tempos da peste

Prato vazio

Como a pandemia ressuscitou o fantasma da fome entre os pobres

Tiago Coelho
Fila para receber cesta de alimentos no Complexo de Acari, na Zona Norte do Rio: “Uma mulher fez questão de nos mostrar o que tinha no seu armário de comida – apenas farinha de mandioca e sal”, contou Buba Aguiar, do Coletivo Fala Akari
Fila para receber cesta de alimentos no Complexo de Acari, na Zona Norte do Rio: “Uma mulher fez questão de nos mostrar o que tinha no seu armário de comida – apenas farinha de mandioca e sal”, contou Buba Aguiar, do Coletivo Fala Akari CREDITO: FILIPE NUNES_COLETIVO FALA AKARI_2020

Em dezembro, a Associação dos Moradores do Conjunto Habitacional Mandela 1, na Zona Norte do Rio, começou a receber mais e mais visitas. Os moradores queriam saber quando seriam distribuídas as cestas de alimento para o Natal. “Minha despensa está vazia”, disse uma senhora idosa à presidente da associação, Jaqueline de Paula, no dia 15. Não havia nada para dar à mulher, mas De Paula disse a ela: “Volte amanhã, a ONG Rio de Paz prometeu trazer as cestas.”

Às duas da tarde do dia seguinte, De Paula recebeu, via WhatsApp, um áudio enviado pelo coordenador de projetos da ONG, Lucas Louback: “Estamos chegando. Prepara ajuda para descarregar.” Pouco depois, um caminhão de médio porte entrou devagar pela rua principal da favela que fica no Complexo de Manguinhos, formado por catorze comunidades com cerca de 40 mil habitantes, região classificada como a sexta pior do Rio de Janeiro no Índice de Desenvolvimento Social. A favela é composta por casas, barracos e prédios de apartamentos do programa Minha Casa Minha Vida.

Nas ruas estreitas e cheias de gente ninguém usava máscara de proteção contra a Covid-19, apesar de a cidade já estar tomada por uma crescente onda de contágio. O caminhão parou em frente à associação, na entrada de um beco. De Paula, uma mulher negra de 47 anos, alta, de voz rouca e imperativa, estava à espera. Ao perceber o trabalho que daria transportar as cestas, ela correu a uma barbearia minúscula perto da associação e pediu a cinco homens que estavam no local: “Ajudem a esvaziar o caminhão aqui, por favor!” Os homens nem pensaram duas vezes – logo estavam com as cestas nas costas.

De Paula viu um adolescente sentado no meio-fio. Gritou: “Ei, garoto, você vai ficar sentado aí enquanto todo mundo trabalha?” Num pulo, ele se levantou e foi também ajudar. Em pouco tempo, as cem cestas básicas de alimentos e os sacos com 240 kg de tapioca estavam acomodados dentro da casinha sem reboco que serve de sede da associação. “Tenho minha hora de gritar, tenho minha hora de ajudar. Mas todo mundo sabe aqui, na favela, que pode contar comigo nos momentos de tiro, porrada, bomba, enchente e ‘gás acabou’”, disse De Paula.

Os homens ainda estavam descarregando as cestas quando começaram a chegar pessoas no beco para pegar o benefício. Seis voluntárias foram para a rua organizar a fila. “Vamos colocar as máscaras”, pediu uma delas. “Só vai entrar para receber as doações quem estiver de máscara. Quem não tiver ganha uma descartável.”

Uma moradora grávida, aparentando uns 30 anos, olhou para as cestas embaladas em plástico transparente e disse, quase sussurrando e erguendo as mãos como se orasse: “Tem arroz de 5 kg, amém, Nosso Senhor Jesus!” Depois, comentou: “O arroz está 29 reais no mercado. Vai ser um alívio e tanto para esse mês.” O preço dos alimentos foi o que mais disparou em 2020: subiu em média 14%. O arroz ficou 76% mais caro e o óleo de soja, 104%. A cesta básica continha arroz, feijão, fubá, óleo, açúcar, sal, farinha de mandioca, molho de tomate, macarrão, biscoito, farinha de trigo, leite em pó e alguns produtos enlatados. Um pacote de farinha de tapioca era entregue à parte.

A ONG Rio de Paz, que obteve as cestas com o patrocínio de empresas e da sociedade civil, não tem fins lucrativos e atua na mobilização social a favor dos direitos humanos, contra as mortes violentas, a privação de direitos e as desigualdades sociais. Em março, com o início da pandemia, decidiu que também iria garantir a segurança alimentar dos moradores do Mandela. E desde então entrega cestas todos os meses. As cestas básicas daquele dia foram doadas pela empresa Rio Decor.

Louback começou a filmar a fila com o celular. Havia uma maioria de mulheres negras. O coordenador da ONG perguntou quantas delas estavam sem receber o auxílio emergencial do governo. Um terço das mulheres levantou a mão. Em abril de 2020, o governo federal sancionou a proposta apresentada pelo Congresso de dar um auxílio emergencial aos necessitados. O Planalto propôs que o valor fosse de 200 reais, alegando que os cofres públicos não poderiam pagar mais. Pressões dos congressistas e da sociedade civil fizeram o governo aumentar o auxílio para 600 reais por mês, a serem pagos durante cinco meses, sendo que mães solteiras que fossem chefes de família receberiam o dobro. Depois, foram pagos 300 reais durante quatro meses, até dezembro passado. No fim do ano, a Rio de Paz fez manifestações em Brasília defendendo a manutenção do auxílio emergencial, mas, como estava previsto, ele foi extinto. Organizações sociais, partidos e o Congresso estão reivindicando um novo benefício, mas até meados de fevereiro o governo ainda não decidira o que fazer.

Fazia muito calor no Rio de Janeiro, e algumas moradoras do Mandela retiraram as máscaras, sentindo-se sufocadas. Sentada no meio-fio, Rosemere Rosa, de 51 anos, limpava o suor do rosto moreno enquanto aguardava a sua vez de receber a cesta de alimentos. “Será que pode pegar duas?”, perguntou às colegas em volta. Não podia. O cadastro previa apenas uma cesta por pessoa. “As parcelas de 300 reais do auxílio do governo ainda não saíram para mim. Teve algum bloqueio no meu aplicativo”, ela disse. “Preciso ir à agência para resolver. Na minha casa, somos três e vivemos apenas com a aposentadoria do meu pai, que é de um salário.”

Se dividimos a aposentadoria de 1 045 reais (o valor do salário mínimo na época) entre o pai, Rosa e sua filha, a renda mensal per capita da família é de 348 reais. Na classificação do Banco Mundial, se a renda per capita é inferior a 436 reais, a pessoa vive em condição de pobreza. Se inferior a 151 reais, em situação de extrema pobreza. A família de Rosa gravita entre as duas categorias. “Eu fazia uns bicos de faxina, mas desde que apareceu a Covid não tenho achado trabalho”, disse ela. “Passei o ano catando latinhas e garrafas para ajudar em casa.”

Antes da pandemia, Jaqueline Peres, de 36 anos, mãe solo de dois filhos, vivia unicamente com o benefício de 178 reais do Bolsa Família. Complementava a renda dando aulas de reforço escolar de disciplinas do ensino fundamental para crianças da favela. Com o isolamento social, ela perdeu todos os alunos. “O auxílio foi minha salvação. Mas no mês passado clonaram meu cartão do Bolsa Família e fiquei sem receber a última parcela. Sem essa cesta, ficaria muito difícil sustentar minha família nesse momento”, disse. Segundo uma pesquisa feita pelo Ibope Inteligência e o Unicef, 30% das famílias das classes D e E no Brasil passaram fome durante a pandemia.

Na hora de distribuir as cestas, De Paula convocou todas as mulheres idosas, grávidas ou com algum tipo de deficiência para o início da fila. Uma motocicleta passou velozmente pelo beco. A líder comunitária berrou: “Ô, Fedorento, passa devagar! Não está vendo o pessoal aqui na fila?” Dias antes da entrega da cesta básica, um incêndio atingiu vários apartamentos de um conjunto habitacional da favela. De Paula foi às redes sociais pedir doações de móveis, roupas e alimentos para as famílias afetadas. “Bato nas portas das ONGs, vou na Fiocruz [a comunidade é vizinha da Fundação Oswaldo Cruz] perguntar se tem vaga de auxiliar de serviços gerais para as mulheres da favela. Vou na Cadeg [mercado municipal] ou no Ceasa [centro estadual de abastecimento] pedir doações de frutas e legumes para os moradores”, disse. “Me viro nos trinta para ajudar.”

De Paula mora no Complexo de Manguinhos desde que nasceu. Começou a fazer trabalho comunitário ainda jovem. Em 2013, foi eleita presidente da Associação dos Moradores do Mandela 1 e está em seu segundo mandato. É mãe de doze filhos e sabe por experiência própria o que é passar fome.

 

Dois dias depois da entrega das cestas, em 18 de dezembro, a ONG Rio de Paz voltou à favela do Mandela. O pastor e teólogo presbiteriano Antônio Carlos Costa, ativista social e fundador da ONG, queria gravar depoimentos de famílias que dependiam do auxílio emergencial para incluir em uma campanha a favor da manutenção do benefício. “Eu ando o Rio de Janeiro todo, entro em tudo o que é favela. E essa daqui é uma das mais precárias e certamente vai ser muito afetada pelo fim do auxílio a partir de janeiro”, disse Costa.

Jaqueline de Paula levou o pastor para falar com as famílias que vivem à beira do Rio Jacaré, largo e poluído, mas onde algumas crianças costumam tomar banho no verão. Nas casas próximas ao rio, vivem os mais pobres da comunidade. E esse é o padrão em todas as favelas, pois a área próxima ao rio traz o ônus de enchente, mau cheiro, mosquitos e ratos. Muitos não estavam em casa naquele horário, por volta do meio-dia. “É fim de ano, pastor. Muita gente tá na rua fazendo um bico, buscando trabalho. As pessoas sabem que o bicho vai pegar com o fim do auxílio”, disse De Paula.

Ela bateu palmas na frente de uma casa muito pequena, com a porta de vidro fechada. Um garoto magro e sonolento, de 11 anos, atendeu. De Paula pediu que ele chamasse a mãe. Daniela de Carvalho Silva, de 33 anos, quase tão magra e baixinha quanto o filho, chegou à porta. Ao ver a líder comunitária, sorriu. “Ficaram ótimas as roupinhas de criança que você conseguiu para mim”, disse Silva. De Paula havia feito uma campanha nas redes sociais para as pessoas apadrinharem algumas famílias muito pobres do Mandela, doando roupas e presentes de Natal.

Outros três meninos apareceram e se engancharam entre os braços e as pernas da mãe. Silva mora com o marido e seis filhos (duas são gêmeas de colo) na casa de alvenaria de cinco cômodos muito pequenos. Antes da pandemia, ela engravidou e perdeu o emprego de chapeira de lanchonete, pois não tinha carteira assinada. No início de 2020, quis voltar a trabalhar, mas o fechamento de creches e escolas a forçou a ficar com as crianças na casa alugada por 450 reais mensais. Costa aproveitou para fazer um vídeo e fotos de Silva com os filhos, falando sobre suas necessidades e a importância do auxílio emergencial para a renda familiar.

Silva contou que seu marido, que é pedreiro, viu o volume de trabalho diminuir durante a pandemia e a renda da família passou a ser, em média, de cerca de 2 mil reais mensais, ou seja, 250 reais por pessoa. Silva passou a fazer as unhas de vizinhas, além de contar com as cestas básicas da associação. Ao falar sobre como ficaria a situação da família a partir de janeiro, sem o auxílio emergencial, ela suspirou e disse: “Vou ter que aumentar a clientela para fazer a unha… Só Jesus para ajudar a gente. Mas até aqui, pelo menos o arroz com feijão não faltou. Nem posso deixar que falte.”

 

João Luis Silva, 37 anos, é articulador social da ONG Rio de Paz, responsável por desenvolver ações e projetos. Em 2010, ele foi preso por estelionato e passou cinco anos encarcerado. Quando foi libertado, tratou de reconstruir a vida. Entrou para a faculdade de direito e passou a trabalhar na Rio de Paz. Com outros três amigos universitários, também egressos do sistema prisional, fundou em 2017 a associação Eu sou Eu, uma rede de apoio a presos e seus familiares, que esclarece procedimentos jurídicos, acompanha os processos, zela pelos direitos dos presos e promove aulas e debates sobre cidadania. Também fornece cestas de alimentos às famílias dos presos.

Na subida do Morro dos Macacos, em Vila Isabel, Zona Norte do Rio, Silva encontrou-se com dois integrantes da associação Eu sou Eu: o estudante de história Cristiano de Oliveira, 42 anos, e a pedagoga Joyce Gravano, de 35 anos, importante liderança feminina e do movimento negro em São Gonçalo, no Grande Rio. Como Silva, os dois passaram pelo sistema carcerário. Era dia 17 de dezembro e o grupo ia visitar a mãe de um rapaz de 27 anos que estava preso havia nove meses para entregar uma cesta com alimentos e produtos de higiene e limpeza.

Todos subiram dezenas de lances de escada na favela até chegar à casa de Cristiane Barros, no topo do Morro dos Macacos. Ela estava sentada no sofá da sala pouco iluminada, onde havia uma poltrona, uma mesa, uma televisão e um pôster com um salmo bíblico. Ao seu lado, estavam a mulher e a sogra de seu filho. Barros, uma mulher negra de 45 anos, dirigiu um sorriso acolhedor às visitas, mas parecia um tanto deprimida. Silva disse: “Nós somos uma rede para ajudar pessoas que, assim como nós, passaram pela situação que o seu filho está passando. Os presos e familiares, quando passam por essa experiência, tendem a achar que é o fim de tudo, mas não é.”

Silva pediu que Barros contasse um pouco da história da prisão de seu filho. Ele tinha uma barraca de doces e bebidas num largo da favela. No mesmo local, as pessoas costumavam se divertir jogando ronda, um jogo de cartas, apostando dinheiro. No final de 2019, um oficial de justiça entregou na associação da comunidade um mandado judicial para o rapaz e outros homens, todos eles acusados de associação com o tráfico. “Meu filho ficou surpreso e disse: ‘Mãe, se a polícia vier aqui, pode abrir a casa e deixar entrar. Eu não devo nada a ninguém.’”

Em março, houve uma operação policial no Morro dos Macacos para efetuar a prisão dos nomes que constavam no mandado. O filho de Barros foi preso. “No processo do meu filho há uma mensagem de WhatsApp de um amigo dele, que foi mal interpretada. Diz: ‘Está armado aí?’ Meu filho respondeu que não. E a polícia achou que fosse uma conversa sobre armas. Mas era sobre o jogo de ronda, se estava armado”, contou a mãe.

A família contratou um advogado que, para cuidar do caso, cobrou 7 mil reais – uma entrada e dez parcelas de 390 reais. Barros disse que o processo estava em fase de alegações finais e que o juiz havia negado o pedido de liberdade provisória para seu filho. Ela queria saber se era melhor recorrer à Defensoria Pública ou continuar com o advogado. “Se me permite um conselho, se o caso está nas alegações finais e o advogado que a senhora contratou está familiarizado com o processo, continue com ele até sair o resultado da sentença”, respondeu Silva.

“Por que negaram o pedido de liberdade provisória pro meu filho?”, perguntou Barros. “Depende de cada juiz. Meu advogado tentou minha liberdade em primeira instância, a juíza negou. Depois tentou na segunda instância, os desembargadores negaram. Só fui conseguir no STF”, disse Gravano, que ficou presa setenta dias. Ela contou que foi casada com um homem que tinha envolvimento com o tráfico. “E, como se diz, paguei castigo, fui presa. O advogado cobrou 20 mil reais. Ele conseguiu prisão domiciliar. Eu acabei inocentada por falta de provas.”

Barros disse que em março quis visitar o filho no presídio, mas foi impedida por causa da pandemia, já que tem obesidade mórbida, é hipertensa e diabética. Para seu alívio, o rapaz está na ala dos presos evangélicos. “Além da barraquinha, ele juntava latinhas para sustentar as filhas, que são o xodó dele. Estava se encaminhando para Jesus. Não tinha vício em drogas. A única coisa que ele gostava era de jogo. E nós, que moramos aqui no morro, não escolhemos com quem vamos conviver.”

Na casa de 40 m2 e quatro cômodos, moram atualmente apenas Barros e o filho mais novo, de 20 anos. Ela trabalhou como doméstica, mas nos últimos cinco anos não pôde continuar, por causa da obesidade. Ela conseguiu atravessar o ano de 2020 com a ajuda do auxílio emergencial e um dinheiro extra que o filho mais novo conseguiu como ajudante de obra. Mas precisou pagar o advogado e as despesas do filho na prisão. “Lá não pode entrar arroz e feijão, só biscoito e alimento industrialmente embalado”, disse. “Precisa mandar dinheiro para comprar comida na cantina. Compro sempre as coisas que ele gosta, mesmo que fique mais apertado aqui em casa.” Gravano a consolou: “Na prisão a gente acostuma, dona Cristiane. Eu não comia um monte de coisas e passei a comer. E sempre vai ter alguém para dividir com ele alguma comida, e ele vai dividir a dele com alguém.”

Em agosto, devido a um erro no cadastro de Barros no auxílio emergencial, o benefício atrasou em algumas semanas. A comida na despensa foi rareando e a geladeira ficou vazia. Também faltou dinheiro para comprar gás. Ela passou um dia e meio sem fazer uma refeição sequer. Tomou coragem e falou com um vizinho de sua privação. Ele, que tinha tão pouco quanto ela, lhe emprestou um micro-ondas velho. Barros conseguiu cozinhar pelo menos o arroz. No dia seguinte, chegou uma providencial cesta de alimentos doada por amigos da igreja evangélica que ela frequenta. Na semana posterior, ela conseguiu obter a liberação do auxílio emergencial. Para algumas pessoas em situação muito precária, uma falha no cadastramento pode ser o prenúncio da fome.

Por causa de seu estado de saúde, Barros foi aconselhada pelo médico a fazer uma dieta à base de frutas, verduras e alimentos nutritivos, não calóricos. Mas as dificuldades não têm permitido que ela faça o regime. Há mais de um ano não compra nem carne vermelha nem peixe. Raramente come frango ou ovos. Compra os legumes mais baratos, como batata e cenoura. As proteínas do dia a dia são salsicha ou linguiça, dois embutidos de alto valor calórico e ultraprocessados. Em sua casa, o cardápio mais frequente durante a pandemia foi arroz, feijão e ensopado de batata com linguiça ou salsicha.

“Vai até a minha geladeira na cozinha e abre para você ver como está vazia”, me sugeriu Barros. Para chegar à cozinha, passei pelo único quarto da casa, um lugar úmido, com marcas de infiltração no teto e na parede, iluminado apenas por uma pequena janelinha. A cozinha era ainda menor que os outros cômodos e tinha uma parte da laje escorada por uma estaca de madeira. Era tudo tão pobre e precário que fiquei sem jeito de abrir a geladeira para constatar o que era evidente. “Em comunidade, quando o sujeito é traficante, a família é amparada pelo tráfico e tem uma renda para se manter. Como meu filho não é nada disso, a gente não tem nada. Mas meu Senhor tem me ajudado”, disse Barros e perguntou para as visitas: “Vocês acham que a mãe de um traficante estaria nessa situação que eu tô?”

Os integrantes do Eu sou Eu partiram no fim da tarde dizendo a Cristiane Barros que entrasse em contato com eles a qualquer momento para tirar dúvidas, pedir conselhos, conversar ou para qualquer dificuldade que viesse a enfrentar.

 

Os projetos sociais desenvolvidos pelo Coletivo Fala Akari sempre tiveram como foco as áreas de educação, cultura e esporte para as crianças. Mas, quando a Covid-19 começou a se espalhar no Brasil, os ativistas do coletivo mudaram de planos e canalizaram esforços para garantir a segurança alimentar dos moradores mais pobres do Complexo de Acari, na Zona Norte do Rio, com 27 mil habitantes. Entre os bairros da cidade com pior Índice de Desenvolvimento Social, Acari ocupa o sexto lugar.

No dia 22 de dezembro, Buba Aguiar, de 28 anos, integrante do coletivo, foi parada por uma vizinha na rua onde mora, também na favela de Acari. A mulher lhe perguntou se haveria doação de cestas básicas antes de o ano terminar. Aguiar respondeu que, infelizmente, as doações para 2020 tinham acabado.

Bastante ativa nas redes sociais, ela escreveu depois no Twitter: “Tá me doendo demais o coração as pessoas me procurarem pra pedir cesta básica ou perguntar se vai ter doação de cestas agora no final do ano e eu responder que não.” Pouco tempo depois do tuíte, usuários da rede social apoiaram a criação de uma vaquinha virtual e contribuíram para a arrecadação. No dia 30, um caminhão estacionou na frente do galpão do Espaço Cultural Mães de Acari e descarregou cem cestas básicas.

“Do início da pandemia até agora, distribuímos doações para mais de 2 mil famílias. Mas ainda é pouco, tem muito mais gente passando aperto aqui na favela”, disse Luis Melo, 23 anos, enquanto preparava a distribuição das cestas. O coletivo tinha a intenção de promover, em 2020, atividades esportivas, cursos culturais e sessões de cinema, mas teve que mudar de plano, ao constatar como era urgente ajudar as pessoas durante a pandemia. A prioridade passou a ser entregar cestas de alimentos, álcool em gel e produtos de limpeza. “As redes sociais nos dão visibilidade e criam pontes para conseguirmos apoio de empresas e instituições, como Fiocruz, Cruz Vermelha, Natura, Havaianas. Mas o principal apoio vem de pessoas que acompanham nosso trabalho através das redes sociais. Foi o que permitiu a gente fazer tanta coisa no ano que passou”, disse Aguiar, que é estudante de ciências sociais na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

A favela de Acari fica no entorno do Ceasa, que ficou bastante tempo com pouco movimento, por causa do isolamento social. Muitos moradores trabalhavam ali. Vendedores de frutas e legumes da favela também foram prejudicados pela falta de produtos. Outros profissionais, como diaristas e pedreiros, foram demitidos ou passaram a trabalhar menos que antes. Tudo isso o pessoal do coletivo constatou de perto, falando com as famílias.

Miriam Silva Souza, de 48 anos, mãe de dois adolescentes e membro do coletivo, contou: “Quando fomos ao Terra Nostra, uma parte da favela com barracos muito pobres, deparamos com uma família em que a mãe, que não recebia auxílio emergencial, sustentava os seis filhos catando alimentos desprezados no Ceasa. Outra mãe, com três filhos, não tinha nada no armário, pois tinha perdido toda a fonte de renda. Antes da pandemia, ela vendia doce no sinal, na Barra da Tijuca, mas, sem escola nem creche, não teve com quem deixar as crianças. Parou de trabalhar e, sem dinheiro, teve que devolver o barraco de três cômodos que alugava. Por sorte, os irmãos da igreja levantaram uma casa de tijolo para ela na beira do rio.”

O coletivo observou um aumento no número de famílias que passou a cozinhar em fogão a lenha por não ter dinheiro para comprar botijão de gás. “Quando eu era criança, a pobreza aqui na favela era muito grande, e muita gente cozinhava a lenha. Mas fazia mais de trinta anos que eu não via isso acontecer”, disse Souza. Em 2020, o gás de cozinha subiu 9,24% em relação a 2019, um aumento superior à inflação, que fechou com alta de 4,52%, a maior desde 2016.

Às 15 horas, na frente do galpão amplo onde o Coletivo Fala Akari desenvolve suas atividades culturais, já havia uma fila, formada majoritariamente por mulheres negras, como ocorreu na favela do Mandela. Quem organizava a fila era Souza, enquanto pedia que as pessoas usassem máscaras. Melo ficou encarregado de medir a temperatura dos moradores na entrada. Dentro do galpão, em duas mesas, ativistas do coletivo faziam perguntas para os beneficiados com a cesta básica. O Fala Akari havia preparado um formulário online sobre composição familiar, emprego e outros temas para que os moradores respondessem. O objetivo era fazer um pequeno censo instantâneo que ajudasse a entender as condições de vida das famílias. Eliovania Soares Nunes, de 54 anos, respondeu que era dona de casa e beneficiária do auxílio emergencial. Heloisa Helena da Silva, de 61 anos, ganhava um salário mínimo trabalhando como gari comunitária e era uma das poucas pessoas ali a ter carteira de trabalho assinada.

Por volta das 16 horas, entrou uma mulher muito magra, de andar vacilante e com uma máscara escorregando pelo rosto, pois o elástico estava frouxo. A sua voz era um assovio fraco. Ela respondeu com frases muito curtas às perguntas feitas pelos ativistas. Cláudia dos Santos estava desempregada, vivia com a filha de 15 anos. Perguntei-lhe se era beneficiária do auxílio emergencial. A mulher respondeu que não, balançando a cabeça. Indaguei então se o auxílio havia sido negado ou se ela tivera algum problema com o cadastro. A mulher, de novo, fez que não com a cabeça e contou que não tinha celular. De rosto muito fino e enrugado, os olhos amarelados, ela parecia uma senhora de mais de 60 anos, mas tinha 48. Ela me contou que não almoçara naquele dia e não tinha nada para comer em casa. Que, no dia anterior, havia comido apenas um pouco de arroz com frango dado pela vizinha. “E anteontem foi a mesma coisa”, completou. “Roubaram meu botijão de gás de dentro da minha casa. Não tenho como fazer comida. A gente vai se virando. Faço uns trabalhos de faxina. Peço ajuda aos vizinhos. Melhor pedir do que roubar”, disse, enquanto colocava sua cesta básica num carrinho de feira.

“Se o auxílio emergencial acabar, a gente não sabe o que vai ser dessas pessoas neste ano”, afirmou Aguiar. “Nossa previsão é que a pobreza irá aumentar muito.” Ela descreveu uma situação que a deixou abalada: “A gente aqui no coletivo nunca pede para ver o armário de comida de ninguém. Mas uma mulher fez questão de nos mostrar: tinha apenas farinha de mandioca e sal. Ela fazia uma papa de farinha, sal e água, e era disso que vinha se alimentando até a gente entregar a cesta. Isso ocorreu na Zona Norte do Rio de Janeiro. Ocorreu no ano de 2020!”

As cem cestas do coletivo serviriam para alimentar 390 pessoas, sendo 140 crianças e 28 idosos. Entre as 100 famílias que as receberam, 61 haviam obtido o auxílio emergencial. Em 13 delas, algum integrante tinha sido infectado pela Covid-19. Comparando a situação antes e depois da pandemia, o coletivo apurou que o índice de desemprego nessas famílias passou de 69% para 80%, e os empregos com carteira assinada caíram de 14% para 5%.

 

Em outubro de 2020, o Banco Mundial estimou que a pandemia lançaria entre 88 e 115 milhões de pessoas na extrema pobreza em todo o mundo. Se isso ocorrer, será um retrocesso de mais de vinte anos, pois o número de pessoas em situação de pobreza extrema vinha diminuindo globalmente. No Brasil também acontecia o mesmo, mas nos últimos cinco anos começou a ocorrer um progressivo aumento do número de pessoas em situação de pobreza extrema, segundo Rogério Jerônimo Barbosa, professor do Instituto de Estudos Sociais e Políticos (Iesp) da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). Em 2018, havia 13,5 milhões de brasileiros nessa situação. No ano seguinte, ainda antes da pandemia, o número passou para 13,7 milhões – ou seja, 6,7% da população.

“O desemprego começou a crescer a partir de 2015. Em 2016, o trabalho informal passou a responder ao impacto do desemprego, mas o mercado de trabalho formal não reagiu”, explicou Barbosa, que é pesquisador do Centro de Estudos da Metrópole da Universidade de São Paulo (USP). “Houve também o recrudescimento das regras de acesso a políticas de assistência social, como Bolsa Família e seguro-desemprego. Sucessivos governos nos últimos cinco anos passaram a desarmar as políticas de auxílio aos mais pobres. A verba para o Bolsa Família diminuiu e muita gente que tentou obter o benefício não conseguiu. Houve ainda o subfinanciamento da estrutura de assistência social, o que afetou a política de recadastramento dos pobres feita pelo Centro de Referência de Assistência Social (Cras). A proteção aos mais pobres foi erodindo enquanto a pobreza crescia.”

A soma disso tudo significou que muitos brasileiros, que havia alguns anos saíram da pobreza ou pobreza extrema, voltaram à situação anterior. “Sistematicamente, desde 2015, os pobres estão em crise. O PIB cresceu de cima para baixo. Primeiro se recuperaram os mais ricos, mas a recuperação econômica não chegou aos mais pobres. Quando veio a pandemia, o pobre estava em seu pior momento”, afirmou Barbosa.

O pagamento do auxílio emergencial reduziu, por um período, o número de pessoas vivendo na penúria. Em 2019, 24,7% viviam na pobreza, e 6,5% em extrema pobreza. Em agosto de 2020, as porcentagens recuaram para 19% e 2,3%. “O auxílio colocou essas pessoas em melhor situação do que estavam em 2019. Mas a gente precisa levar em conta o vazio de proteção social que elas já experimentavam antes”, continuou Barbosa. “O auxílio é uma solução temporária. Não devolve o emprego das pessoas, nem faz a economia de fato se recuperar. Conceder 600 reais a uma família, por tempo definido, não é promovê-la à condição de classe média, pois ela continua a viver nas mesmas condições precárias, em lugares distantes do trabalho, sem serviços públicos e saneamento básico.”

Quando se faz um recorte de raça, o cenário fica ainda mais desigual. De acordo com o IBGE, em junho de 2020 o desemprego atingia 18,2% das mulheres negras (incluindo pretas, pardas e indígenas) e 11,3% das brancas. “O Brasil é estruturado em um conjunto de desigualdades que se acumulam e se sobrepõem”, disse a economista Barbara Cobo Soares, professora da Escola Nacional de Ciências Estatísticas (Ence), no Rio, e autora do livro Políticas Focalizadas de Transferência de Renda. “Quando você tem uma crise como a pandemia, são os grupos historicamente mais vulneráveis os mais afetados. São pessoas que têm no trabalho informal a única fonte de renda da família. Além disso, o arranjo familiar mais comum na população pobre é: mulher sem o cônjuge e com filho ou filhos. E, então, uma série de problemas se acentua, como a dificuldade de conseguir creche e escola em tempo integral para que a mãe possa trabalhar ou procurar emprego.”

O economista Daniel Duque, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) da Fundação Getulio Vargas, fez no fim de dezembro passado uma projeção: ele calculou, que, com o desemprego em massa e o fim do auxílio emergencial, a pobreza extrema pode atingir entre 10% e 15% da população, ou seja, entre 21 milhões e 31 milhões de brasileiros. “O mercado de trabalho foi muito afetado pela pandemia. E os mais impactados foram os trabalhadores informais e mais pobres. Alguns imaginavam, entre eles eu, que durante a recuperação depois do pico da pandemia haveria uma expansão do mercado de trabalho informal. Porém, nos últimos meses, o que se tem visto é a recuperação mais robusta do trabalho formal entre aqueles trabalhadores com maior rendimento.”

Para Barbosa, não há outra maneira de conter o aumento da pobreza neste ano a não ser dando continuidade ao auxílio emergencial. “Ele não resolve a situação criada pela pandemia, mas resolve as necessidades mais urgentes, evita que a população venha a morrer também de fome.”

 

O Complexo de Manguinhos, onde fica Mandela 1, está separado da favela do Jacarezinho por um trecho da Avenida Dom Hélder Câmara, que é chamado pejorativamente de Faixa de Gaza por ser uma área onde ocorrem constantes tiroteios. Para entrar no Jacarezinho, é preciso atravessar uma linha de trem, em torno da qual dezenas de usuários de crack se amontoam em barracos improvisados de lona e madeira. Na tarde de 6 de janeiro, uma equipe de profissionais de saúde caminhava entre eles fazendo perguntas, difundindo informações e distribuindo camisinhas.

Depois da linha férrea, chega-se a uma rua apinhada de gente e com tráfego frenético de motos, perto do Rio Jacaré. Em um sobrado de três andares na Rua do Rio fica a sede da ONG Rio de Paz. No primeiro andar, há uma cozinha industrial, e foi ali que, entre março e novembro, voluntários prepararam mais de trezentas quentinhas por dia (além de 1,2 mil sanduíches nos fins de semana) para moradores da favela.

Durante aqueles meses, diariamente, a partir das 16 horas formavam-se filas enormes na porta da ONG, que, neste projeto, teve o apoio da empresa ferroviária MRS, que gere a linha de trem ali perto. As quentinhas eram distribuídas a partir das 18 horas. Os voluntários da cozinha também comiam ali e, depois, levavam quentinhas para seus familiares. No final do mês, recebiam cestas de alimento.

Quem coordenou o projeto foi Janaina de Oliveira, de 40 anos, moradora do Jacarezinho e secretária da ONG. Antes da pandemia, ela se dedicava a encaminhar moradores para vagas de emprego. “Digo, pela minha experiência, que aqui na favela 50% das pessoas trabalham informalmente. Quando teve o isolamento, elas ficaram de mãos atadas”, disse Oliveira. “Além disso, metade dos que trabalhavam de carteira assinada foi prejudicada com cortes de funcionários nas empresas, porque suas funções eram presenciais, não tinha esse papo de home office. Muita gente ficou desempregada. E quando voltou a ter uma abertura, a partir de agosto, já não tinha tanta oferta de emprego. Virou um caos.”

No início de janeiro, os voluntários foram chamados à sede da Rio de Paz. Ficaram sabendo que, por causa da situação na comunidade, seriam convocados de volta para fazer as quentinhas tão logo a ONG conseguisse novos patrocínios. Entre os voluntários estava Francisca Maria Camelo Vale, de 31 anos, mãe de dois filhos, de 5 e 9 anos, que ela cria sozinha no Mandela.

Vale trabalhava como atendente de loja, mas o trabalho pesou quando teve seu segundo filho, pois não tinha dinheiro para pagar uma babá. Ela resolveu ficar em casa para cuidar das crianças, mantendo-se com os 176 reais do Bolsa Família e trabalhando esporadicamente como faxineira ou vendendo empadinha na rua.

A pandemia extinguiu essas fontes de renda extra. Sem dinheiro para comprar comida, durante quase duas semanas ela e os filhos comeram angu e feijão em todas as refeições. Se sobrava um trocado, Vale comprava ovo. A família só voltou a comer proteína animal, de carne ou frango, quando ela se tornou voluntária da cozinha da ONG, em abril do ano passado. As coisas melhoraram um pouco mais a partir do momento em que ela passou a receber os 1,2 mil reais do auxílio emergencial. No meio do ano, ela foi viver com o namorado, que tinha acabado de sair da prisão e estava com dificuldade para encontrar trabalho. Por fim, ele conseguiu emprego em um lava a jato, o que lhe permite agora levar diariamente 30 reais para casa, menos nos dias de chuva, quando diminui o número de carros para lavar.

Vale também está à procura de trabalho. “Qualquer coisa, mas está muito difícil. Não tenho o segundo grau”, disse. As cestas de alimentos da ONG Rio de Paz têm sido muito úteis para a sua família, mas as quentinhas estão fazendo falta. Ela contou que, na hora de comer, o casal dá prioridade às crianças. “A gente que é adulto come arroz e feijão e está bom demais. Toma um cafezinho puro e está ótimo.” Quando não chove, todo mundo na família fica contente. É provável que o namorado volte para casa com alguma boa surpresa – quem sabe alguns ovos, quem sabe um pedaço de frango.



Tiago Coelho

Repórter da piauí e roteirista de cinema

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