anais da ornitologia

Presley não morreu

A saga de uma ararinha-azul que sobreviveu a caçadores e traficantes, passou por cinco países, teve seis casamentos e pode ajudar a salvar a espécie

Roberto Kaz
Quando Presley foi descoberto nos Estados Unidos, em 2002, as ararinhas-azuis haviam sido declaradas extintas na natureza
Quando Presley foi descoberto nos Estados Unidos, em 2002, as ararinhas-azuis haviam sido declaradas extintas na natureza FOTO: PEDRO DEVELEY

Em agosto de 2002, Mickey Muck – então gerente de uma clínica veterinária em Denver, nos Estados Unidos – recebeu uma ligação anônima. Do outro lado da linha havia uma senhora, moradora da mesma cidade, que se dizia dona de uma ararinha-azul nascida no Brasil. Procurava Muck por supor que ela, proprietária de sete papagaios, saberia como levar o animal de volta ao país de origem.

De início, Muck se mostrou cética. A espécie já estava extinta na natureza. Até onde ela soubesse, só havia sessenta ararinhas-azuis no mundo, todas em cativeiro (nenhuma nos Estados Unidos). Por isso, quando combinou a primeira visita, achou por bem se fazer acompanhar de um agente do US Fish and Wildlife Service (algo como o Ibama americano) e um associado da World Parrot Trust (o órgão internacional dedicado ao resgate de papagaios). Ao chegar à casa da proprietária – que até hoje permanece anônima –, o grupo teve um calafrio. Aquela ave pequena, domesticada, com cabeça grisalha e corpo azulado era, de fato, uma ararinha.

Para um astrônomo, seria como achar água em Marte. Para um médico, a cura de uma doença. Para a ornitologia, o fato se anunciava como um valioso reforço na chance, escassa, de preservar a espécie. Muck acabara de encontrar a última ararinha-azul ainda não catalogada. Seu nome era Presley.

Até ser resgatado, em 2002, Presley amargou ao menos duas décadas de clandestinidade. A primeira metade de sua vida, portanto, existe mais em forma de hipótese que de fato consumado. Valendo-se do que é regra à espécie, ele provavelmente nasceu às margens do rio São Francisco, na região da caatinga que une a Bahia a Pernambuco. Capturado ainda filhote, na década de 70, parece ter sido levado de carro ao Paraguai onde, acredita-se, foi vendido ao importador britânico Gordon Cooke – que muitos anos depois seria condenado a seis meses de prisão por tráfico de animais. Após uma escala de avião em Madri e um breve período em Londres, o animal acabaria repassado, com mais um filhote, a um colecionador no Colorado. Em 2003, depois que o repatriamento foi noticiado, Cooke escreveu a Mickey Muck relatando a suposta trajetória da ave. Dizia que Presley era “obviamente” uma das duas ararinhas que ele contrabandeara da América do Sul.



No Colorado, a história que se conta é a de que o colecionador, sabendo-se investigado, repassou as aves de graça à senhora que acabaria telefonando a Muck. Não se conhece que fim teve a segunda ararinha. Já Presley, batizado em homenagem ao rei do rockabilly, recebeu a companhia de um papagaio fêmea verde, da espécie amazona, com quem passou a dividir o teto a partir de então. Mickey Muck me contou, por telefone, que os proprietários “eram pessoas boas e tinham filhos”. “Os pássaros ficavam na sala, faziam parte da família. A senhora sabia que era dona de uma ave rara, mas não tinha a medida de quão rara e preciosa ela era.”

O casal de aves viveu em relativa alegria por cerca de vinte anos. Com a morte de sua companheira, em 2002, Presley entrou em depressão – fiel ao padrão de comportamento da espécie, ele era monogâmico. Foi quando sua proprietária, preocupada, resolveu procurar ajuda. Firmado o acordo de que não seria processada, entregou o animal em 10 de setembro daquele ano. Após levá-lo para sua casa, Mickey Muck escreveu em seu diário: “Tirar o Presley da casa onde viveu por 23 anos foi muito difícil. Desenvolvi uma relação com ele e com a família, que confiava em mim. A família disse adeus sabendo que ele estaria seguro.”

 

Existem três tipos de araras-azuis. Da maior delas, conhecida simplesmente como arara-azul, há cerca de 5 mil exemplares espalhados pelo Pantanal. A arara-azul-de-lear conta com algumas centenas de indivíduos numa região conhecida como Raso da Catarina, no nordeste da Bahia. Corre sério risco de extinção. A menor, mais rara – e, por isso, famosa –, é a ararinha-azul, protagonista do filme Rio, de Carlos Saldanha (inspirado, inclusive, na história de Presley). Só existe em cativeiro.

Endêmica da caatinga (ou de um micro-oásis numa região específica da caatinga), a ararinha-azul foi oficialmente descoberta em 1819, quando o biólogo alemão Johann Baptist von Spix – a quem a ave prestaria tributo, quando batizada de Cyanopsitta spixii – coletou um exemplar nos arredores de Juazeiro.

Integrante da comitiva da arquiduquesa Leopoldina da Áustria, Spix desembarcara no Rio de Janeiro dois anos antes, acompanhado do botânico Carl Friedrich von Martius, seu conterrâneo. Em dezembro de 1817, a dupla partia para São Paulo e Minas, e depois atravessaria o interior da Bahia rumo ao norte. Foi quando Spix avistou o animal. A descrição em latim, publicada no livro Avium Species Novae, dava conta de que a ave era “grande, em tom azul-esverdeado, com bico não forte, penugem cinzenta no maxilar e a parte inferior da cauda preta”. Quanto aos hábitos, Spix a descrevia como gregária: “Mora em bandos, aliás raríssimos, perto de Juazeiro, nos campos à margem do rio São Francisco.”

O ornitólogo Carlos Yamashita, maior autoridade no estudo da espécie, diz que Spix e Martius deviam estar de mula ou a cavalo, na beira do rio, quando avistaram a ararinha. Pela qualidade da ilustração que acompanha o texto, acredita que o animal tenha sido abatido. “O Spix esteve com o bicho fresco, na mão, porque só por observação não se lembraria de tantos detalhes.”

A ave, mumificada, deve ter seguido para a Europa em abril de 1820, a bordo do navio Nova Amazonia, junto com centenas de insetos, mamíferos, peixes e pássaros abatidos por Spix. Com o tempo, a ararinha-azul se tornaria símbolo de poder. O marechal Tito, que unificou a Iugoslávia no século XX, foi dono de uma. Assis Chateaubriand, proprietário dos Diários Associados, no Brasil, também.

Depois da descoberta de Spix, a ararinha só voltaria a constar dos anais da biologia em 1903 – quando avistada pelo austríaco Othmar Reiser – e em 1927 – quando descrita pelo alemão Ernst Kaempfer, que reconheceu um exemplar, engaiolado, na estação ferroviária de Juazeiro. A partir de então, conta Yamashita, “toda a geração de ornitólogos dos anos 40 e 50 ficou atrás desse bicho”.

O hiato, salvo por duas breves aparições, persistiu até 1986, quando o suíço Paul Roth, à época professor da Universidade Federal do Maranhão, encontrou o que julgou serem as três últimas ararinhas na natureza. Estavam nas proximidades de Curaçá, numa região conhecida como Riacho da Melancia, a 100 quilômetros de Juazeiro. O pesquisador supôs, pela localização, que deveriam ter algum parentesco com a primeira ararinha catalogada por Spix. Concluiu que a população se extinguira pela caça, pelo tráfico e pela introdução de abelhas africanas, que passaram a competir por espaço nas árvores. Roth percebeu, também, que a ararinha tinha uma relação de dependência com a caraibeira – árvore alta, de copa amarela, típica da caatinga e do cerrado. Ainda que lhe servisse de repouso e repasto, a árvore havia contribuído, por tabela, para o fim da espécie: como a ave costumava montar ninho nos mesmos locais, tornava-se alvo fácil para os caçadores.

Quando voltou ao Riacho da Melancia, no começo de 1987, Roth constatou que uma das três ararinhas havia desaparecido. No ano seguinte ouviu de moradores que entre o Natal de 1987 e o Réveillon de 1988 – quando o Ibama estava em recesso – as outras duas também sumiram. “Como os caçadores não são exatamente gentis, invadiram a área de estudo com um grupo de homens armados, e nenhuma das pessoas contratadas por nós ousou interferir”, escreveu em 1990, num artigo para a revista alemã Papageien.

O pesquisador retornou à Suíça, e pela primeira vez a espécie foi declarada extinta na natureza.

 

Ao chegar à nova casa, em setembro de 2002, Presley atravessou uma sala habitada por seis aves e foi levado ao andar de cima, onde passou a dividir um quarto com Muck e um papagaio-do-congo chamado Rikki. “Achamos que ele deveria ter a companhia de um pássaro”, ela me contou.

Magro e sorumbático por causa da depressão, o novato foi recebido com brinquedos (seu preferido era um pequeno sapo de pelúcia) e um banho de spray para lustrar as penas. Trocou o alpiste industrializado por uma dieta rica em sementes, grãos e frutas. À diferença dos outros pássaros da casa, ganhou salvo-conduto para andar pelo quarto, num passeio que vez por outra era feito ao som de Blue Suede Shoes, sucesso de Elvis. Muck disse que Presley “amava a música”. Ela também gravou a voz do próprio animal e reproduziu-a em loop para que ele se habituasse ao som da sua espécie.

O passo seguinte foi restabelecer sua musculatura (como vivia num espaço pequeno, Presley não sabia voar). Muck espalhava a comida em diferentes lugares da gaiola, para que o animal pulasse de um poleiro a outro. Duas vezes ao dia ela também abria suas asas, movimentando-as para cima e para baixo a fim de que ele ganhasse tônus. Após duas semanas, o animal passou a ajudar no movimento, recebendo como recompensa um pinhão, sua comida favorita. Num artigo publicado na revista americana PsittaScene, em fevereiro de 2003, Muck escreveu que na terceira semana, ao perder o equilíbrio, Presley “abriu as asas e teve controle de si mesmo”. Era uma vitória.

Havia ainda um terceiro assunto a ser definido. Como é difícil determinar o sexo de uma arara, uma amostra de sangue foi coletada para que se comprovasse, por DNA, que Presley era mesmo um macho. Passados três meses – em que o animal triplicou de peso –, um veterinário do Zoológico de Denver atestou que ele estava forte o suficiente para encarar a jornada de vinte horas até o Brasil. Muck disse ter ficado feliz, “ainda que fosse difícil dizer adeus”.

Num domingo, 22 de dezembro de 2002, ela e o agente George Morrison, do US Fish and WildLife Service, pegaram um voo de Denver para Miami, onde encontrariam a bióloga brasileira Iolita Bampi, à época chefe do Departamento de Vida Silvestre do Ibama. Muck viajou com Presley a seus pés, numa casinha de cachorro lotada de pinhões e sapos de pelúcia. Entristecida, colocou os dedos na grade, durante o voo, para que o animal sentisse estar em boa companhia. Antes de entregá-lo, tomou-o entre as mãos, para a despedida. “Foi muito triste; chorei”, contou. “Mas foi um choro bom também, por saber que ele encontraria outros pássaros.”

Iolita Bampi disse também ter se emocionado: “Percebi a dificuldade dela em se desfazer da ave. Sou veterinária, sei do apego que as pessoas têm pelos animais. A Mickey conversava com o Presley, e ele com ela, mas havia algo maior em jogo. Nosso olhar não estava naquele indivíduo, mas na contribuição dele para a espécie.”

Presley e Bampi seguiram juntos até o avião. O animal foi novamente acomodado sob o banco de passageiros, agora para um voo de oito horas. Cumpridas duas décadas de exílio involuntário, voltava a seu país. “Voamos direto para São Paulo, e do aeroporto fomos para o zoológico, que já tinha experiência no manejo da espécie”, disse Bampi. “Nossa expectativa era de que, uma vez pareado com uma fêmea, ele pudesse se reproduzir.”

Mickey Muck tentou visitá-lo, três meses depois, mas foi impedida pelo Zoológico de São Paulo. “Ele deve ter sentido falta da nossa intimidade”, lamentou. “Ficou em quarentena, ninguém acariciava sua cabeça.” Ela nunca mais voltou a encontrar o pássaro ou a família que o abrigou por 23 anos: “Mas rezo por ele toda noite antes de dormir.”

 

Em janeiro de 1990, o fotógrafo Luiz Claudio Marigo, retratista de animais selvagens, enviou um fax ao ICBP – o Conselho Internacional para a Preservação das Aves, hoje conhecido como BirdLife. Apesar da suposta extinção da espécie, Marigo ouvira boatos de que havia uma última ararinha solta na caatinga. A suspeita era endossada pelo biólogo Francisco Pontual, que costumava assessorar o fotógrafo em suas incursões pela natureza. “Em 1986, o Paul Roth fotografou três spixii. Em 1989, o Ibama falou que a espécie tinha acabado. Não estava fazendo sentido”, disse Pontual. O ICBP decidiu financiar uma nova expedição.

Em junho, um grupo formado por Marigo, Pontual e Yamashita, além dos ornitólogos Roberto Otoch e Tony Juniper, deixou o Rio em dois jipes, com destino ao oeste da Bahia. A ideia era percorrer, por um mês, a parte norte do rio São Francisco e a Chapada das Mangabeiras, no sul do Piauí – além das áreas previamente mapeadas por Paul Roth.

Em julho, quando chegou a Curaçá, o grupo se hospedou na Fazenda Concórdia – local em que Paul Roth havia visto o trio de ararinhas. Pontual lembra que na manhã seguinte acordou cedo, “antes de o sol nascer”, e seguiu com os companheiros até um local indicado por um vaqueiro. “Quando descemos do carro para andar até as caraibeiras, começamos a ouvir a ararinha, como se fosse a voz de um fantasma”, rememorou. “Pelo som, sabíamos que era ela.”

O britânico Tony Juniper descreveria a cena em Spix’s Macaw, o mais importante livro publicado sobre a espécie: “O grito ficou mais alto, até que a fonte dele finalmente apareceu. Sua plumagem azul era visível na luz do amanhecer. A cabeça grisalha, o rabo comprido, o forte bater das asas; não havia dúvida de que era ela. Havíamos achado uma ararinha-azul. Ficamos mudos, olhando para a criatura que até então era mítica para nós.”

Passaram uma semana acompanhando o animal, que reagiu com desconforto. “Afinal, já haviam ocorrido várias tentativas de capturá-lo”, escreveu Juniper. “Sua suspeição natural era o que o mantivera vivo.” Quando voltaram da expedição, publicaram a descoberta na revista Manchete. Pontual contou que a direção do Ibama ameaçou processá-los. “Disseram que a divulgação ia ser boa para os traficantes, como se eles, os traficantes, não soubessem daquele animal”, ironizou. “O Ibama já tinha tido a chance de fazer algo decente, e não fez. Por isso divulgamos.”

O embate ocorrera também porque o Ibama estava à beira de criar um programa – o Projeto Ararinha-Azul – e um grupo – o Comitê Permanente para a Recuperação da Ararinha-Azul – com o intuito de reintroduzir os animais de cativeiro na natureza. O projeto, com sede em Curaçá e um ponto de apoio na Fazenda Concórdia, ficaria a cargo do biólogo Marcos Aurélio Da-Ré, então com 25 anos, que acabara de integrar um programa similar no Sul do país.

Nascido em Florianópolis, descendente de italianos, dono de uma pele que ruboriza em segundos, Da-Ré dividia, com a ararinha recém-descoberta, o fardo de ser o único da sua espécie no sertão. Era chamado de “galego da ararinha”. Foi para Curaçá em agosto de 1991 imaginando, a partir da proposta do Ibama, que ficaria oito meses por lá. Além de recuperar o hábitat e zelar pelo último dos moicanos, precisava envolver a comunidade para que, na hipótese da reintrodução, o animal, antes caçado, passasse a ser protegido.

Da-Ré tomou a iniciativa de procurar o traficante Luiz Carlos Ferreira Lima, o “Carlinhos das Araras”, que dominava o comércio do animal desde os anos 80 em Petrolina, cidade a poucos quilômetros de Curaçá. O biólogo contou que, no primeiro encontro, “Carlinhos parecia bicheiro, andava de correntão, tinha um carro de luxo”. O contato havia sido feito por Francisco Pontual, que soubera, por um colecionador, que Carlinhos tinha interesse “em limpar a própria barra”.

“Ele desabafou, abriu o jogo com a gente”, Pontual me contou. “Era a honra de traficante, de quem achava que tinha feito o trabalho bem-feito, porque só pegava filhote. O Carlinhos ficava enfurecido com a turma do Piauí”, caçadores do estado vizinho “que, segundo ele, passavam o rodo, levavam tudo e não deixavam a espécie procriar.”

Ao longo de uma semana, Carlinhos, Da-Ré e Pontual visitaram quatro bacias onde os traficantes costumavam atuar. Acamparam, tomaram cachaça, mas não acharam nenhum remanescente da ave. Ainda assim o encontro rendeu um dividendo: Carlinhos garantiu que não voltaria a negociar o animal.

No ano seguinte, o Comitê Permanente definiria, numa aposta de risco, que a ararinha de Curaçá não seria capturada. Mais: quando se soubesse o seu sexo, ela receberia a companhia de um pássaro de cativeiro, para reprodução. Os oito meses de Da-Ré tornaram-se sete anos. “Do ponto de vista genético, o ideal seria pegar o animal e levar diversidade para o cativeiro”, ele explicou, quando o encontrei em Florianópolis. “Mas havia duas outras preocupações. Retirando o animal da natureza, iríamos perder a cultura da espécie. Era importante manter um núcleo para que as ararinhas que viessem depois soubessem onde estavam os recursos. Os animais de cativeiro não tinham aquele conhecimento, que é aprendido.”

A segunda preocupação dizia respeito aos moradores de Curaçá. “Para manter o hábitat no futuro, seria fundamental ter a colaboração da comunidade”, continuou. “Se tirassem o animal, a população poderia se sentir traída, prejudicada. Criamos escola, troféu, desfile sobre a ararinha. Ela alimentava o sentimento comunitário.”

Naquele mesmo ano, Da-Ré enviou uma pena, encontrada próximo ao ninho da ave, para ser periciada numa universidade inglesa. O exame de DNA mostrou que se tratava de um macho.

A ararinha-azul escalada para voltar à natureza seria fêmea.

 

No dia 23 de dezembro de 2002, uma segunda-feira, Presley deu entrada no Zoológico de São Paulo. Recebeu um número de inscrição – 27 848 – e uma gaiola, numa sala aquecida, onde cumpriu quarentena até obter um atestado de boa saúde. Pesava 375 gramas, estava tranquilo e – herança das duas décadas de domesticação – demonstrava uma evidente empatia com os tratadores. Para driblar a solidão, ganhou a companhia de um rádio, sintonizado numa emissora de notícia, de onde vinha o afago da voz humana.

“Coloquei também uma cadeira na sala para passar o tempo com ele”, contou a bióloga Fernanda Vaz, chefe do setor de aves. “Além, claro, dos brinquedos que o acompanhavam desde os Estados Unidos.”

O zoológico acolhera Presley a pedido do Ibama. Apesar de encravado na maior cidade do país, próximo do aeroporto de Congonhas – cenário que em nada remete à aridez da caatinga –, o estabelecimento era, pelo histórico, o que melhor se enquadrava para cuidar do animal. Recebera a primeira ararinha-azul em 1976. Quando Presley chegou, a instituição já zelava por um casal da espécie.

Findo o período de solitária, Presley foi colocado num viveiro contíguo ao do casal. A separação era necessária para proteger o novato. Além de ser mais velho, cansado, e não voar (locomovia-se agarrando os pés à grade), o pássaro ainda arcava com o fardo, involuntário, de representar uma ameaça ao matrimônio alheio. “Ele provavelmente apanharia”, explicou Fernanda Vaz. “Ficou sozinho por um ano e meio.”

Presley acabaria sendo beneficiado por uma decisão do Congresso Nacional. Em fevereiro de 2003, a Comissão Parlamentar de Inquérito sobre o tráfico de animais recomendara, no relatório, que o Ministério Público investigasse o empresário Maurício dos Santos. Dono do Criadouro Chaparral, do Recife, Santos havia admitido que negociara uma ararinha com Carlinhos das Araras, na época em que o comércio era permitido. A Comissão descobrira, ainda, que seu criadouro funcionava sem o aval do Ibama.

Por isso, em maio, Presley teve o sangue colhido e um microchip implantado no peito. Também ganhou um brilho no bico – que devido ao crescimento anormal passaria a ser lixado, duas vezes ao ano, com um polidor dentário. O banho de loja tinha por onde: o zoológico acabara de receber as quatro ararinhas que viviam no Chaparral. Dentre elas havia uma fêmea, filhote – a primeira nascida em cativeiro no Brasil –, cujo nome tinha a candura e a delicadeza de uma musa parnasiana. Chamava-se Flor.

No dia 13 de setembro de 2004, Presley e Flor trocaram o primeiro olhar. A fêmea foi retirada do viveiro que dividia com a irmã e levada a uma sala fechada onde o varão a aguardava. Foram postos em duas gaiolas, lado a lado, para que um se habituasse à presença do outro. Passados seis meses, o casal seguiu para um viveiro conjunto.

“Qualquer aproximação de arara leva tempo”, explicou Fernanda Vaz, em sua sala decorada com fotos de uma ararinha-azul e de uma coruja, além de várias miniaturas de são Francisco de Assis. “O primeiro contato físico dos dois não foi nada de mais. Ficou cada um parado em seu poleiro.”

Fernanda Vaz logo percebeu que Flor preferia a companhia da irmã, com quem estava acostumada, à do pássaro estranho, idoso e macho com quem lhe fora imposto conviver. “A irmã ficava num recinto próximo”, contou. “Elas queriam estar juntas, procuravam uma à outra, vocalizavam.”

A dependência fraterna teria continuado a interferir se Presley, uma vez mais, não contasse com a ajuda do acaso. Em agosto de 2005, o Comitê Permanente para a Recuperação da Ararinha-Azul decidiu que as sete aves do Zoológico de São Paulo – então as únicas no país – deveriam ser espalhadas. Ainda que vivessem em área restrita, distante do público e vigiadas por câmeras, parecia arriscado, do ponto de vista físico e sanitário, que permanecessem num só local.

Para o casal recém-formado designou-se um viveiro com varanda e vista para o mato na Fundação Lymington, criadouro privado, rodeado pela Serra do Mar, a duas horas de São Paulo. Num ofício assinado em 30 de agosto, o Ibama recomendava aos donos da fundação que Presley tivesse companhia humana, pois o isolamento o deixava “deprimido, inclusive parando de se alimentar”.

A irmã de Flor seguiu sozinha para o Criadouro Nest, em Avaré, onde anos depois acabaria conhecendo um macho.

 

Ararinhas-azuis, como os seres humanos, têm registro de identidade, pelo qual se mapeiam seus movimentos. No dia 23 de agosto de 1994, a fêmea nº 7 – capturada e vendida em 1987 para o Criadouro Chaparral – deixou o viveiro em Recife para voltar à cidade onde nascera. Fora escalada para ser reintroduzida na natureza, às margens do rio São Francisco, na esperança de que constituísse família com o último macho livre da espécie.

A escolha foi feita pelo Comitê Permanente. Marcos Da-Ré argumentou que aquela ave era a que tinha a maior chance de sobrevivência. “Ela não era muito humanizada, tinha uma personalidade arredia, o que seria vantajoso no retorno à natureza”, explicou.

A fêmea foi levada de carro até a Fazenda Concórdia, em Curaçá, onde se montara um viveiro com 7 metros de altura para recebê-la. O espaço, equivalente a uma casa de dois andares, seria sua base de treino. De acordo com um relatório publicado em 2012 pelo ICMBio (o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, que substituiu o Ibama no projeto), o animal, que ao chegar voava 50 metros por dia, no quarto mês já batia as asas por até 3 mil metros de distância.

Em paralelo, a alimentação foi sendo substituída a fim de que a ave se acostumasse à oferta de sementes da caatinga. Maçã, goiaba, cenoura, beterraba, feijão verde, ovo cozido e ração deram lugar a frutos de pinhão, favela, baraúna e caraibeira. No início, o animal precisava de quinze minutos para abrir um pinhão – tempo que na quarta semana foi reduzido para apenas três minutos.

O viveiro foi aberto às 7h22 do dia 17 de março de 1995. Às 7h47, segundo o relatório, a fêmea voltou à natureza, sem um radiotransmissor “para que isso não interferisse negativamente na aceitação pelo macho selvagem”. Outro macho – também do Criadouro Chaparral – permaneceu numa gaiola, próxima ao viveiro, para lhe servir de referência geográfica. Embora os integrantes do projeto tivessem espalhado na área alimentação suplementar, já no primeiro dia a fêmea passou a comer sementes silvestres. Marcos Da-Ré diz que a entrega ao hábitat foi imediata: “Era um animal de lá, que devia ter sido raptado adulto, porque sabia onde era a árvore em que as ararinhas se reuniam no passado.”

Em um mês, estava voando entre 30 e 40 quilômetros por dia. Por volta do dia 15 de maio, ela finalmente encontrou o macho selvagem. Da-Ré disse que teve uma sensação de dever cumprido: “Até vaqueiro se emocionava com isso.”

Mas havia ainda um trabalho de sedução a ser feito. Carentes, tímidas e monogâmicas, as ararinhas têm horror ao celibato. Por isso, na falta de uma fêmea da espécie, o macho havia se juntado a uma maracanã – ave verde, similar em peso e tamanho. Da-Ré diz que as mulheres da comunidade, diante do fato, se dividiram: “Metade torcia pela ararinha, metade pela maracanã.”

Após uma semana seguindo o macho e a maracanã, a fêmea de ararinha-azul terminou por conquistá-lo. A maracanã, segundo o relatório, passou a acompanhar o novo casal à distância. Diz o texto que, estabelecido o novo vínculo, “as duas ararinhas-azuis acompanhavam a maracanã até seu local de pernoite (uma cavidade em caraibeira) e depois voltavam para seu próprio dormitório. No início de junho, a fêmea de maracanã pareou com um macho da sua espécie e as quatro passaram a voar juntas”.

Teria sido um final feliz. Teria, se a ararinha fêmea não sumisse três meses depois de ter sido libertada (mais tarde, um vaqueiro contaria tê-la encontrado morta sob uma linha de alta tensão). Da-Ré diz que não houve arrependimento. “Estávamos buscando a maior chance de sobrevivência da espécie”, explicou. “Optamos por fazer algo de alto risco, mas a outra opção seria a certeza absoluta de não dar certo. Se tivéssemos levado o macho para cativeiro, estaríamos sepultando a última informação que havia sobre o hábitat.”

Meses depois, o macho restabeleceu a relação com a maracanã.

 

No dia 13 de setembro de 2005, Presley e Flor deixaram o Zoológico de São Paulo. Assim como o presidente e o vice dos Estados Unidos, viajaram em carros separados, por medida de segurança. Chegando à Fundação Lymington, foram alocados num viveiro dentro da sede. Acreditava-se que ali, em ambiente intimista, teriam chance de se reproduzir. “O comportamento deles mudou completamente”, lembrou Fernanda Vaz, que fez algumas visitas às aves. “Os dois passaram a agir de fato como casal. Estavam sempre no ninho.”

Entre maio e agosto de 2006, Flor botou treze ovos. A novidade, divulgada com entusiasmo entre os membros do Comitê Permanente, logo se mostraria frustrada: nenhum ovo era fértil – ararinhas não têm falo, e a cópula, feita com o esfregar das cloacas, é bastante complicada.

Por conta disso, o comitê decidiu que Presley, à época já no terceiro decênio, seria aposentado. Flor seguiu para a Fundação Loro Parque, na Espanha, onde recebeu a companhia de um macho mais jovem chamado Lampião, com quem teve novo fracasso reprodutivo. Em 2013, a fêmea voltou ao Brasil para uma outra tentativa, desta vez no Criadouro Nest. Teve dois filhos.

Bill e Linda Wittkoff – um casal de americanos que vive no Brasil desde 1961 e sustenta a Fundação Lymington com recursos próprios – decidiram colocar Presley, então, em companhia de uma ararajuba chamada Killer. Ainda que evidentemente distintos (uma ave era azul; a outra, amarela), Presley e Killer viveram bem até dezembro de 2013, quando a fêmea foi encontrada morta.

Presley ficou mais uma vez abatido. Desde que fora capturado, traficado e finalmente repatriado, acumulara ao menos cinco separações: duas ararinhas (uma nos Estados Unidos, outra no Brasil), uma maracanã (nos Estados Unidos), um papagaio-do-congo (também no exterior) e, agora, uma ararajuba. “Ele ficou prostrado no mesmo lugar, com um olhar solitário”, lembrou Linda Wittkoff. “Não podíamos deixá-lo sozinho.”

Daí que, passados três dias, o pássaro, qual um sultão, foi para o sexto casamento. A fêmea escolhida (uma papagaia-de-peito-roxo) recebeu a alcunha de Priscilla – homenagem à esposa de Elvis. Presley limpava Priscilla e dormia com ela sob o aquecedor. A ideia era que os dois ficassem juntos até que o macho fosse encaminhado ao Criadouro Nest, para uma nova tentativa de reprodução – dessa vez por inseminação artificial.

 

Erguida à beira do rio São Francisco, Curaçá é uma cidade de 32 mil habitantes que sedia, uma vez ao ano, um encontro de vaqueiros. No que diz respeito à ararinha, é hoje uma sombra do que era quando da tentativa de reintrodução da espécie, em 1995. Naquela época, o lugarejo se mobilizava em torno do empreendimento ambiental. Duas décadas depois, a sede do Projeto Ararinha-Azul está fechada. O viveiro para onde foi levada a fêmea nº 7, na Fazenda Concórdia, está abandonado. Não há desfile cívico nem peça de teatro sobre a ave.

Ex-fazendeiro de Curaçá, o empresário Luís Lopes Netto Júnior me disse que o que restou ali foi “uma Coca-Cola reduzida a Dolly”. Netto Júnior serviu de braço direito a Marcos Aurélio Da-Ré enquanto o galego da ararinha viveu em Curaçá. A debacle começou em 2000, quando a ararinha macho, desaparecida, foi dada como morta.

Na falta de um corpo, surgiram rumores de que houvesse sido capturada. Netto Júnior acredita que o pássaro tenha morrido de velhice. “Era um bicho muito esperto. Por ter visto as outras araras sendo capturadas, tinha noção do perigo.” Moradora de Curaçá e ex-conselheira do Projeto Ararinha-Azul, Dione Felix aventa outra hipótese. “Falaram que foi gavião, ou que foi a própria maracanã, por ciúmes. Nunca se soube o que de fato aconteceu.”

Pela segunda e última vez, a espécie foi declarada extinta na natureza. O projeto foi encerrado em 2002 – mesmo ano em que Presley seria encontrado nos Estados Unidos.

 

Na noite de sexta-feira, 20 de junho de 2014, a bióloga Patrícia Serafini ligou para o veterinário Ramiro Dias. Analista ambiental do ICMBio, Patrícia acompanhava, até o ano passado, qualquer movimentação ligada às 100 ararinhas ainda vivas em cativeiro no mundo. No telefonema, disse que Presley, no alto de seus 40 anos, estava comendo pouco e respirando com dificuldade. O animal deixaria a Fundação Lymington na manhã seguinte, com destino a um hospital veterinário.

Presley ficou internado por quatro dias em Botucatu, sob os cuidados de uma equipe encabeçada por Ramiro Dias. Tinha lesão hepática e problema cardíaco. Recebeu oxigênio e tomou remédio para o coração, o fígado e o rim, além de um antibiótico para evitar infecção. Devido à debilidade do bicho, Dias não pôde examiná-lo. “Queríamos aguardar uma melhora para fazer os exames complementares. Fiquei ao lado dele, conversando.”

O animal seria encontrado morto na manhã de quarta, dia 25. Horas depois, Bill e Linda Wittkoff publicariam um comunicado: “À medida que o sol se levantou nesta manhã na Fundação Lymington, o mundo perdeu, sem exagero, o nome mais conhecido do universo das aves.” No obituário, escrito em primeira pessoa, Bill e Linda lamentavam a falta que sentiriam “do canto animado quando passávamos próximos ao aviário”, e concluíam: “Acreditamos, verdadeiramente, que ele teve uma boa vida nos últimos oito anos.”

Ao receber a notícia por e-mail, no Colorado, Mickey Muck voltou a abrir seu diário. “Vou sentir saudades, Presley. Sinto-me muito honrada que você tenha dividido parte de sua vida extraordinária comigo. Sei que está em paz”, escreveu. Doze anos após encontrá-lo, colocava um ponto final em sua história com o pássaro.

 

No relatório publicado em 1990 na revista Papageien, o ornitólogo Paul Roth traçou uma cronologia do sumiço da espécie, baseado em conversas com traficantes e moradores de Curaçá. De 1977 a 1984, contabilizou nove ararinhas capturadas. Nos dois anos seguintes, doze. Ainda em 1985, um pássaro foi morto por um vaqueiro. Dos três que restaram a partir de 1986, dois foram raptados, segundo Roth, “por um traficante de Petrolina”.

Num domingo de 2014, Luiz Carlos Ferreira Lima, o “Carlinhos das Araras”, aceitou me receber em Petrolina. Marcamos em frente ao seu comércio de ração, o Shopping do Criador, e seguimos de carro para uma chácara em Juazeiro, onde a família de Carlinhos e alguns amigos queimavam um churrasco.

Era julho, mês em que o sol faz um breve cessar-fogo no sertão. Carlinhos usava camisa listrada de botão, calça social e um relógio dourado – que combinava, em brilho, com a corrente no pescoço. Falou sobre futebol – era época de Copa, e um cartaz na entrada da cidade definia Juazeiro como “A Cidade de Daniel Alves”. Em seguida, pôs-se a contar sua história.

Nasceu em Petrolina, filho de uma dona de casa com um marchante (profissional que abate o gado). Começou a trabalhar ainda criança, largou a escola na 5ª série. Aos 8 anos conheceu o comerciante Nascimento Gonçalves.

Morador de Duque de Caxias, no Rio, duas vezes por mês Gonçalves aparecia de carro na feira de Petrolina. Comprava papagaios ou canários e os revendia, inflacionados, na Baixada Fluminense. Como a oferta por vezes fosse grande – a ponto de não caber no bagageiro –, alugou um terreno, vizinho à casa de Carlinhos, para estocar os bichos. Deixava-os sob os cuidados do menino.

Aos 11 anos, Carlinhos começou a fazer o meio de campo entre os caçadores e Gonçalves. Também mantinha contato com fornecedores de outros estados. Com a ajuda da mãe, diz ter comprado 300 papagaios de Antônio Machado, patriarca da família que dominava o comércio de pássaros no Piauí. No ano seguinte, teve o primeiro contato com a ave que lhe renderia o apelido. “Um cabra, o seu Lorino, apareceu em Petrolina com três spixii”, lembrou ele, que só se refere ao animal pelo nome científico. “Eu não tinha dinheiro para comprar; o Nascimento tinha.”

Como telefone em Petrolina fosse mais raro que ararinha, Carlinhos levou Nascimento Gonçalves até a central telefônica mais próxima. Ficou calado, ouvindo-o negociar o trio pelo valor “de dois carros novos”. Ao sair, correu em direção ao fornecedor, seu Lorino. “Falei pra ele: ‘Se tiver mais spixii, eu compro.’”

No ano seguinte, adquiriu suas primeiras ararinhas. Diz ter trocado o bando por um Opala zero quilômetro, e mais uma boa quantia em dinheiro. Ainda adolescente, passou a andar de motorista e tomou conta do mercado. “Nessa época a polícia não ligava pra passarinho. Nem proibido era.”

Em 1988, o tráfico de animais virou contravenção. Carlinhos foi preso duas vezes, mas passou poucos dias na cadeia. Diz que o cenário só mudou “quando Marcos Da-Ré veio pra cá”, época em que começou a ouvir o termo “extinção”. Quando foi pego pela terceira vez, em março de 2004, acabou condenado a oito anos. A briga pela liberdade condicional enxugaria seu dinheiro em advogados. Aos 53 anos, casado, pai de três filhos – um deles policial civil –, faz um relativo mea culpa. Diz sentir raiva se vê “um cara pegando bicho”.

“Quando a gente mexia com bicho, zelava igual zela o filho do cabra. Até porque, se morria, não tinha o dinheiro. Cheguei a ter uns oito tratadores para dar comida”, explicou. “Hoje, não. O pessoal anda com bicho escondido, fica ruim pro animal.”

Disse nunca ter caçado. Só comprava filhote, “e pouco, porque se pegasse um bocado desvalorizava”. Não se sente responsável pelo fim da espécie: “Não fui eu que peguei. Se eu não tivesse comprado, alguém comprava. Naquela época era uma pobreza só. Às vezes vendia um papagaio pra fazer a feira.” Quando o comércio foi criminalizado, a engrenagem já estava rodando: “Eu só sabia mexer com aquilo, nunca tinha estudado, quem vinha aqui me procurava. Ninguém quer fazer nada errado. O cabra faz porque precisa.”

O biólogo Francisco Pontual, que esteve com Carlinhos em 1991, não atribui a ele o rapto das últimas ararinhas: “Não acho que o Carlinhos tenha jogado a pá de cal. Ele era do lugar, sabia que só podia pegar filhote. Acho que foi a família Machado, que competia com ele no Piauí.”

Passada meia hora da morte de Presley, o veterinário Ramiro Dias já estava no carro, percorrendo os 270 quilômetros que separam Botucatu de São Paulo. O corpo da ave o acompanhava no banco do carona, dentro de um isopor resfriado. “Senti a perda”, ele me disse. “Mas tive que pensar imediatamente em como preservar a espécie.”

Na capital paulista, Dias era aguardado pelos veterinários Ricardo Pereira e José Luiz Catão Dias, professores do Departamento de Zootecnia da Universidade de São Paulo. Ao receber o isopor, a dupla dispôs o animal sobre uma mesa de cirurgia e pôs-se à delicada tarefa de cortar-lhe os testículos.

“A Patrícia Serafini, sabendo que o Presley estava mal, me ligou uma semana antes”, contou Ricardo Pereira. “Ela queria sondar sobre a possibilidade de usar as células dele para reprodução, no futuro. Falei que poderíamos congelá-las.”

Especialista em reprodução de aves, Pereira estuda uma maneira de fazer com que um animal saudável ejacule o sêmen de outro, que pode estar vivo, morto ou nem mesmo pertencer à mesma espécie. Teve relativo sucesso com galos – que ejacularam sêmen de codornas. “No caso do Presley, podemos transplantar as células para outra ararinha ou para uma maracanã”, contou, entusiasmado.

Para que o processo dê certo, primeiro se extraem células dos testículos da ave. Em seguida, filtra-se o tecido para coletar uma célula específica: a espermatogônia-tronco. Finalmente, injeta-se a espermatogônia no testículo do novo animal, a fim de que, lá dentro, ela se transforme em esperma. Há dois poréns: só 0,05% das células extraídas são espermatogônias; e, para não haver confusão, é preciso esterilizar as células similares do receptor – técnica que ainda precisa ser aperfeiçoada. Depois disso, a inseminação é feita artificialmente.

Presley ainda está na etapa inicial. “Retiramos os testículos e processamos as células, que estão em nitrogênio líquido na USP de Pirassununga”, explicou Pereira. Ele descarta usar as células para clonagem (“Em ave não é muito simples”), mas acredita que Presley, apesar de morto em idade avançada, ainda tenha alguma chance de gerar herdeiros: “Os homens têm essa vantagem em relação às mulheres. Podem ter filhos na terceira idade.”

Até que se conheça o destino das espermatogônias, Presley, qual seu homônimo americano, não terá morrido.

 

Em agosto de 2014, pouco mais de um mês após a morte de Presley, voltei à Fundação Lymington. Fui recebido por uma arara-cinza-azulada chamada Rudolph, que repetia o próprio nome à exaustão, além de gritar frases soltas em inglês (“Come on! Come on!”).

Linda Wittkoff chegou minutos depois, com alfaces que acabara de colher. O viveiro de Presley estava ocupado por um filhote de arara-azul-grande. Priscilla, a papagaia-de-peito-roxo enviuvada, havia se juntado a outras dez companheiras de espécie. Não se descarta a esperança de que ela volte a ter uma vida sexualmente ativa. Linda disse ter ficado triste, mas não surpresa, com a morte de Presley. “Ave disfarça, não se expõe quando está fraca. Para ele ter mostrado um sintoma tão grave, como parar de comer, era porque o fim estava próximo.”

O assunto migrou para o futuro da espécie. A maior parte das 100 ararinhas-azuis ainda vivas está fora do Brasil – 76 delas pertencem ao centro de preservação Al Wabra, do Catar, criado pelo xeque Saud bin Muhammed al-Thani, morto no final do ano passado. Existe um plano do ICMBio para que alguns desses animais sejam repatriados e reinseridos na natureza, em Curaçá.

O empreendimento é complexo. É preciso esperar que os animais se reproduzam e alcancem o patamar mínimo de 150 exemplares, antes de arriscar a vida de alguns tentando reinseri-los na natureza. Mas, como as ararinhas-azuis em cativeiro são aves idosas, elas produzem sêmen de baixa qualidade – o que dificulta o processo de reprodução.

Há também um problema ético: os atuais donos de ararinhas, como o centro de preservação no Catar, são os mesmos que fomentaram a extinção, tendo comprado as aves no passado. Linda Wittkoff acrescenta que é preciso haver uma revisão legal sobre a punição ao tráfico: “Não adianta fazer soltura se não houver leis mais fortes.”

Como se não bastasse, há dúvidas, mesmo entre os especialistas, sobre o objetivo da empreitada. Para o ornitólogo Carlos Yamashita, a ararinha é um “relicto evolutivo”. “Esse animal foi talhado para outros tempos”, explica. “Todo organismo tem um auge e um declínio, que pode durar alguns milhares de anos. A espécie das araras está senil, num final de linha, o que não quer dizer que não dure mais 20 mil anos.”

Pedro Develey, diretor da Sociedade para a Conservação das Aves do Brasil, concorda com Yamashita, mas faz uma ressalva: “A gente adiantou muito o que seria uma extinção natural.” Ele tem conversado com o Ministério do Meio Ambiente para tentar criar uma Unidade de Conservação de 44 mil hectares em Curaçá. A área, onze vezes maior que o Parque Nacional da Tijuca, contaria com uma política de recuperação da flora local. A proposta está sendo avaliada.

“Não dá para esperar. Ainda tem hábitat”, disse-me Develey, por telefone. “As pessoas que possuem essas ararinhas precisam ter a coragem de abrir mão delas, mesmo que seja arriscado. Se nascerem dez por ano, soltem dez por ano. Que se percam alguns bichos, mas tem que arriscar.” O risco maior, ele diz, é esperar indefinidamente. “Muda o governo, mudam os criadores. Não quero sair abrindo gaiola à força. Mas a conjuntura ideal é agora.”

O esforço deve persistir. “Ou voltamos essa verba para uma espécie menos ameaçada, ou corremos atrás de recuperar esse animal, porque ele é um ícone, um patrimônio mundial”, disse Patrícia Serafini. “Vamos desistir de reverter o que o próprio homem causou?”

Roberto Kaz

Roberto Kaz

Repórter da piauí, é autor do Livro dos Bichos, pela Companhia das Letras

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