esquina

Põe na conta do King

Um best-seller acidental

Tania Menai
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2014

De franja lisa, cabelos encaracolados acima do ombro e vestido preto e branco, a canadense-americana Emily Schultz poderia facilmente se confundir com a legião de literatos descolados que lotam os cafés do Brooklyn. Quando se mudou para essa região de Nova York, há quatro anos, não suspeitava que se tratasse do “epicentro dos escritores”. A escolha não poderia ser mais oportuna: ela própria escreve e edita livros, faz roteiros a quatro mãos com o marido e mantém uma revista eletrônica e um podcast sobre literatura.

Ao desembarcar no Brooklyn, Emily já construíra uma carreira literária no Canadá, onde nasceu e foi criada. Depois de uma coletânea de contos, publicada em 2002, lançou em 2006 seu primeiro romance, Joyland [Terra da Alegria] – uma história de adolescentes vidrados em video-games, ambientada numa pequena cidade americana na década de 80. O livro recebeu resenhas simpáticas, mas não chegou a ser um sucesso comercial; passada a visibilidade da noite de autógrafos, vendia apenas poucas dezenas de exemplares por ano. Até que, numa tarde de agosto de 2013, a escritora recebeu uma ligação de seus editores avisando que 200 unidades da versão de Joyland para Kindle haviam sido comercializadas numa única semana.

Emily não tardou a descobrir o motivo. Acabara de sair um livro homônimo assinado pelo americano Stephen King, um dos mais conhecidos autores vivos de terror e mistério. Aos 67 anos, ele é um verdadeiro rei Midas do mercado editorial, responsável por vendas na casa das centenas de milhares de exemplares. Para estimular a compra em livrarias, os editores de King decidiram não lançar de imediato a versão eletrônica do romance. Desavisados, muitos fãs compraram o livro homônimo de Emily, pagando 7,99 dólares.

Ao evocar o caso numa manhã recente, a escritora explicou que a lei de direitos autorais nos Estados Unidos e no Canadá não impede que duas obras tenham o mesmo título. “Eu mesma posso chamar meu próximo original de The Shining”, brincou, referindo-se a O Iluminado, o famoso romance de King, de 1977, depois adaptado para o cinema por Stanley Kubrick.

Segundo Emily, muitos compradores nem perceberam o engano. “Alguns deixam para ler depois, outros terminaram o livro sem se dar conta de que não era do King”, conta, divertida. Mas houve quem estranhasse a súbita mudança no estilo do mestre do terror, e logo surgiram resenhas negativas na página do romance na Amazon. Uma fã de King disse que precisou reler alguns trechos para entender a trama; outra reclamou que não havia suspense; uma terceira considerou o romance “difícil de acompanhar e pouco estimulante para os leitores mais velhos”. Também houve, é verdade, quem apreciasse o tom “simples, previsível mas doce”, e elogiasse a ousadia do autor em adotar a perspectiva feminina.

Joyland de King é a história de um crime e tem como protagonista um estudante universitário que trabalha num parque de diversões nos anos 70. Para Emily, o fato de os livros homônimos terem protagonistas jovens ou adolescentes e serem ambientados algumas décadas atrás pode ter alimentado o mal-entendido. Bem-humorada, ela compreende a decepção de alguns leitores. “Meu Joyland é denso e poético, e não é isso que os leitores de King procuram num romance”, disse. “Mas eu preferiria que as pessoas tivessem comprado o livro por ser meu.”

 

A confusão teve uma contrapartida inesperada um ano mais tarde. Pelo correio, Emily recebeu um cheque de 1 656,53 dólares, referente aos direitos autorais das vendas de Joyland, que alcançaram a casa dos 3 mil exemplares. Radiante com a soma imprevista, ela decidiu criar um blog para contar como estava gastando o dinheiro dos leitores de Stephen King.

Na noite em que recebeu o cheque, a escritora jantou com o marido no Junoon, restaurante indiano sofisticado em Manhattan, onde desembolsou 146,94 dólares (incluindo 25 de gorjeta), além de contratar algumas horas de babá para cuidar do filho de 3 anos. “Minha mãe me ligou indignada por eu ter pago tanto por um jantar”, contou. A cada compra, ela se questionava se King aprovaria a despesa. “O Junoon fica num bairro de editoras, então é provável que ele já tenha jantado lá”, disse. “Além disso, quem não gosta de um paneer frito?”

A autora também arrematou um CD da cantora St. Vincent (9,99 dólares), deu um pulo na Ikea e adquiriu várias coisas para a casa (94,70 dólares), ofereceu um corte de cabelo ao marido (42 dólares mais gorjeta) e mandou consertar o para-choque do carro (200 dólares). A lista de gastos ainda incluiu investimentos na carreira de escritora: um MacBook Air (799 dólares) e quatro dias suplementares na creche (180 dólares), que lhe possibilitaram dar início ao próximo livro, um romance que se passa na Detroit dos anos 20. Dentre as despesas, é claro, figura um exemplar do Joyland de Stephen King (12,95 dólares), uma leitura que ela considerou “enérgica e eletrizante”.

Quando o cheque zerou, Emily interrompeu as postagens no blog. Pretende retomar assim que receber a próxima parcela de direitos autorais, de pouco mais de 1 500 dólares, a ser paga no começo do ano que vem. Mas dificilmente virão outros cheques tão expressivos depois desse: desde que foi lançada a versão eletrônica do Joyland de King, é improvável que outros leitores se equivoquem com a versão de Emily.

A escritora pareceu satisfeita ao fazer um balanço do episódio. “Cresci numa cidade muito pequena que nem livraria tinha. O fato de meu caminho ter cruzado com o de Stephen King é incrível”, disse ela, abrindo um sorriso largo. Emily não chegou a entrar em contato com seu colega famoso, mas soube pelo Twitter que ele levou tudo numa boa. “Emily Schultz é minha nova heroína. Você é demais, cara”, escreveu King. Receber elogios de um best-seller global nas redes sociais: não tem preço.

Tania Menai

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