tribuna livre

Presidencialismo do desleixo

O modo Bolsonaro de governar

Fernando Limongi
A atenção dedicada por Bolsonaro à agenda legislativa é nula, se comparada à importância que ele dá aos interesses da família. Prioridades são prioridades, e a família está acima de tudo
A atenção dedicada por Bolsonaro à agenda legislativa é nula, se comparada à importância que ele dá aos interesses da família. Prioridades são prioridades, e a família está acima de tudo CRÉDITO: ROBERTO NEGREIROS_2019

Jair Bolsonaro tem uma agenda. Logo após tomar posse, editou decretos, assinou medidas provisórias e enviou projetos de lei ao Congresso Nacional. Como as atenções se concentraram na PEC da Previdência, o conteúdo de sua agenda foi relegado a um plano secundário. A Previdência, contudo, não figura no centro das preocupações do presidente. Em mais de uma ocasião, ele demonstrou contrariedade por se ver forçado a patrocinar essa medida impopular e, sempre que pôde, evitou se pronunciar sobre o assunto. Os interessados na aprovação agradeceram o silêncio, pois cada fala presidencial representava um risco à aprovação da reforma.

O que realmente importa a Bolsonaro são propostas como o decreto que libera a posse de armas, a retirada de radares das estradas, a MP da Liberdade Econômica e outras medidas do gênero. Mas é exagero dizer que essas questões o mobilizam. Mais correto seria afirmar que são coisas que passam pela cabeça dele, questões pelas quais se interessa – o que não significa que se esforçará para aprová-las. Quando não pôde fazer valer sua vontade assinando decretos, Bolsonaro pouco ou nada fez para transformar seus projetos em lei. E isso vale também para as medidas provisórias que editou.

A coisa só muda de figura quando os interesses da família estão em jogo. Bolsonaro é antes de tudo um oportunista, à espreita do melhor momento para defender o que é seu e dos seus. Como afirmou, não vai deixar passar oportunidades de garantir que sua família tenha filé mignon à mesa.

Crítico da negociação política e da formação de uma base de apoio consistente, o capitão artilheiro substituiu o presidencialismo de coalizão pelo desleixo. Na sua concepção, o papel de presidente se resume a propor mudanças. A responsabilidade por vê-las aprovadas e implementadas fica inteiramente a cargo do Congresso e de quem tem interesses nelas. Liberado por conta própria da tarefa mundana de governar, o presidente se ocupa da realização de lives em cadeiras de barbeiro e da interação com os fãs, disparando insultos e disparates. Nunca se sabe qual barbaridade do dia chegará ao noticiário e fará a felicidade dos produtores de memes. Só uma coisa é certa: as diatribes diárias não incluem propostas políticas sérias ou exequíveis. Assim, ao desleixo com que trata a Presidência, soma-se a mais completa irresponsabilidade.



Durante a campanha, Bolsonaro anunciou que não tinha a menor aptidão ou preparo para exercer o cargo ao qual se candidatara. Saía pela tangente sempre que perguntado sobre seus planos para a economia, saúde e educação. Vezes sem conta, declarou que delegaria a seus ministros a tarefa de elaborar as políticas e que estes seriam escolhidos por sua competência, e não por indicação política. Paulo Guedes foi elevado a paradigma da delegação ministerial inteira – e a respeito de tudo que era sério e relevante, melhor seria conversar com o Posto Ipiranga.

Bolsonaro deu poucas pistas sobre os demais nomes que integrariam o seu governo. De fato, até sofrer o atentado em Juiz de Fora, não demonstrou nem mesmo acreditar na própria candidatura. Foi durante a internação que se deu conta de que, no seu caso, nada dizer era a melhor forma de ganhar votos.

Na sua estratégia de campanha, o futuro dos filhos falou mais alto que a própria candidatura. Para garantir os votos que esperava transferir para Flavio e Eduardo, rejeitou todas as alianças eleitorais arquitetadas por seus lugares-tenentes. O isolacionismo familiar tornou difícil encontrar um partido para chamar de seu. Bolsonaro acabou no PSL, que concordou em lhe alugar a sigla. O contrato arquitetado por Gustavo Bebianno veio com prazo definido para devolução, e Luciano Bivar se afastou temporariamente da presidência do partido. Sabe-se lá o que combinaram e se a possibilidade de vitória de Bolsonaro entrou nas negociações. O fato é que, formalmente, Bivar manteve o controle, indicando que reassumiria o partido após a eleição.

A família esperava ser alavancada pelos votos do pai. A conquista da Presidência pode ter entrado no cálculo, mas como estratégia de longo prazo – para 2022. Em 2018, as chances de vitória eram remotas, quase nulas. Impulsionado, porém, pelos erros dos adversários e por um atentado que lhe garantiu muito tempo de exposição nos meios de comunicação tradicionais, o candidato despreparado chegou lá. E se viu forçado a lidar com a estafante tarefa de governar um país à beira do abismo.

A despeito de tudo que se sabia de Bolsonaro, e de tudo que ele não sabia, os mais escolarizados e endinheirados foram os primeiros a aderir à candidatura dele, pois a indicação prévia de Paulo Guedes foi suficiente para garantir que seus interesses seriam preservados. A indicação de Sergio Moro, mais tarde, para a pasta da Justiça trouxe alívio adicional, convencendo os menos entusiasmados de que Bolsonaro se cercaria de auxiliares competentes.

Tanto Guedes quanto Moro receberam, então, a carta branca que Bolsonaro disse que daria aos seus ministros. Guedes escolheu livremente seus auxiliares, inclusive Joaquim Levy (ex-ministro da Fazenda do governo Dilma) para o BNDES, confirmando assim que, na hora de selecionar seus “técnicos”, a expertise prevaleceria sobre os vínculos políticopartidários. Com o deslocamento do Coaf para sua pasta, Moro teve a garantia de que disporia dos meios para fazer do combate à corrupção uma prioridade do novo governo. O “mercado” e os “lavajatistas” resolveram dormir tranquilos. A aposta no candidato tosco dera certo.

Num primeiro momento, pareceu que o tino político de Bolsonaro se sobreporia às bravatas de que se ele valera para alcançar notoriedade – e o “mito” se curvaria à realpolitik. Tal suspeita ganhou velocidade quando a equipe do presidente eleito abordou Viviane Senna, convidando-a para ocupar o Ministério da Educação. Como Temer, Bolsonaro parecia querer recrutar seu dream team entre figuras com respaldo na opinião pública esclarecida.

Viviane Senna, contudo, declinou do convite, não sem antes sugerir o nome de seu fiel escudeiro, Mozart Neves Ramos. Confirmado no posto por assessores do presidente, Ramos foi desconvidado por Bolsonaro pouco tempo depois. Os membros do seu clã haviam vetado o nome ungido por Senna e saíram a campo para encontrar um dos seus para gerir a pasta da Educação.

A partir daí, consolidou-se a visão de que o governo era composto de duas partes antagônicas. De um lado, estariam os expoentes do modelo “Posto Ipiranga”, Guedes e Moro, aos quais se juntavam, dependendo do momento, Tarcísio Gomes de Freitas (ministro da Infraestrutura) e Tereza Cristina (Agricultura, Pecuária e Abastecimento). De outro lado, os nomes saídos da cozinha familiar, menos exuberantes e sem apoio da opinião pública, mas fortemente engajados na cruzada cultural do bolsonarismo raiz, como Ricardo Vélez e Abraham Weintraub (Educação), Damares Alves (Mulher, Família e Direitos Humanos), Ernesto Araújo (Relações Exteriores) e Ricardo Salles (Meio Ambiente).

Após a eleição, Bolsonaro avisou que não recorreria a indicações político-partidárias para compor seu ministério, pois o critério de seleção seria a capacidade técnica do indicado. Houve quem visse nisso um sinal de avanço, uma garantia de que os equívocos do presidencialismo de coalizão estariam superados. Mas mudanças nem sempre são para melhor. E piorar sempre é possível.

O caso do Ministério da Educação é exemplar. Sabe-se lá como Bolsonaro chegou a Viviane Senna, mas alguém deve ter dito ao capitão que ela era a figura mais capacitada a pilotar a educação no Brasil. Outros disseram que não, que quem sabia das coisas era Olavo de Carvalho – que parece ter influído na escolha de Vélez e Weintraub. Toda e qualquer escolha depende de um padrinho, de alguém que ateste a competência do indicado ao cargo. Mas não há como escapar do julgamento presidencial. Cabe ao presidente escolher a quem ouvir e a quem delegar as funções que não quer, não pode ou não sabe desempenhar. É assim em qualquer organização hierárquica.

A delegação, além disso, nunca pode ser completa, pois inviabilizaria o governo. Ministros, por definição, não podem receber carta branca para gerir os assuntos de suas pastas, pois cada um deles terá diferentes prioridades, e essas poderão estar em conflito com as dos demais. Disputas entre auxiliares são inevitáveis, e o superior é o árbitro desses conflitos. Além disso, por mais competentes e capacitados que sejam, os ministros pouco farão sem a chancela do chefe do Executivo. O presidente, como afirmou o próprio Bolsonaro, não pode ser reduzido ao papel de um banana.

Moro aprendeu a lição logo nas primeiras semanas à testa do Ministério da Justiça, quando fez chegar ao Congresso um projeto de combate à criminalidade e à corrupção. O sinal que pretendia emitir era claro: seria mantida sua proverbial celeridade em sentenciar, e o que se vira em Curitiba seria visto em Brasília.

Ele não tardou a tomar uma lição de realismo político. Apesar de esbravejar publicamente e cobrar providências do presidente da Câmara, Rodrigo Maia, foi solenemente ignorado. Afinado com a agenda de reformas do Ministério da Economia, Maia fez ouvidos de mercador à pressão de Moro. De Bolsonaro, não se ouviu uma palavra sequer, e o projeto de Moro foi deixado na gaveta.

Guedes, portanto, teve mais sorte que o ministro da Justiça, pois Maia fez com que a reforma da Previdência tramitasse de forma razoavelmente tranquila pela Câmara e, depois, Davi Alcolumbre fez o mesmo pelo Senado. A aprovação sem maiores atropelos pouco deve ao empenho de Bolsonaro e/ou de seu governo. Ante a indecisão e falta de comando do Executivo, Maia acabou assumindo a tarefa que caberia ao presidente, chamando para si a responsabilidade de ser o adulto na sala, abrindo o diálogo com a equipe de Guedes e desconsiderando o bombardeio das redes sociais, disparado por forças identificadas com Bolsonaro. Paradoxalmente, nos momentos decisivos, coube ao próprio Executivo ser o veículo de pressões de grupos organizados para diluir a proposta original da Previdência. Mas os congressistas resistiram à pressão vinda do Planalto.

Diante dessa demonstração de independência e responsabilidade, não faltou quem entrasse no jogo do contente, vendo aí os sinais da aurora de um novo Poder Legislativo. Para os mais otimistas, estaríamos assistindo à transição para um modus operandi mais afinado com a doutrina clássica da separação dos poderes. Por vias tortas, o sistema político brasileiro encontrara um novo ajuste, no qual o Congresso assumira, em razão da inoperância presidencial, a responsabilidade de governar. E foi assim que a inaptidão de Bolsonaro para governar foi tomada como uma virtude.

Entretanto, não há razões para otimismo. O que ocorreu e vem ocorrendo é algo bem mais simples. Os líderes partidários, em especial os do famigerado Centrão, deram mostras de que não são inconsequentes nem rasgam dinheiro. Como todo e qualquer cidadão informado, esses líderes – bem como os de esquerda, a despeito de suas declarações públicas em contrário – sabiam que a reforma da Previdência era inadiável, que sem ela os gastos públicos cresceriam de forma explosiva. E porque sabiam disso, tinham consciência de que, caso não a aprovassem, seriam depois responsabilizados pelo desastre que se seguiria. No final das contas, defenderam a própria pele. Não inviabilizaram o governo. Só isso. Passaram a bomba adiante.

Querer ver aí as “marcas do novo”, para usar a linguagem antiga dos que andaram fazendo tais conjecturas, é não reconhecer as consequências desastrosas das eleições de 2018. O governo eleito é inepto, e os brasileiros terão que viver sob esse governo até 2022. O Congresso não tem como avocar a si responsabilidades que não lhe competem, pois não possui os meios necessários para formular uma agenda de governo. Em qualquer lugar do mundo a iniciativa legislativa cabe ao Executivo. É assim em regimes parlamentaristas e presidencialistas, de coalizão ou não.

E o fato é que, apesar de inepto, o governo Bolsonaro tem uma agenda cujo teor se expressa nas propostas que faz, pelos decretos que emite e pelos projetos que submete ao Legislativo. Agenda que, ao contrário do que se supõe, tem unidade e propósito.

Esse governo não está cindido em grupos ou facções com prioridades próprias e em disputa. Não há propriamente uma agenda de reformas liberais para a economia, em confronto ou desarmonia com a agenda conservadora, voltada para os costumes. Tampouco há um grupo que privilegia o combate à corrupção e outro que mira na criminalidade. Guedes, Damares e Moro integram o mesmo governo porque compartilham do mesmo credo.

As medidas provisórias editadas e os projetos de lei enviados ao Congresso por Bolsonaro seguem a pauta dos movimentos libertários destilada por think tanks norte-americanos. Tome-se, por exemplo, a proposta de regulamentar a educação domiciliar, submetida ao Congresso nos primeiros meses do governo. O segundo artigo do projeto deixa claro que seu objetivo é assegurar aos pais ou responsáveis legais a “prioridade de direito na escolha do tipo de instrução que será ministrada a seus filhos”. O primeiro parágrafo do mesmo artigo reforça o ponto, atribuindo “plena liberdade de opção dos pais ou dos responsáveis legais entre a educação escolar e a educação domiciliar”. A inspiração ideológica do projeto não poderia ser mais clara: o individualismo radical que vê em qualquer intervenção do Estado o início do caminho que leva à servidão. O Estado e seus agentes – no caso, os professores – são os inimigos.

Do ponto de vista prático, se aprovada, essa medida abre uma brecha para que pais deixem de mandar seus filhos à escola, preferindo – como o próprio presidente – que eles trabalhem, em vez de estudar. Ninguém será capaz de encontrar recomendações assim, por mais que procure, nos clássicos do liberalismo ou em livros de economia. Nunca é demais lembrar que a confiança depositada pelo liberalismo na autonomia individual é indissociável do valor que atribui à universalização do acesso à educação.

O individualismo radical também dá o ar da graça no projeto de lei visando ampliar e facilitar a posse de armas. A exposição de motivos que acompanha a proposição afirma que se pretende “aprimorar a legislação às necessidades e ao direito dos cidadãos que pretendem e estejam habilitados a possuir ou portar arma de fogo para garantir a sua legítima defesa, de seus familiares, de sua propriedade e a de terceiros”. A justificativa, como se vê, vai ao ponto de questionar a própria razão de ser do Estado que, como sabem os estudantes de primeiro ano de direito, se define pelo monopólio do uso legítimo da força.

Na fantasia dos defensores desse individualismo exacerbado, cidadãos devem se encarregar da própria defesa, formando milícias, em vez de confiarem a segurança à polícia. A distância entre esse mundo idealizado e o real pode ser aferida no Rio de Janeiro, onde o projeto de substituição da polícia pelas milícias caminha a passos largos.

Sergio Moro não teve qualquer dificuldade em rezar de acordo com o credo libertário do governo, se é que já não pautava suas sentenças pelo mesmo breviário. Não por acaso, converteu-se em devoto de primeira hora da aplicação generalizada do excludente de ilicitude para policiais e agentes de segurança. Para ele, Justiça boa é a que age com celeridade e que, portanto, enxerga no direito à defesa apenas um formalismo excessivo a que recorrem os que buscam a impunidade. Assim como o juiz pode recorrer a prisões temporárias para punir corruptos, policiais devem ter o direito de impedir que vagabundos, esses cidadãos de segunda categoria, protelem a sentença que, cedo ou tarde, receberão.

A MP da Liberdade Econômica, já convertida em lei, representa o ponto mais alto da agenda positiva de reformas proposta pelo ministério de Guedes. O destaque é tamanho que ele achou necessário anexar à medida uma Declaração de Direitos de Liberdade Econômica. Para Guedes, a lei promoverá uma verdadeira revolução, uma mudança completa da cultura que regula as relações entre os empresários e o Estado. Na visão do ministro, antes do início de seu reinado, prevalecia o “pressuposto de que as atividades econômicas devem ser exercidas somente se presente expressa permissão do Estado”. A nova lei veio para reverter esse estado de coisas, abrindo caminho para a superação da crise econômica e do subdesenvolvimento.

A fé na revolução operada, como se pode ler na exposição de motivos da medida provisória, vem da certeza de que “a liberdade econômica é cientificamente um fator necessário e preponderante para o desenvolvimento e crescimento econômico de um país”, pois, “ao contrário do que se defendeu historicamente no Brasil, similar análise empírica, que acompanhou mais de cem países a partir da segunda metade do século XX, concluiu que investimentos em produção, educação e tecnologia, quando realizados em um país com mau desempenho em liberdade econômica, não produzem crescimento e desenvolvimento”.

Quem acompanha, porém, a literatura acadêmica sobre o tema sabe que é impossível ter tanta certeza. Na verdade, as teses e hipóteses correntes tendem a conferir à liberdade política ou, mais precisamente, a regimes democráticos ou inclusivos, o papel de causa primeira e fundamental do desenvolvimento econômico. A convicção do ministro, portanto, não vem das ciências, mas de sua adesão cega a fórmulas ideológicas.

Para demonstrar que constitui um problema brasileiro rejeitar a liberdade econômica, o texto assinado pelo ministro menciona a má colocação do país em rankings como o da Heritage Foundation/Wall Street Journal (em que o Brasil ocupa a 150ª posição entre as nações em que há mais liberdade econômica, conforme cita o texto), o de Liberdade Econômica do Fraser Institute (144ª posição) e o de Liberdade Econômica e Pessoal do Cato Institute (123ª posição). São essas as fontes que embasam a visão de mundo de Paulo Guedes. Na base dessas convicções, o que se tem é a arrogância própria dos crédulos. Como se vê, não é monopólio da esquerda submeter a política macroeconômica a ditames ideológicos.

Entretanto, quem colocar de lado a pomposa Declaração de Direitos de Liberdade Econômica e se concentrar nas modificações concretas feitas, conclui-rá que os efeitos práticos da lei aprovada serão limitados: ela facilitará principalmente a abertura e a operação de empresas privadas.

Outro elemento central da agenda do atual governo é a rejeição de medidas que visam proteger o meio ambiente. Provavelmente, em nenhuma outra área ele atuou tão fortemente para relaxar a regulação estatal. As consequências do “liberou geral” foram imediatas e inequívocas – e é isso o que acontece quando o Estado sai de cena e deixa tudo nas mãos dos empreendedores privados. Como se sabe, os libertários norte-americanos acreditam que o aquecimento global não passa de uma invenção da esquerda. O Executivo aderiu a essas teses e não vê razões para adotar políticas que contribuam para preservar a Floresta Amazônica, como as que coíbem queimadas.

O governo Bolsonaro, portanto, tem apenas uma – e não duas agendas. Não há conflito entre as propostas para a economia e para os costumes, entre o liberalismo de uma e o conservadorismo da outra. A fonte dessa agenda é também só uma: o antiestatismo radical destilado pelos think tanks libertários. O Estado é o inimigo a ser combatido. E o bolsonarismo apenas dá um tom mais primitivo, quando não selvagem, a essa ideologia.

Mas, por enquanto, Bolsonaro não obteve grande sucesso no que se refere à aprovação da sua agenda legislativa. A tramitação de boa parte das propostas que submeteu ao Legislativo mal iniciou. Como o presidente não se ocupa da tarefa de governar, o Congresso acaba ignorando essas propostas, mesmo as que tomam a forma de medidas provisórias. Estas, ainda que tenham validade imediata, perdem eficácia se não forem aprovadas em 120 dias. E é o que tem ocorrido com a maior parte das que Bolsonaro assina.

Até 29 de outubro, o presidente havia assinado 32 medidas provisórias. Das dezoito editadas há mais de 120 dias, apenas oito foram convertidas em lei – ou seja, dez perderam a validade. Também é provável que a maioria das que continuam em tramitação perca sua eficácia. Tais números representam a mais baixa taxa de sucesso do Executivo já registrada. Mas editar MPs é uma prerrogativa da qual o governo Bolsonaro não abre mão, embora pareça crer que não é sua responsabilidade aprová-las.

Isso significa que a sociedade deve se acostumar a conviver com leis que expiram em 120 dias. E é com essa realidade que os empresários terão que se confrontar: a da mais completa imprevisibilidade jurídica, na qual o presidente recorre à metralhadora giratória de abater inimigos editando decretos que valerão por tempo limitado.

A despeito de ter uma agenda, o governo não se empenha nem se organiza para aprová-la. Em boa medida, essa falta de empenho decorre diretamente da incapacidade política do presidente e da sua equipe, expressa em sua recusa a negociar e conquistar, pela persuasão ou outros meios a seu dispor, apoio para suas propostas. Mais fantástico ainda é que Bolsonaro justifique sua omissão e procure vendê-la ao público como prova de sua adesão à “nova política”, o que quer que isso seja. O governo Bolsonaro é antes de tudo caótico.

Se há algo de que o presidente não pode ser acusado, entretanto, é de ter incorrido no crime de estelionato eleitoral. Bolsonaro nunca procurou esconder sua falta de preparo e mesmo de apetite para a atividade política. No regime presidencialista, cabe ao chefe do Executivo tomar a iniciativa política, definir prioridades e conquistar o apoio necessário para torná-las lei. Mas não é essa a concepção que Bolsonaro tem do próprio papel. Para ele, a Presidência se confunde com um negócio familiar.

Como se estivesse encarcerado na fase concreta do psicólogo suíço Jean Piaget, ele não consegue separar o pessoal do institucional, confundindo assim a intransigência dos inconsequentes à adesão a princípios. Por isso mesmo, os interesses de sua família se confundem com os da Presidência. E, uma vez que a Previdência já não pesa sobre seus ombros, Bolsonaro pode agora se dedicar mais livremente ao lado familiar de seu projeto político. Concretamente, esse projeto se resume a livrar o filho Zero Um, Flavio, das garras da Justiça e achar uma colocação para o filho Zero Três, Eduardo, à altura das ambições dele.

Para a família se assentar no topo das prioridades, o presidente precisou cortar as asas de seus ministros, caçando a autonomia prometida. O mais afetado foi Sergio Moro, que perdeu batalhas no Ministério Público Federal, na Polícia Federal e no Coaf. A prioridade de Bolsonaro é enterrar as investigações das contas bancárias de Fabrício Queiroz, assessor do senador Flavio Bolsonaro, que andou depositando cheques na conta da esposa do presidente. Por isso, Bolsonaro se esforçou tanto para descobrir onde abrigar o Coaf e encontrar um nome de sua estreita confiança para a Procuradoria-Geral da República. A maneira sem-cerimônia com que se engajou nessas tarefas evidenciou o seu descaso para com as instituições.

Para realizar o sonho de Eduardo Bolsonaro de se tornar embaixador nos Estados Unidos, seu pai recorreu livremente às nomeações que jurara serem coisas do passado e se rendeu à velha prática do “é dando que se recebe”, a fim de obter os votos que assegurariam a indicação do filho – associando-a ao destino de seu governo. Mas, como uma derrota nesse caso poderia ser fatal, a candidatura acabou sendo retirada, e Zero Três canalizou suas energias para novas searas.

Quando comparada à importância que dá aos interesses da família, a atenção do presidente dedicada a sua agenda legislativa é nula. O governo trata as matérias que submete ao Legislativo com descaso. Prioridades são prioridades, e a família está acima de tudo. Esse é o modo Bolsonaro de governar: errático, inconsistente e ditado pela própria bílis. Seus inimigos, reais e imaginários, estão por toda parte, e é deles que o presidente se ocupa. Aliados certos são apenas os familiares.

Agora, Bolsonaro resolveu declarar guerra a Luciano Bivar, presidente do PSL, e tomar o partido de assalto, redefinindo a missão que confiara a seu filho Eduardo, que perdeu o apetite pela embaixada, somente para concentrar seus esforços na luta interna do PSL. Mais uma vez, o presidente dá amostra da sua incapacidade de calcular as consequências de seus atos, envolvendo-se de corpo e alma em um conflito menor, em decorrência do qual converteu um bom número de aliados de primeira hora em desafetos. Esses são agora os seus inimigos mais perigosos, pois, como lembrou a deputada federal Joice Hasselmann (PSL-SP), eles sabem o que os Bolsonaro fizeram no verão passado.

A briga com Bivar atesta a inabilidade política do presidente, que, apesar do poder que dispõe, foi incapaz de assumir o controle do PSL sem disparar a torto e a direito. A barafunda criada na crise com as lideranças do partido e a falta de civilidade dos envolvidos é um retrato acabado deste governo.

Jair Bolsonaro cumpriu sete mandatos na Câmara e fez uma bem-sucedida campanha eleitoral. Apesar disso, não aprendeu o beabá da arte política. E não vai ser agora que aprenderá. A Presidência não operou nenhum milagre no seu modo de ser.

Dele, só se pode esperar a destruição da civilidade pública e das políticas sociais implantadas pelos governos de centro e esquerda depois do fim do regime militar. Essa é a verdadeira agenda de Bolsonaro. Agenda que, paradoxalmente, poderá ser bem-sucedida graças à inépcia e ao descaso com que governa.

Fernando Limongi

É cientista político, professor titular aposentado da USP, professor da FGV e pesquisador sênior do Cebrap

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