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Posteridade!

Futuro da nação começa mal, mas acaba entrando nos trilhos

Ricardo Cabral

Às 9 da manhã de um recente sábado calorento, na cidade do Rio de Janeiro, quem se embrenhasse pelos arvoredos do Aterro do Flamengo poderia dar de cara com uma pomposa cadeira de braço, dessas com volutas e espaldar alto, próprias para o conforto de magistrados magníficos e sublimes imortais. Posicionado no centro de um tapetinho sobre o gramado, o sólio estava ladeado por duas bandeiras: o lábaro estrelado e o pendão do estado do Rio. Meio tonto com o mistério, o caminhante daria mais uns passos e, de um golpe, perceberia uma arara cheia de becas penduradas. Sem precisar ir mais longe, ele se saberia testemunha involuntária de um sagrado ritual de fim de ano: a foto de formatura.

Naquela manhã, com sua buliçosa energia, quarenta estudantes de enfermagem da Universidade Celso Lisboa preparavam-se para posar para o futuro, tendo ao fundo os sempiternos Baía da Guanabara e Pão de Açúcar. O fotógrafo, Olivan Barros, chamou a turma para explicar o óbvio: quanto mais eles se dispersassem, mais ele demoraria a tirar as fotos e, portanto, mais tempo todos eles ficariam assando a uma temperatura de quase 30 graus.

O apelo não surtiu o efeito desejado. Embora tivessem pagado pela sessão de fotos, os estudantes continuaram inteiramente absortos em fotografar uns aos outros com suas máquinas digitais. Aos poucos, contudo, alguma ordem se impôs. A contragosto, os homens foram compelidos a segurar uns espelhinhos portáteis, de modo que as colegas pudessem acertar o blush, o rímel, a sombra e o lápis de olho.

Olivan avisa que a primeira foto, em grupinhos de oito, deve ser informal. Enquanto o primeiro octeto se arruma, Natália Carrete, filha de uma formanda, fotografa os demais, sendo, porém, constantemente interrompida pelos protestos dos oito primeiros, que não compreendem por que ela está tirando foto dos outros e não deles. Indecisa e com sete câmeras nas mãos, Natália se vira como pode. Retratada numa história em quadrinho, teria dez braços.



Pobre Olivan.  Com paciência tocante, pede que a turma olhe para a câmera dele, porque a dele é a foto oficial. Nada. Ele é obrigado a subir o tom de voz. Quando finalmente consegue atenção, as meninas decidem que a hora é oportuna para implorar por generosidade na edição das imagens. Uma deseja perder os quilinhos a mais, outra quer tirar o frizz dos cabelos alisados, uma terceira gostaria de se ver com seios “um pouco” mais fartos.

Olivan Barros está no ramo há quase três décadas. Aos quinze anos, conseguiu um emprego como assistente de laboratório e hoje, aos 41, dirige a Olivan Fotografias. De notória excelência em assuntos de formatura (bailes, colações, festas e cerimônias em geral), ocasionalmente a empresa faz também casamentos e aniversários. O pacote acadêmico, incluindo revelação e álbum, pode chegar a 500 reais por formando.

No seu tempo livre, Olivan prefere as paisagens naturais, o que é compreensível. Pode-se confiar no mutismo de uma rocha, e coqueiros sabem como se comportar. Na lista de seus percalços profissionais, ele relata que já destruiu uma relação conjugal, quando, numa festa de formatura, fotografou uma bonita cena de amor, infelizmente entre duas pessoas que deveriam amar os respectivos cônjuges. Lembra-se também de ter feito três casamentos de um mesmo noivo, mas assegura que o último acabou com a mania.

 

Encerrada a parte informal da sessão, os formandos seguem para a cadeira pomposa, na qual se sentarão para fotos individuais. Todos terão nas mãos um canudo vazio que fará as vezes do diploma. “Postura ereta, pernas coladas, coluna reta, rosto levantado”, pede Olivan. Aproveitando a falta de supervisão, os outros se espalham e, na falta do que fazer, tiram mais fotos off Broadway: os futuros enfermeiros se abraçam às árvores, fingem-se de estátua, pulam no ar.

Olivan sabe que a hora mais difícil ainda está por vir. É com um aperto no estômago que ele conclama os formandos a entrar em fila indiana, de modo que ele possa distribuir os capelos, aquele chapeuzinho que faz par com a beca.

É a senha: bastou ele falar, as moças começam a ensaiar um número de funk, sempre atentas às possibilidades artísticas da câmera de Natália. Logo param. Difícil saber se o que incomoda mais é o suor que pinga por baixo da beca ou a vontade de ir ao banheiro. Enquanto algumas meninas se contorcem, outras saíam à cata de um banquinho, pois as pernas começavam a pedir clemência depois de quase três horas em pé.

Ainda dispondo de paciência, Olivan alinha os formandos com o Pão de Açúcar ao fundo. A turma tenta sorrir e esquecer o suor que começa a encharcar a roupa. Do meio da massa negra, alguém ergue a mão e pede tempo porque assim não dá, está impossível ficar com o olho aberto debaixo desse sol forte.

Olivan respira fundo, avaliando inconscientemente se não teria sido melhor ganhar a vida como fotógrafo de guerra, e decide ir direto para a última cena, aquela eterna, do pessoal se livrando dos capelos. Com um didatismo consolidado ao longo dos anos, explica que contará até três, quando então todos deverão:

1) arremessar o capelo para o alto;

2) sorrir;

3) abaixar rapidamente o braço; e

4) fazer tudo isso em sincronia absoluta com os outros.

Começa a contagem: “Um… dois… três… Vai!” Ele bate a foto, confere no visor e dá o veredicto: “De novo… Mais rápido!” Numa prova inesperada da existência de Deus, a turma leva poucos segundos para reagir e, ordenadamente, arremessa uma segunda vez os capelos, os quais sobem e descem numa harmoniosa coreografia que deixa a todos felizes, menos a formanda Wilma Bello, atingida por um deles.

Nesse momento, compreende-se uma coisa: a foto de formatura não é mera gandaia, nem mera jequice, nem mera tradição vazia. É, na verdade, o primeiro embate do futuro da nação com os rigores da ordem e da disciplina. É, portanto, um indispensável ritual de passagem.

Ricardo Cabral

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