esquina

Por favor, diga bun di

A luta inglória pela preservação do romanche, língua dos Alpes suíços

Luiza Mussnich
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2013

Quando entrou na loja de agasalhos naquela manhã de fevereiro, Agatha Wyss arriscou um bun di. Como seu interlocutor respondeu à saudação em sua língua materna, Agatha – ou Aghi, como é conhecida – não se conteve. “Jau dovrel ina chapitscha”, emendou, anunciando sua intenção de levar um gorro, apesar da pilha de peças iguais que já possuía em casa. Queria retribuir a habilidade do vendedor de se expressar em seu idioma. Nas ocasiões em que seu bun di é rebatido com um Guten Tag, ela fala em alemão mesmo, visivelmente decepcionada.

Jovem senhora de jeito acolhedor e olhos azuis cristalinos, Aghi é uma insistente militante pela sobrevivência do romanche, o idioma legado pelos romanos em sua passagem pelos Alpes suíços rumo à conquista de terras bárbaras, por volta do século V. Apesar de ser a quarta língua oficial da Suíça, seu futuro está longe de ser garantido – é falada atualmente por cerca de 60 mil pessoas.

Em Champfer, a vila de 900 habitantes onde Aghi nasceu e mora até hoje, o estudo do romanche é obrigatório até a 4ª série. Ela própria dá aulas do idioma numa escola primária de Silvaplana, outro vilarejo da região alpina de Engadina que tem o romanche como primeira língua. Para seu desespero, no entanto, o número de povoados onde o romanche faz parte do currículo das crianças diminui a cada ano. Aghi acredita que, com o aumento de turistas em St. Moritz – a principal cidade da região e uma das mais badaladas estações de esportes de inverno –, o aprendizado do idioma perdeu atratividade em comparação com aqueles usados na interação com os estrangeiros, como o inglês.

Ainda assim, o romanche resiste nas áreas turísticas, em nomes de pistas de esqui, ruas e restaurantes. Lá, cume é piz, casa é chesa, cozinha é chadafö. A manhã é la damaun e o pão com manteiga é paun cun painch. O pot-pourri de referências latinas tem pronúncia próxima à do italiano.

O romanche, porém, se distancia do italiano – e também do espanhol, francês e português – por ser do ramo reto-romano (como o ladino e o friulano falados nas montanhas italianas). Para complicar ainda mais sua difusão, ele tem cinco variações parecidíssimas, embora unificadas oficialmente em 1982 numa única língua escrita, o Rumantsch Grischun. Não fosse essa unificação, vegn, veintg, vantg ou vainch poderiam ser opções de grafia a constar na nota de 20 francos suíços, onde se lê vengt.

 
Reconhecido como idioma oficial em 1938, foi apenas em 1976 que o romanche passou a constar nas cédulas da Suíça, junto com o alemão, o francês e o italiano, e somente em 2001 começou a ser usado formalmente nos órgãos públicos. Conquistas tardias e árduas comemoradas por Aghi, para quem a língua é uma expressão da identidade de quem vive naquelas paragens alpinas e uma mascote de seu país. “Nosso idioma ajudou a reforçar o patriotismo de uma Suíça que lutava para se livrar da influência alemã às vésperas da guerra”, orgulha-se.

Além de um canal de tevê em romanche, que produz uma hora e meia de conteúdo por semana, há também um jornal publicado de segunda a sexta apenas no idioma montanhês, o La Quotidiana. O principal periódico da região, o Engadiner Post, dedica duas páginas diárias a manchetes como “Per ina politica federalistica” e “Fatg tscheiver da camifo!” – “Um Carnaval como deve ser!”.

A língua, entretanto, anda com o prestígio em baixa na biblioteca de St. Moritz – onde, no fim da tarde de uma sexta-feira invernosa, não havia vivalma além da diretora, Silvia Bezzola. Livros em alemão e francês predominavam, dispostos nas estantes de maior destaque. Uma tímida seção guardava as joias da produção literária romanche, de autores como Leta Semadeni, Oscar Peer, Peider Landsel, Cla Biert e Rut Plouda. Semadeni, expoente dos escritores locais, ganhou prêmios literários na Suíça e na Alemanha, ambos em 2011, pelo livro de poesia In Mia Vita da Vuolp [Em Minha Vida como Raposa]. A obra-prima, uma pena, não consta no site da Amazon.

Com exceção do Tractat Davart l’Origin e las Basas da l’Inegualitad Tranter ils Umans, o célebre tratado do suíço Jean-Jacques Rousseau, havia na biblioteca poucas traduções de obras clássicas para o romanche. Silvia, a diretora, pareceu conformada com o destino da língua, uma vez que dominá-la não apresenta nenhuma vantagem econômica. Aghi, por sua vez, não perde a esperança: “Acredito que o romanche sobreviverá porque é a língua que remete ao gosto de comida caseira, à infância e à família.”

Para perpetuar o romanche ao menos em casa, Aghi sempre se preocupou em fazer da língua em que sonha a primeira de seus três filhos. Foi assim que Andrea Wyss, o primogênito, aprendeu o “dialeto das montanhas”, expressão considerada pejorativa pelos cultores do romanche. Bianco, como Andrea é chamado, é esquiador profissional e professor do esporte no inverno. Conversa com os clientes em alemão, inglês, francês e italiano. Na baixa temporada, se emprega como confeiteiro e pizzaiolo, além de outros bicos.

Os esforços de Aghi em salvar o romanche são louváveis, mas nem sempre frutíferos. Na manhã em que comprou o gorro, os três clientes seguintes na loja de agasalhos dialogaram com o vendedor em suíço-alemão, emitindo o mesmo som que predomina nos cafés e bares de St. Moritz. Nem em casa, na verdade, Aghi consegue fazer milagre. Questionado sobre os escritores que mais lê, Bianco coçou a cabeça e hesitou por um instante. Por fim, respondeu: “A única coisa que leio é a Playboy, e de preferência não a suíça!”

Luiza Mussnich

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