esquina

Podólatra de boa cepa

O fornecedor de meias de Bush pai

Audrey Furlaneto
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2015

Na última visita que fez a George H. W. Bush, em Houston, Texas, no ano passado, Vivek Nagrani já estava com o pé na soleira quando o anfitrião o puxou pelo colarinho. O visitante virou-se e o ex-presidente americano sussurrou: “Meu jovem, estou orgulhoso de você.” A razão do orgulho? Suas meias.

Doze anos atrás, quando visitou Bush pai pela primeira vez, Nagrani ainda era um principiante, embora já tivesse certa reputação por dar tratamento de alta-costura a tão prosaica peça do vestuário. O velho político, a quem um amigo presenteara com um par da marca VK Nagrani, pediu que o estilista fosse a seu escritório. Embora desconfiado de trote, ele aceitou o convite e voou para Houston com uma dezena de meias – algumas sérias e outras, como diz, ousadas. Quando as exibiu, viu o ancião afastar os modelos em preto, cinza e azul, e escolher os amarelos e alaranjados, os com estampas florais e listras.

Desde então, comerciante e cliente encontram-se pelo menos uma vez por ano, quando o primeiro ouve conselhos e o segundo renova seu estoque. O nonagenário, que já se declarou viciado em meias em comunicado aos membros do Partido Republicano, coleciona centenas de pares. A sua casa, toda semana chegam caixas delas, nem sempre de boa qualidade, segundo o estilista, mas mesmo assim apreciadas pelo ex-presidente.

 

Bush pai já teve os pés fotografados com estampas como a bandeira dos Estados Unidos – ao lado de 23 voluptuosas líderes de torcida do Houston Texans –, com o símbolo do Super-Homem – num carrinho de golfe, em seu aniversário de 89 anos – ou com o próprio rosto impresso sobre a bandeira – numa partida de futebol americano. Em 2013, quando Bill Clinton fez-lhe uma visita, o republicano calçou um par com estampa de cactos sobre fundo laranja – o democrata postou uma foto no Twitter e confessou ter inveja do modelo.

“Odeio malha ordinária”, diz Nagrani em seu ateliê nova-iorquino, acomodado num sofá do século XIX, de costas para um móvel que abriga 144 modelos de meias de sua confecção. “Acho até desrespeitoso enviar-lhe pares baratos. Ele é um homem que foi presidente dos Estados Unidos, e as pessoas lhe mandam lixo, não veem que ele é um homem de outro nível, entende? Nunca falo sobre essas meias com ele, não o critico, mas uma vez ele me disse que, desde que passou a usar as minhas, tem recusado muitas. Outro dia, ele me confessou: ‘Tenho centenas de meias e não sei o que fazer com elas.’”

Tamanho é seu apreço pelo produto de Nagrani que em 2013, quando se completavam 25 anos do início de sua Presidência, em 1989, Bush encomendou peças comemorativas. O estilista desenhou, sobre um fundo azul-marinho, a bandeira dos Estados Unidos com o número 41 (Bush foi o 41º mandatário do país). Foram confeccionados mil pares no Peru, onde, diz o designer, nasce uma das melhores variedades de algodão do mundo. Vendidos a 41 dólares o par, esgotaram-se em quatro horas.

Não obstante alegar conhecer o político “como um ser humano normal, que leva bronca de Barbara Bush a cada dois minutos”, Nagrani nunca viu os pés de seu notável consumidor. “Ver seus pés? Isso seria algo, digamos, muito pouco presidenciável.” Ao ser informado de que, no Brasil, certa feita o então presidente Fernando Henrique Cardoso foi fotografado de meia furada, disse: “Certamente precisamos nos conhecer, eu poderia aconselhá-lo.”

Valendo-se da fama das meias do membro honorável, o Partido Republicano decidiu fisgar possíveis doadores pelos pés. Em abril do ano passado, o comitê do partido disparou e-mails a seus filiados, oferecendo, a 35 dólares, meias com listras coloridas, sobre as quais estava impressa a assinatura do ex-presidente. O próprio Bush assinava o texto do e-mail: “Eu me defino como um homem de meias. Quanto mais vivo e louco o padrão, melhor.” O partido, que há pouco conquistou maioria no Senado e no Congresso, informou outra vitória: arrecadou 1 milhão de dólares com as peças – que, na avaliação de Nagrani, foram feitas na China ou na Coreia. “Detesto dizer, mas elas são meio vagabundas. Bush não as usaria.”

 

De origem indiana, Vivek Nagrani migrou para os Estados Unidos aos 3 anos. Sem nunca ter estudado moda, recorreu a uma fábrica bicentenária na França para entender do negócio, iniciado quinze anos atrás. À época, cada par custava 20 dólares. Hoje, que ostenta o título de criador das melhores meias do mundo (ranking da revista Esquire), os preços partem de 35 e alcançam inacreditáveis mil dólares – no topo, meias de lã de vicunha, um parente andino do camelo que só é tosado de três em três anos. “Fiz uma tiragem de 36 pares, dos quais já vendi 29”, conta Nagrani. A joia jaz numa caixa de madeira maciça com um grampo banhado a ouro e é acompanhada de expertise. “Se dei uma dessas ao Bush? Jamais. Nem ele comprou. Gastar mil dólares num par de meias não é algo socialmente correto.”

Ao homem que governou a América de 1989 a 1993, Nagrani costuma enviar modelos de sua linha normal, ou seja, pares que custam em torno de 85 dólares. A única exigência do ex-mandatário, explica, é que sejam de cano curto. “Quando nos conhecemos, ele gostava das de cano longo, mais confortáveis, mas que exigem mobilidade para serem calçadas. Com a idade, Bush já não é tão ágil. No ano passado, por exemplo, ele esteve hospitalizado e mandei-lhe belas meias de cashmere, de cano curto. Lembro-me de ele ter dito que pareciam meias de um milhão de dólares.”

Já as de 41 dólares, dedicadas aos fãs de Bush pai, voltarão às prateleiras em 2015. Convocado a desenvolver uma coleção para atender ao séquito republicano, Nagrani promete algo mais arrojado: fará uma colagem com o rosto do ex-presidente em vários momentos – Bush bebê, Bush piloto da Marinha, Bush capitão do time de beisebol de Yale. Ainda não sabe se conseguirá incluir Bush diretor da CIA e Bush pai de outro presidente dos Estados Unidos – você sabe quem. “Só sei que, quanto mais ousada, melhor. Ele é um homem conservador, clássico, mas enlouquece nas meias.”

Audrey Furlaneto

Leia também

Últimas Mais Lidas

Maria Vai Com as Outras #3: Quero ser mãe, não quero ser mãe

Uma editora e uma advogada e escritora falam sobre os desdobramentos na vida de uma mulher quando ela decide ter ou não ter filhos

Vítimas de Mariana cobram R$ 25 bi de mineradora BHP na Inglaterra

Juiz deve decidir em junho se vai julgar o processo, o maior em número de vítimas da história do Reino Unido

Passarinho vira radar de poluição

Pesquisadores usam sangue de pardais para medir estrago de fumaça de carros e caminhões em seres vivos

Foro de Teresina #68: Censura na Bienal, segredos da Lava Jato e um retrato da violência brasileira

O podcast de política da piauí discute os principais fatos da semana

Presos da Lava Jato unidos contra os ratos e o tédio

Condenados por crimes de colarinho-branco já caçaram roedores e fizeram faxina em complexo penal; transferidos para hospital penitenciário e sem ter o que fazer, gastam o tempo com dominó  

O maestro e sua orquestra – andamento lento e músicos desafinados

Governo se julga no direito de “filtrar” projetos incentivados com verba pública, mas filtrar é eufemismo para censurar

Quando a violência vem de quem deveria proteger

Quatro meninas são estupradas por hora, a maior parte dentro de casa, e 17 pessoas são mortas pela polícia por dia, revelam dados do Anuário de Segurança Pública

“Poderia ter sido eu a morrer ali no ponto de ônibus”

Como a morte espreita a juventude negra no Rio de Janeiro, estado com maior taxa de homicídios em ações policiais

Léros Léros em Itaipu

Brasil se recusa a pagar prejuízo de US$ 54 milhões; presença de suplente do PSL em reuniões binacionais aumenta crise e atrapalha renegociação para 2023

Mais textos
1

Vítimas de Mariana cobram R$ 25 bi de mineradora BHP na Inglaterra

Juiz deve decidir em junho se vai julgar o processo, o maior em número de vítimas da história do Reino Unido

2

“Poderia ter sido eu a morrer ali no ponto de ônibus”

Como a morte espreita a juventude negra no Rio de Janeiro, estado com maior taxa de homicídios em ações policiais

3

Presos da Lava Jato unidos contra os ratos e o tédio

Condenados por crimes de colarinho-branco já caçaram roedores e fizeram faxina em complexo penal; transferidos para hospital penitenciário e sem ter o que fazer, gastam o tempo com dominó  

4

Léros Léros em Itaipu

Brasil se recusa a pagar prejuízo de US$ 54 milhões; presença de suplente do PSL em reuniões binacionais aumenta crise e atrapalha renegociação para 2023

5

A guerra contra o termômetro

Quando chegam más notícias sobre o desmatamento, os governos atacam o emissário

7

Bacurau – celebração da barbárie

Filme exalta de modo inquietante parceria entre povo desassistido e bandidos

9

Sem SUS, sem saída, sem vida

Sem dinheiro para pagar dívidas médicas nos Estados Unidos, idoso mata mulher e se suicida; tragédia amplia debate sobre acesso a sistema público de saúde

10

Foro de Teresina #68: Censura na Bienal, segredos da Lava Jato e um retrato da violência brasileira

O podcast de política da piauí discute os principais fatos da semana