esquina

Povo? Que povo?

Voto ajuda, mas não é indispensável

Natacha Maranhão
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2008

Primeiro foi a professora Carmem Lúcia, empossada no último mês de junho como vereadora de Pau d’Arco do Piauí com um só voto. Chateada, ela acredita ter havido erro na contagem, pois seu marido, “um homem culto que tem até mestrado em medicina veterinária”, garante que sufragou o nome dela. O voto não apareceu, mas ainda assim, depois de três anos e meio como suplente, Carmen finalmente conseguiu representar alguém – ela mesma – na Câmara Municipal pau-d’arquense.

Bastou um mês para que sua proeza eleitoral fosse desbancada por feito ainda mais espetacular. Em 27 de julho, Armando Dias, do PR, assumiu a vereança em Queimada Nova, na fronteira do Piauí com Pernambuco, sem que absolutamente nenhum dos 5 647 eleitores da cidade tivesse digitado o seu número 22 678 na urna eletrônica – nem ele próprio. Dias, portanto, é um legítimo sem-voto.

A peculiaridade é que, não havendo decisão contrária do TRE, ele continuará a ser um dos nove vereadores do município, com direito ao salário de 1 400 reais. Dias nunca pensou em ser político. Gosta mesmo é de cuidar da sua pequena plantação de milho e feijão. Aliás, no momento anda bastante ocupado, porque é tempo de colheita e o feijão não pode esperar.

O mandato que deveria ter recebido do povo invadiu sua vida como praga de gafanhoto. Nas eleições de 2004, a coligação CCC — Continuaremos Crescendo com Competência , formada por um grupo de amigos, se viu desfalcada depois que Paulino Luís de Sousa teve a candidatura impugnada por motivo de analfabetismo. Aí alguém teve o estalo: “Rapaz, vamos chamar o Dias… Ele sabe escrever!” Pois chamaram o amigo, ele aceitou e a chapa foi registrada, numa ampla coligação que reuniu PMDB, PSDB, PPS, PDT e PL (futuro PR).



Sousa, o excluído, recorreu à Justiça, que achou por bem devolver-lhe o direito de disputar a eleição. Impôs-se uma questão espinhosa: o que fazer com Dias? “Faz nada, não. Deixa ele como suplente”, sugeriram com grande pragmatismo as principais lideranças da chapa. Veio a eleição, na qual concorreram trinta candidatos, e tanto Dias como sua esposa apostaram em Sousa, eleito afinal com 257 votos.

Resolvida a questão, o agricultor pôs uma palhinha no canto da boca e voltou para o campo, de onde nunca pretendera sair. “Eu não fiz campanha. Meu nome só estava lá para constar. Ninguém sabia que ia acontecer uma coisa dessas aí, essa surpresa”, conta, sem esconder o desalento.

 

O que os eleitores não imaginavam era que, empossada a vereança, teria início um vigoroso exercício de pula-pula partidário, prática que só se encerraria em 2007, quando uma resolução da Justiça Eleitoral regulamentou a fidelidade partidária. Com a nova regra, a acrobacia parlamentar acabou se provando um péssimo negócio. Caiu um, caíram dois, caíram três vereadores  um terço da Câmara local.

Embora houvesse cinco suplentes com votação bem mais expressiva do que Dias, o presidente da casa achou que seria uma boa empossá-lo, sob a alegação de que três substitutos estavam automaticamente desqualificados por terem mudado de partido e que outros dois já ocupavam cargos políticos na cidade. Armando Dias, que dormira agricultor, acordou excelso representante do povo. Coçou a cabeça, lançou um olhar lânguido na direção da roça a que dedicara tanto labor e foi cumprir suas obrigações constitucionais.

Empossado, virou ícone pop na cidade, e a casa sossegada onde mora se tornou alvo de visitas diárias. Como ele não tem telefone, a moça do posto telefônico ficou sobrecarregada com as ligações e mais de uma vez foi obrigada a abandonar o posto para ir lá chamar na roça o legislador.

Na política, Dias é fã assumido de Lula. Não conhece a capital do estado e nunca viu o mar. Como a Câmara de Vereadores de Queimada Nova só se reúne uma vez por mês e a última sessão serviu apenas para empossá-lo, o parlamentar ainda não teve o gostinho de participar dos grandes embates políticos da cidade. Diz não saber direito o que um vereador faz, mas intui que uma das obrigações é ouvir as reclamações do povo. Quanto à possibilidade de concorrer à próxima eleição, é categórico: “Quero não. Tenho mais o que fazer.” É pena. Imagine-se aonde chegaria com um voto.

Natacha Maranhão

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