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Pop cult na biblioteca

Dieta de pífanos e parlendas reúne os mais longevos luminares da cultura local

Vanessa Barbara
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2010

Ao telefone, a piauiense Andréa Sousa tentava angariar reis magos para uma apresentação de Natal: “Como assim, Quantos reis magos são? Que tipo de cristão você é?”

Andréa é contadora de histórias e coordenadora de eventos da Biblioteca Pública Belmonte, no gigantesco bairro paulistano de Santo Amaro. A instituição, que em 2007 se especializou em cultura popular, oferece atrativos como esse do fim do ano, parte das comemorações do centenário de nascimento de Mestre Vitalino, o grande ceramista pernambucano. Foram dois meses de exposições, oficinas de modelagem, peças de teatro, uma feira típica de Caruaru (com réplica da casa do artista), emboladores de coco, declamadores de cordel, mamulengueiros do porte de Valdeck de Garanhuns e, como se pouco fosse, um encontro de “sensibilização musical” com a Banda de Pífanos de Caruaru.

Para gáudio geral, a participação dos músicos coincidiu com o Espaço Gourmet, uma tradição mensal da biblioteca. Trata-se de uma espécie de degustação literária cujo objetivo consistiria, nas palavras de Andréa, em “aguçar o apetite pela cultura popular”. As possibilidades do cardápio matariam de inveja qualquer praticante de invencionices da cozinha molecular. Amostra: saladinha de trovas e parlendas como entrada, medalhão de cordel guarnecido de histórias de enrolar como prato principal e, na sobremesa, bolo de trava-língua com recheio de adivinhas.

As mesas estavam postas para receber os comensais. A primeira a chegar foi Leda Abs Musa Kraml, ex-educadora sanitária que tem 88 anos e uma coleção de oitenta presépios. “Meu nome vem do latim leda, que quer dizer ‘alegre'”, avisou ao se instalar na mesa principal. E, enquanto Andréa beliscava uma prosaica banana, foi desfiando, meio a troco de nada, histórias em que o presépio de barro que acabara de ganhar da Secretaria de Cultura de Teresina se misturava com aquela imperatriz “baixotinha e manca”, a Teresa Cristina, esposa de dom Pedro ii, inspiradora do nome da capital piauiense.

Chegam em seguida a historiadora Maria Helena Berardi, de 69 anos, defensora da emancipação de Santo Amaro do resto do município, e a professora Adozinda Kuhlmann, que leciona há mais de sete décadas e educou gerações de moradores do bairro. Adozinda, de 92 anos, está elegante, com um colar de pérolas adornando-lhe o pescoço e um lenço de renda na cabeça. É considerada “a rainha do acróstico”, mas, como o cardápio do dia não contempla esse engenho poético, não se verão exemplos de façanhas adozindanas.

À mesa de notáveis junta-se uma dezena de funcionários administrativos da Secretaria Estadual da Saúde, que vieram sabe Deus por que e vão se acomodando ao som de Se essa rua fosse minha e Ciranda, cirandinha, tocados pela banda de pífanos. Também sem motivo aparente, a repórter de piauí é convidada a se levantar e recitar Batatinha quando nasce, coisa que faz com denodada galhardia. Retoma o assento sob aplausos educados.

Andréa, que sumira, materializa-se com chapéu de cangaceiro e um vistoso avental de melancias. Todos a postos, a refeição tem início com uma bela salada de trava-línguas: Cacá quer caqui – Que caqui que Cacá quer? Os convivas repetem com moderada fluidez. Mais aplausos se dirigem a dona Leda e ao funcionário público Aparecido, que se saem excepcionalmente bem na difícil articulação dos desejos de Cacá.

 

O prato principal, interpretado por Andréa, é um cordel de poeta matuto. Me enganei com minha noiva, do mossoroense Luís Campos, triste história de um romance trágico descrito em versos memoráreis, como “Ôxe! Só eu não acho mulher/ que queira se esfregar n’eu”. No desfecho – uma versão transgênero do ancestral tema da donzela guerreira –, a noiva Vicença, que se casa com o poeta, acaba se revelando: “Era macho que nem eu!” Aplausos (enquanto alguém lá atrás gargalha e engasga).

Na sobremesa, a especialidade da casa – sorvete de versos com charada e cobertura de simpatia – dá lugar à Banda de Pífanos de Caruaru, a grande atração da tarde. O venerável Sebastião Biano, de 90 anos, fica de pé para explicar que o pífano foi inventado por seu avô, Manoel Clarindo Biano, “homem curioso de ciências”. Isso em 1924, na roça. Mestre Biano conta uma longa história sobre como eles faziam buracos no talo de jerimum e sopravam para ver se saía som.

 

O pífano é um instrumento de sopro semelhante à flauta transversal, de som mais agudo e timbre mais estridente. Pode ser feito de bambu, taquara, osso e até cano de PVC. Quase sempre os tocadores são homens da roça que herdaram a arte de fazer o instrumento e não sabem ler partitura. Como Sebastião Biano, por exemplo, que pega as escalas de ouvido e ensina que sustenido é “meio dedo no buraco”. A crer na lenda, foi depois de ouvir os irmãos Biano que Gilberto Gil, fã das bandas de pífanos, criou a Tropicália.

Mestre Biano dedica a apresentação à sua “colega de década”, Adozinda, a quem faz um acenozinho. O arrasta-pé começa com uma valsa, seguida de um forró aperreado de Dominguinhos (“Que falta me faz um xodó…”). O setlist inclui ainda Asa branca e dois ou três xaxados e baiões, até terminar com o frevo Vassourinha, hino de Pernambuco. Ao final, todos se erguem e se entregam a uma ovação circular e universal. Mestre Biano bate palmas para Adozinda, que bate palmas para Leda, que parabeniza Aparecido, que agradece a Andréa, que aplaude a todos, numa generosa confraternização brindada com suco de tangerina de pacotinho em copinhos de plástico.

A turma da Saúde debanda para uma reunião. Dona Leda, talvez por caridade, convida a intérprete de Batatinha quando nasce para ir a sua casa tomar um cálice de vinho do Porto com sorvete de creme e conhecer os presépios. Andréa se afasta para cuidar da pressurosa questão dos reis magos, pois não parece ter ficado claro que eles são três. É uma vida buliçosa a de coordenadoras, escritoras, poetisas e contadoras de histórias em Santo Amaro.

Vanessa Barbara

Escritora e jornalista, é colaboradora do New York Times

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