esquina

Pontinho turístico

Enquanto persiste no mapa, Tuvalu almeja se empanturrar de turistas

Bruno Moreschi
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2008

Mesmo diante das largas avenidas de Brasília, Amin Lautskey, de 51 anos, ainda vê o mundo na proporção de Tuvalu, seu querido país, o quarto menor do mundo, no meio do Oceano Pacífico. Com pinta de turista, vestindo bermuda branca com estampa de flores e regata azul-escura, ele encosta os cotovelos no balcão de informações do Museu de Arte da capital federal e pergunta em inglês britânico: “A senhorita poderia me informar como faço para falar com o presidente…” Procura o nome no bloquinho e continua: “… Luiz Inácio da Silva Lula?” A moça gargalha. Nem tanto pela gafe ao misturar o sobrenome da autoridade, e mais pela ingenuidade do pedido.

O secretário de Turismo do minipaís mal começara sua viagem de seis dias, planejada há mais de um ano, para contemplar a arquitetura brasiliense. Minutos depois que desfez a mala, ligou o notebook e se surpreendeu quando leu o e-mail de seu grande amigo Apisai Ielemia, nada menos do que o primeiro-ministro de Tuvalu. Ielemia sugeria que o secretário aproveitasse o passeio para dar início ao audacioso plano turístico, discutido meses antes na cúpula do governo tuvaluano, uma monarquia parlamentarista que ainda responde à Coroa britânica. “O que eram férias se transformou em missão oficial”, confessa Lautskey sem esconder a decepção.

O emissário não mudou uma única reta do trajeto turístico que planejou fazer em Brasília. Mas, ciente da sugestão do chefe, passou a perguntar sobre o possível paradeiro do presidente, ou de algum ministro, de preferência ligado ao turismo ou ao desenvolvimento.

A seu ver, não seria preciso mais do que alguns poucos minutos para convencer as autoridades da importância de Tuvalu, a despeito da História que só se deu conta desse país de 12 mil habitantes em duas ocasiões. A primeira foi durante a II Guerra Mundial, quando japoneses e americanos lutaram pelo território estratégico que fica a meio caminho entre Pearl Harbor, no Havaí, e o Japão. Passadas seis décadas, o medo de um destino trágico voltou a assolar a população, fruto de estudos ambientais que apontam o país como uma das mais iminentes vítimas do aquecimento global. Estimativas sugerem que, em menos de dez anos, Tuvalu, já tão difícil de ser enxergado no mapa-múndi, sumirá por completo, engolido por um oceano não-pacífico. E não adianta a população se ajuntar no monte mais alto da região: ele não chega a 5 metros de altura.

Para Lautskey, tudo não passa de “pura histeria ambiental”. Acredita que a ciência em breve irá conter o derretimento das calotas polares e Tuvalu persistirá – não mais como um ponto ignorado pelo Google Maps, que, já na metade de sua ferramenta de zoom, informa: “Infelizmente não temos mapas dessa região com esse nível de detalhamento.” O primeiro-ministro e sua equipe sustentam que o país ainda há de se tornar um conjunto de ilhas turísticas de altíssimo luxo. Lautskey não nega que há muito o que fazer. Para começo de conversa, será preciso construir um aeroporto maior, já que a única pista de pouso mal comporta os aviões de pequeno porte que saem de Sidney, na Austrália, uma vez por semana, às três da tarde, horário local.

O governo ainda terá que arcar com a construção de um megaempreendimento hoteleiro, que aliviará a demanda sobre os seis locais de hospedagem existentes – o que inclui o motel do país. Em seguida, com os visitantes confortavelmente instalados, será fácil convencer o Japão a inaugurar o prometido segundo dessalinizador e, assim, garantir água potável suficiente à esperada multidão. Por fim, será hora de tirar do papel as trinta embarcações que ligarão as nove ilhas que compõem o atol, inclusive Niulakita, que reúne 90 moradores.

Para provar que não é um louco de uma região longínqua, Lautskey abre a pasta de negócios decorada com um brasão de Tuvalu. De dentro, retira tabelas e gráficos. De acordo com os papéis que o tuvaluano patriota se orgulha em mostrar, o país conserva uma poupança de 20 milhões de dólares que será usada exclusivamente para os planos turísticos. A bufada é resultado dos royalties mensais de duas marcas do país vendidas na década de 1990: o domínio .tv, almejado por emissoras de televisão do mundo inteiro, e o código 900, tão usado pelos serviços de disque-sexo.

 

Seis dias de visita em Brasília não foram suficientes para Lautskey se encontrar com Lula ou qualquer outro representante do governo. Partiu para a Cidade do México e voltou revigorado à sua terra natal. Lá, postou uma carta de próprio punho endereçada à Granja do Torto sugerindo que o Brasil ajudasse financeiramente sua nação “assim como faz no Haiti”. Finalizava: “Tuvalu irá emergir, mas ainda é um pequeno desprotegido. Precisa ser adotado por um gigante chamado Brasil.” Até agora, nada de resposta, mas, como qualquer tuvaluano que se preze, Lautskey sabe que, na ilha, o tempo passa devagar. Uma carta vinda do Brasil não chega em menos do que 45 dias.

Bruno Moreschi

Bruno Moreschi, jornalista e artista plástico, é coautor de 501 Grandes Artistas, da Sextante.

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