esquina

Polegadas a menos

No Rio, o lixo não cabe no lixo

Dorrit Harazim
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2009

Elas são carioquíssimas. Além de alegres e faceiras, são quase atrevidas com suas medidas harmoniosas e silhueta arredondada. Chamam atenção onde quer que estejam – na praça, na rua, ao longo do calçadão da praia, no meio da muvuca no centro da cidade. As primeiras foram trazidas da Europa, em 1995, por ordem do prefeito da época, Cesar Maia, e desde então adornam a mui maravilhosa cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. Tinham tudo para dar certo. Ou quase.

Inversamente às duas polegadas a mais que Martha Rocha trazia nos quadris em 1954, as 14 800 lixeiras cor de laranja espalhadas pelo Rio têm centimetragem a menos para dar conta da missão que lhes foi atribuída: manter limpa a metrópole de mais de 6 milhões de bípedes.

Diante da cruzada civilizatória “não sejam porcos” com que o burgomestre Eduardo Paes brindou sua gente para encerrar o ano de 2009, vale a pena esmiuçar a genealogia e utilidade urbana das solertes lixeiras – também designadas como papeleiras.

A decisão de importá-las, não apenas da Alemanha, como também da França e Portugal, baseou-se nos resultados de uma pesquisa coordenada pela Companhia Municipal de Limpeza Urbana, a Comlurb, relembra Cesar Maia.

Primeiras cestas fabricadas com polietileno de alta densidade, e afixadas em postes, elas vieram substituir as latas de lixo anteriores, metalizadas e plantadas no chão. No entender de Cesar Maia, os cestões antigos, de boca larga, em vez de ajudar na limpeza, geravam sujeira – “cachorros conseguiam focinhar o lixo e catadores esparsos garimpavam lixo comerciável. Cada uma delas era uma central de sujeira no entorno”.

Passados catorze anos, o que mudou? Mudou a indústria nacional de latas de lixo, que passou a fabricar as “laranjinhas”, ao preço médio de 70 reais a unidade, e substituiu o produto importado. Mas a afirmação de que os receptáculos de lixo são usinas de produção de sujeira no entorno continua vibrante na sua atualidade.

As causas são as tais polegadas a menos e  a própria anatomia ergonômica das laranjinhas.

O munícipe que desafiar as leis da física e tentar enfiar um coco verde goela abaixo da simpática lixeira vai se dar mal. Ele pode socá-lo quanto quiser, mas não conseguirá fazer passar o fruto pela boca do receptáculo, que mede 11 centímetros. Impedimento ainda maior terá o cidadão que pretender se livrar da garrafa PET de 2 litros que matou sua sede de verão – ela não entrará nem pela largura nem pela circunferência. Garrafas de 1 litro também não são facilmente aceitas pelas papeleiras.

 

“É, não cabe, mesmo”, constata o gari Leandro, que passou no concurso da Comlurb em 2004 e está de carteira assinada há seis meses. “Por isso o pessoal coloca no chão, bem do ladinho da lixeira, para a gente pegar”, elogia ele, sem queixa. Vale o preceito bíblico, ligeiramente adaptado: no Rio, é mais fácil um camelo entrar no Reino dos Céus, ou um rico passar pelo buraco de uma agulha, do que o lixo entrar na lixeira.

Inevitavelmente, um coco ou uma garrafa no chão atraem dois, vários, muitos montes, Corcovados de cocos e garrafas no chão, e atuam como ímã para papéis, latinhas, guimbas. Uma verdadeira central de sujeira no entorno, em suma.

A anatomia da lixeirinha carioca é outra armadilha. Ela exige audácia para ser encarada. Nem todo pedestre com algo para descartar se sente à vontade para inserir a mão e o punho dentro de um bocal oblíquo que pode esconder mil perigos. Dado que as lixeirinhas, quando vistas de perto, costumam estar encardidas, de sujeira acumulada, a ideia de roçar com a pele no seu bocal nem sempre compensa o título de “Cidadão Consciente”.

Resta a dúvida, ao final, se cestões grandes, com uma bocarra na horizontal, não reduziriam o número de bípedes suínos que tanto asco provocam no prefeito do Rio. Quanto às sapecas papeleiras laranjinhas, elas continuariam a enfeitar a cidade prestando o minisserviço de coletar papéis, maços de cigarro, cascas de laranja e pequenezas do gênero.

Cabe um post scriptum nesses tempos em que alcaides e governadores vivem com um pé no marketing e outros dois fora do país: lixeiras grandes, mesmo feias, fazem parte da paisagem urbana em todas as metrópoles ditas civilizadas. Em Mônaco, que é Mônaco, elas são de plástico e medem 1,20 metro de altura. Em algumas, só se vê a abertura circular no centro da tampa – tudo o que é jogado lá dentro desaparece abaixo do nível da rua, engolido por algum coletor subterrâneo. Na Paris e Londres afetadas por ataques terroristas, a resina e o metal foram substituídos por sacos transparentes, trocados diariamente, para evitar que alguma bomba passe despercebida em seu interior. Em Nova York, pelo menos na ilha de Manhattan, é difícil encontrar uma esquina sem sua obrigatória lixeirona de metal trançado.

O Rio deve pensar grande, nas polegadas a mais que faltam nas lixeiras.

Dorrit Harazim

Dorrit Harazim é jornalista. Foi editora de piauí de 2006 a 2012

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