belo Horizonte para que as prostitutas sem acesso à internet possam ouvir.

Depois que a psicóloga encerrou sua fala, a pernambucana Vânia deu o recado: “Dedico essa música a todas as mulheres, especialmente às que fazem programa.” Aos primeiros versos de Nossa Senhora das Fêmeas, do inconfundível Wando, as moças nas janelas gesticularam para que o carro ficasse mais tempo no local – ao menos até o fim da música. O motorista obedeceu prontamente, enquanto Wando cantava: “Nossa Senhora das fêmeas/proteja toda mulher/Desses perigos do mundo,/venha de onde vier/Livrai dos homens malvados,/sem piedade, sem dó/-Ôoo/Que batem, xingam, machucam,/quando não fazem pior.”

 

A Aprosmig fica nos fundos de um estacionamento na Rua Guaicurus, em um escritório miúdo e cor-de-rosa, na altura do número 648. Criada em 2009 para lutar pelas demandas da classe, oferece consultoria jurídica às prostitutas, apoio em exames médicos, na abertura de contas bancárias e no uso de máquinas de cartão de débito e crédito, que no comércio com os clientes hoje são mais seguras que o recebimento de dinheiro vivo. Desde 2014, no Dia Internacional da Prostituta, 2 de junho, a associação organiza na cidade o Puta Dei, com oficinas de moda, palestras sobre saúde e, claro, algumas festas. Em 2019, lançou o livro A Voz das Putas, com poemas, relatos e contos escritos por elas. O podcast é a nova iniciativa para as suas mais de 3,5 mil associadas – das quais, segundo a Aprosmig, 2 mil trabalham na região central de Belo Horizonte.

“A prostituição é um trabalho como qualquer outro, e queremos ser reconhecidas como parte da classe trabalhadora”, diz a diretora da Aprosmig, Cida Vieira, de 53 anos, dominatrix especializada em fetiches. Contrariando a preferência das prostitutas pelo anonimato, Vieira participa com alguma frequência de entrevistas na tevê ou debates nas universidades. “Estamos dando a cara para exigir nossos direitos”, explica. Por sua liderança, viaja o país para se reunir com outras frentes de prostitutas e já foi candidata a deputada federal pelo PCdoB, em 2014 e 2018. O slogan de sua campanha dizia: “Ela vai gritar por você” – mas Vieira não se elegeu.

Cidinha (que prefere não revelar seu nome completo), outra fundadora da associação, conta que se tornou ativista para fazer pelas jovens o que gostaria que tivessem feito por ela. Tem 62 anos e começou a vida como prostituta aos 26. Após dar à luz o terceiro filho, em 1984, foi demitida da firma de limpeza onde trabalhava. Sem ter a quem recorrer para ajudar no cuidado das crianças, ela viu na prostituição uma alternativa de trabalho. “Mal se falava em HIV, todas transavam sem camisinha e, se a gente precisasse fazer algum exame, pagava do próprio bolso”, recorda.

No início, fazia ponto em praças e ruas, mas, por causa do perigo que corria, migrou para os “sobe e desce” da Rua Guaicurus, onde permaneceu por 25 anos, até se aposentar. Lá, deparou-se com todo tipo de cliente, desde os que roubavam e violentavam as mulheres até os que se apaixonavam e casavam com elas, como na canção Vou Tirar Você Desse Lugar, de Odair José. Também não eram raros os gerentes de bordéis que retinham documentos das mulheres e as agrediam. Nessas horas, Cidinha se dava conta de que as prostitutas são um grupo unido: ao sinal de violência, elas esquecem as diferenças e armam uma algazarra, e o agressor é expulso.

Vozes da Guaicurus foi criado para fortalecer essa rede de apoio e levar informação e entretenimento às trabalhadoras sexuais. Locução, roteiro e edição são feitos por três estudantes de psicologia que recebem uma ajuda de custo da Aprosmig. Os áudios são gravados em casa, por causa da pandemia.

Uma ouvinte, que descobriu o podcast quando fazia um lanche no intervalo entre dois clientes, diz que graças ao Vozes da Guaicurus soube ser possível fazer gratuitamente os exames que detectam doenças sexualmente transmissíveis. “Daí busquei o programa na internet e enviei pras colegas. Viralizou!”

Cidinha ajuda na escolha dos temas, junto com outras prostitutas, e coleta dúvidas, sugestões e pedidos de músicas nos bordéis do Centro de Belo Horizonte, onde é muito conhecida. Os estilos mais requisitados são o funk, o sertanejo raiz e o brega. Em uma das edições, ela própria fez as vezes de DJ e decidiu mudar o repertório. Escolheu Get Up (I Feel Like Being a) Sex Machine, de James Brown. “Já dancei demais essa música…”, conta, sem disfarçar o saudosismo.