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    ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2022

esquina

Ponte para o teatro

Companhia faz espetáculos à beira do rio em Santa Catarina

Magali Moser | Edição 188, Maio 2022

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A Ponte Curt Hering é uma das mais movimentadas da cidade de Rio do Sul, um importante polo industrial de Santa Catarina, com fábricas e confecções de jeans e produtos metalomecânicos. Situado a 200 km de Florianópolis, o município tem cerca de 70 mil habitantes e dispõe de um cinema e dois pequenos teatros. Um deles, o Teatro Domingos Venturini, foi instalado onde antes era uma garagem. O outro fica exatamente entre as pilastras da Ponte Curt Hering, que liga as margens do Rio Itajaí do Sul.

É o Teatro Embaixo da Ponte, projeto lançado em 2012, que também surpreende pela qualidade de suas instalações. Com 150 m2 no total, o teatro tem arquibancadas de madeira com almofadas que acomodam cerca de 160 adultos (ou 200 crianças). O barulho dos carros e caminhões no alto da ponte não chega a perturbar as apresentações, por causa da proteção acústica propiciada pelo cantinho esquerdo da ponte. Quando é necessário escurecer o ambiente, toldos retráteis desempenham a função de paredes. O teatro tem acesso para cadeirantes, camarim, sala para maquiagem e banheiro. Toda a estrutura foi adaptada para resistir a enchentes, comuns na região.

O espaço é administrado pela companhia Trip Teatro, formada por quatro pessoas. A programação inclui, além das peças, espetáculos de bonecos, dança e música, mostras de cinema e atividades da Feira do Livro de Rio do Sul, que acontece anualmente. Desde que o grupo de teatro ocupa o local foram realizadas cerca de quatrocentas atividades gratuitas. E, contrariando as desconfianças iniciais, o Teatro Embaixo da Ponte acabou se tornando “o lugar mais nobre da cidade”, como definiu o cronista Luis Fernando Verissimo, depois de uma visita ao local em 2015. “É a única ponte do mundo onde as pessoas são mais felizes embaixo do que em cima”, diz Willian Sieverdt, de 49 anos, ator e diretor da Trip Teatro, um dos idealizadores do espaço.

 

Em Rio do Sul, o Teatro Embaixo da Ponte é também um lugar de resistência cultural. “Talvez a grande contribuição seja provocar uma reflexão sobre como a gente lida com o nosso mobiliário urbano. Em Rio do Sul há várias estruturas que poderiam ser utilizadas. Em cidades maiores, muito mais”, afirma o produtor cultural Qiah Salla, de 28 anos e natural de Rio do Sul, que integra a Una! Criatividade e Impacto Positivo, organização que apoia o espaço. Por muito tempo, era ele quem varria o tablado, recebia as pessoas, colocava as almofadas e ajudava na produção das montagens. Salla compara o teatro com uma flor que nasce em meio ao chão de cimento e ali permanece, firme.

A ideia é que o teatro de Rio do Sul estimule outras cidades do país a criar projetos similares que sirvam de ponte às pessoas com pouco acesso a atividades culturais. “É um espaço de Rio do Sul, mas é um espaço do Brasil também”, diz a atriz Tati Mileide Danna, de 43 anos, que faz parte da Trip Teatro.

Para o ator Samuel Paes Becker de Luna, de 38 anos, a comparação não é com uma flor, mas com um ninho. Pernambucano de Limoeiro, ele conheceu, no Rio de Janeiro, o rio-sulense Thiago Becker de Luna, que o convenceu a se mudar para a cidade catarinense, onde se casaram. Sua estreia foi com a peça O que Só Passarinho Entende, escrita por Agatha Duarte a partir de um conto de Marcelino Freire, com história situada entre Minas Gerais e Pernambuco. “Eu me senti abrigado aqui. O teatro foi meu primeiro ninho como ator”, diz Luna. “Se vocês não me deixam existir nos palcos, eu vou existir onde eu quiser. Eu posso existir embaixo de uma ponte. Eu posso existir na beira do rio.”

Hoje, o teatro é mantido pela Associação Empresarial de Rio do Sul (Acirs) e recebe doações eventuais do Centro Universitário para o Desenvolvimento do Alto Vale do Itajaí (Unidavi). À época em que o espaço surgiu, não havia um fundo municipal de apoio à cultura em Rio do Sul (que foi criado oficialmente em 2013, mas regulamentado apenas em 2014). “Dizíamos que o governo municipal queria mais era ver os artistas debaixo da ponte. Não deixava de ser uma provocação ao poder público”, conta Sieverdt. Em outubro do ano passado, um projeto da prefeitura aprovado pela Câmara Municipal de Rio do Sul reduziu quase pela metade o valor destinado ao fundo de cultura.

 

A Trip Teatro foi a companhia que mais se apresentou embaixo da ponte. Fez mais de cinquenta espetáculos, como Kasperl e a Cerveja do Papa, dirigida pelo espanhol Paco Parício, que assina o texto com Willian Sieverdt, e O Incrível Ladrão de Calcinhas, com texto e direção de Sieverdt. Em meados de abril, o programa incluía Prometeu, o Dador do Fogo, adaptação de Prometeu Acorrentado, de Ésquilo, por Bruno Marian de Oliveira, com direção de Samuel Becker de Luna.

As histórias acontecem no palco, mas também fora dele. Sieverdt conta que, certa vez, ao final de um espetáculo, um casal de idosos o procurou e disse: “Nós moramos vários anos aqui, debaixo da ponte, nos anos 70.” O homem cuidava de uma embarcação que ficava atracada nas imediações e viu quatro de seus filhos nascerem naquele lugar.

As apresentações infantis fazem grande sucesso. Já passaram por baixo da Curt Hering vários grupos de teatro de bonecos, brasileiros e estrangeiros – da Argentina, Chile, Colômbia, França e Espanha, entre outros. A agrônoma Laís Santos Capel sempre leva os filhos Gustavo, de 7 anos, e Isabela, de 11, para assistir aos espetáculos. “O que acontece aqui é uma mágica. Não perde nada em comparação a um teatro convencional. Porque tem toda essa história, essa energia”, diz Capel. “Acaba sendo mais democrático. Você vê que a arte não tem limite.”